#8M | Conheça Lélia Gonzalez: uma intelectual pioneira e atual 1

Lélia Gonzalez

Além disso, é o seguinte: sou negra e mulher. Isso não significa que eu sou a mulata gostosa, a doméstica escrava ou a mãe preta de bom coração. Escreve isso aí, esse é o meu recado pra mulher preta brasileira. Na boa. (Lélia Gonzalez)

A data do dia internacional das mulheres é um lembrete de luta, de reverência às nossas mais velhas e de direito às pluralidades de ser mulher. Nesse texto, evocamos a memória de uma das intelectuais brasileiras que abriu caminhos para outras percepções sobre a América Latina – ou melhor, como defendia, Améfrica Ladina – e o movimento de mulheres, mediante o enegrecimento das narrativas. Como ela mesma dizia, o negro tem que ter nome e sobrenome, se não o racismo coloca o apelido que ele quer, estamos falando da professora, filósofa, política, antropologa, militante do Movimento Negro e feminista negra, Lélia Gonzalez.

Como filha de Oxum, Lélia transitou como água pelos espaços de decisão política, sabia se articular para infiltrar pela produção do conhecimento e chamar atenção para a cultura brasileira, provinda da africanização do país. Quando necessário, também sabia ser correnteza, ia para a rua, para os debates acadêmicos dentro e fora do Brasil, escrevia, contava histórias nossas, mobilizava o avanço dos movimentos negros, especialmente, das questões pertinentes a realidade das mulheres negras amefricanas. 

Ao trazer a categoria política da “amefricanidade” a intelectual rompe com as fronteiras geográficas impostas e proporciona uma outra experiência do encontro da diáspora negra, forçada historicamente, com os povos originários, que já viviam no continente antes da colonização. Impulsionada tardiamente no meio acadêmico, Gonzalez é leitura fundamental inclusive para se fazer efetivar as leis 10.639 e 11.645 ao possibilitar pensarmos os brasis que contradizem a história dos “salvadores europeus” e afirmar que vivemos em uma terra indigena construída por mãos negras.

Tá armada a quizumba

Filha de mãe indígena e pai negro, Lélia nasceu em 1 de fevereiro de 1935 na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, e foi a decima setima filha dentre dezoito irmãs e irmãos. Na adolescência veio para o Rio de Janeiro junto com sua família, pois seu irmão foi convocado a trabalhar como jogador no Flamengo. Nessa cidade, ela trabalhou como empregada doméstica, conseguiu estudar com ajuda dos patrões e agarrou essa oportunidade, chegando a cursar história, filosofia e geografia na Universidade Estadual de Guanabara, atual UERJ. Inquieta, não parou por aí, fez mestrado em comunicação e doutorado em Antropologia, dominava o inglês, francês e o espanhol, chegando a representar o Brasil em vários eventos internacionais.

Lélia Gonzalez no Dia Internacional da Mulher, Goiânia, março, 1988. Acervo Lélia Gonzalez.

A primeira vez que se lê um texto escrito por Gonzalez ficamos imaginando a ousadia e irreverência que essa mulher tinha por não ter medo de materializar na palavra a africanidade que tanto é nomeada de “erro linguístico”. Com deboche, ironizava a miopia da branquitude que procura, a todo custo, estereotipar, inferiorizar e até romantizar a violência contra a mulher negra – pela construção das figuras da mulata, como a mulher sexualizada e desejada; da mãe-preta como a ama de leite; e da mucama, escravizada que serve a casa grande, a doméstica. 

A imersão em busca de compreender como o racismo opera, tem partida devido a morte de seu companheiro, Luiz Carlos Gonzalez, homem branco de ascendência espanhola, que, devido a pressão racista da família que não aceitava o matrimônio, não suportou e tirou a própria vida. Por isso, em vez de Lélia de Almeida, como homenagem a Luiz, Lélia traz o Gonzalez em seu nome. Diante das circunstâncias, a intelectual se engaja na luta antirracista e antisexista, em busca de combater esses processos violentos que impactam toda a sociedade.

Insubmissa, não se contentava em estudos dentro das caixinhas, tanto que os tencionavam a ponto de exercer a, hoje chamada, transdisciplinaridade, para conseguir abarcar a complexidade das questões que permeiam a Améfrica Ladina – tal nomeação, primeiro citada pelo psicanalista MD Magno, ganha propulsão com Lélia ao rejeitar a imposição eurocêntrica da latinidade e assumir que partimos de outra trajetória cultural. A ladinidade é o que permeia nossas sobrevivências e gambiarras cotidianas, mesmo imersos a uma cultura que insiste em desprezar suas raízes – e a transações criativas de saberes dos povos desse lugar. 

“Cumé que a gente fica?”

Como água que perfura as rochas e abre brechas em muros, Gonzalez percorreu os estudos de linguística, sociologia e psicanálise, e já no final da década de 1970 realizava reflexões sobre as colisões entre as categorias de raça, gênero e classe – hoje conhecida como interseccionalidade – a partir de um feminismo afrolatinoamericano. Nessa conversa, ela articulava o caráter multirracial e pluricultural das sociedades dessa região reforçando a importância da luta feminista situada pela experiência das mulheres amefricanas e ameríndias.

“Tratar, por exemplo, da divisão sexual do trabalho sem articulá-la com seu correspondente em nível racial, é recair numa espécie de racionalismo universal abstrato, típico de um discurso masculinizado e branco. Falar da opressão da mulher latino-americana é falar de uma generalidade que oculta, enfatiza, que tira de cena a dura realidade vivida por milhões de mulheres que pagam um preço muito caro pelo fato de não ser brancas”, diz Lélia Gonzalez, no texto Por um feminismo afrolatinoamericano. 

Para compreender o racismo à brasileira, a intelectual traz o diagnóstico a partir da neurose cultural que tem como sintoma o ato de ocultar aspectos de uma realidade, são formas de impedir, silenciar, a evidência dos conflitos raciais. Isso contribui para a manutenção de benefícios a um dado grupo social, pela invenção de uma história e de processos de recalcamento do outro, que não só silencia questões pertinentes à população negra e indigena, mas também faz com que se desconheça suas narrativas.

Como uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), não media esforços para se fazer presente nas manifestações e de tomar a palavra para denunciar a falsa democracia que se firmava no país. Contudo, também questionava a reprodução do patriarcado dentro do próprio MNU, em que não se tinha mulheres negras na liderança e não se discutia questões pertinentes a elas, diante dessa necessidade, ajuda a fundar o Movimento de Mulheres dentro do MNU.

Ato publico na Cinelândia, Rio de Janeiro, em 1983. Lélia Gonzalez discursa pelo Movimento Negro Unificado (MNU). (Foto Januário Garcia.

Entre outros feitos que marcam conquistas atuais do povo negro, a professora ministrou o primeiro Curso de Cultura Negra na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ), em 1976, foi uma das fundadoras do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro (IPCN-RJ), do Nzinga – Coletivo de Mulheres Negras e do Olodum (Salvador). Participou da primeira composição do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), participou da constituinte de 1988 e do primeiro Encontro Nacional de Mulheres Negras em 1988.

“E eu não sou uma mulher?”

“É justamente aquela negra anônima, habitante da periferia, nas baixadas da vida, quem sofre mais tragicamente os efeitos da terrível culpabilidade branca. Exatamente porque é ela que sobrevive na base da prestação de serviços, segurando a barra familiar praticamente sozinha”, afirma no texto Racismo e sexismo na cultura brasileira.

Para compreender o contexto que Lélia aponta em sua trajetória, nos voltemos para alguns números. Aqui a pandemia nos alerta para dados importantes sobre quem está à frente desse combate. Segundo o Conselho Federal de Enfermagem, o perfil da equipe de enfermagem brasileira é majoritariamente constituído por mulheres negras, são 53,3%. E cruzando dados sobre raça e escolaridade, temos 57,4% de trabalhadoras negras no nível médio, sob o comando de 57,9% de enfermeiras brancas. 

Outro dado, que também nos fornece um retrato do país, é a pesquisa sobre “Análise das Condições de Vida da População Brasileira”, realizada pelo IBGE, em que 7,8 milhões de pessoas vivem em casas chefiadas por mulheres negras, e 3,6 milhões em casas de mulheres brancas. Sendo que 63% dos lares chefiados por mulheres negras estão abaixo da linha da pobreza, vivendo com apenas 420,00 por mês.

E ainda, o Brasil é o 4º país que mais encarcera, e o número de mulheres em situação de cárcere aumentou aproximadamente 675% desde o começo do milênio. Segundo dados do Infopen, 63,55% dessas mulheres encarceradas são negras. O número do Atlas da Violência de 2020 também corrobora com os demais, sendo que 68% das mulheres assassinadas no país são negras. E há quem diga que não existe conflito racial no país.

Quando observamos onde estão as mulheres negras nos espaços de decisão política e simbólica, nos deparamos com uma contradição, já que as mulheres negras são a maior porcentagem da população do país, 27,8%. De acordo com o Censo da Educação Superior mais recente, organizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação, mulheres negras (pretas e pardas) com doutorado, não chegam a 3% do total do corpo docente na pós em todo o país. Já homens brancos doutores são 43% dos docentes dos cursos de pós-graduação. Com isso, percebemos quem acessa a possibilidade de sistematizar o conhecimento e exercer pesquisa científica. 

Em relação a lideranças da empresa, a pesquisa realizada pela consultoria Indique Uma Preta e pela empresa Box1824, mostrou que apenas 8% das mulheres negras brasileiras que trabalham no mercado formal ocupam tais cargos. 

“Ao reivindicar nossa diferença enquanto mulheres negras, enquanto amefricanas, sabemos bem o quanto trazemos em nós as marcas da exploração econômica e da subordinação racial e sexual. Por isso mesmo, trazemos conosco a marca da libertação de todos e de todas. Portanto, nosso tema deve ser de organização, já!”, finaliza Lelia Gonzalez em Mulher negra.

Benedita da Silva, então vereadora do Rio, e Lélia Gonzalez em viagem a Nairobi (Quênia), em 1985. Acervo pessoal.

Durante seus textos e exposições, Lélia denunciava esse acúmulo de camadas de violência histórica sobre as mulheres negras, feridas ainda não tratadas abertamente pela sociedade brasileira e que faz o dia de hoje um marco de luta pela efetivação da vida, mas principalmente, pela reivindicação de humanidade para todas as mulheres. Isto é, é uma data para clamarmos por justiça ao mesmo tempo que honramos o legado das que vieram antes e tiveram suas vidas roubadas pelo racismo.

Dandara dos Palmares, Claudia Ferreira, Marielle Franco, Beatriz Nascimento, Luana Barbosa, presentes! 

Imagem em destaque: Acervo Lélia Gonzalez.

*Texto escrito pelas repórteres: Ludmila Almeida e Eduarda Nunes.

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