A pandemia e a fé de matrizes africana e indígena Comentários desativados em A pandemia e a fé de matrizes africana e indígena 1229

A pandemia do coronavírus está no seu terceiro ano e o mundo não voltará a ser o mesmo. Desde março de 2020 muitas transformações aconteceram no planeta e nas pessoas Mas para quem tem fé, muitas certezas se mantiveram, mesmo em meio aos turbilhões individuais e coletivos desse período.

Com o isolamento social, templos religiosos precisaram adaptar seus ritos sagrados às recomendações da Organização Mundial de Saúde, às restrições dos governos estaduais e municipais. 

Por serem coletivas e de ritos que pedem muita comunhão entre os fiéis, as religiões de matrizes africanas e indígenas tiveram seus caminhos próprios para lidar com o distanciamento e a redução do contato com os sacerdotes, assentamentos e outros instrumentos sagrados.

Como está o seu Orí?

Orí é o primeiro Orixá que recebemos ao nascer, um Orixá único, nosso, que é responsável pela forma como nos conectamos com o Sagrado e com quem está ao nosso redor. Se localiza exatamente naquele local a que destinamos bastante atenção em uma criança que nasce: a moleira.

Como você tem cuidado da sua cabeça? Se em tempos “comuns” cuidar do Orí nem sempre é uma tarefa simples, durante uma pandemia o desafio fica ainda maior. O isolamento social, embora seja comprovadamente eficaz na prevenção da contaminação do coronavírus, trouxe sequelas sociais que reviraram o psicológico das pessoas.

A quantidade de pessoas que não puderam fazer um isolamento social rígido foi enorme. Embora a dificuldade de notificação através do Governo Federal, estudos como o do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde da PUC-Rio em 2021 demonstraram que 55% da população negra morreu de Covid-19 ao mesmo passo em que 38% da população branca foi vitimada. Esses dados demonstram o quanto parte significativa da população não tem acesso fluido aos serviços de saúde desde antes, inclusive, à pandemia.

A fome, as casas que são pequenas para as famílias que moram nelas, o desemprego, o salário que diminuiu, os parentes mais velhos e com comorbidades no centro do alvo da doença, o impeditivo de chegar em seu templo religioso para encontrar um norte. Quem já vivia com dificuldades, passou a ter mais algumas para se preocupar.

Sendo religiões em que a ancestralidade é base importante, proteger mães, pais e filhos de santos de idade avançada foi  uma das maiores provas de cuidado que poderia ser exercida.

Entretanto, isso também significou deixar de estar no espaço do terreiro por um longo tempo.  “A nossa religião é de compartilhamento de tudo. Da alimentação, do Axé, principalmente. E nós tivemos que parar para nos proteger”, conta Ceça de Oyá, Iyalorixá do Ilê Asé Iyá Oyá Idainã em Olinda (PE).

Oferenda para os Pretos Velhos. Acervo pessoal.

Mas isso não significou uma pausa na conexão com o Sagrado. No Candomblé, e em outras religiões de matrizes africana e indígena, todo o Sagrado, que é cultuado nos terreiros, está na natureza.  É o vento que corre, o mar que banha, a lama dos mangues que gestam vidas, as árvores, as ervas, os animais. “A gente precisa compreender que o Orixá está dentro de nós e o único que vai para todos os lugares com você é o seu Orí”, afirma a Mãe de Santo.

Ceça, que também é Mestre em Educação pela Universidade Federal da Paraíba e uma das coordenadoras executivas da Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco, comenta ainda que “é possível sim contar com a Mãe e Pai de Santo, mas também é essencial aprender você mesmo a cuidar da sua cabeça em momentos como esse que a pandemia nos coloca. O grande Orixá é o Orixá Orí”

Historicamente, as Casas de Axé sempre sofreram dificuldades para praticar o seu credo. Em seu livro “O Que É Intolerância Religiosa?” da coleção Feminismos Plurais, o mestre e doutor em Linguística e Babalorixá Sidnei Nogueira evidencia logo na introdução o quanto que, no Brasil, “a lei foi utilizada como ferramenta de desigualdade e opressão contra povos trazidos para a colônia na condição de escravos”. Em se tratando da pandemia, o eurocentrismo e etnocentrismo que faz a manutenção dessas desigualdades teve como aliado o Coronavírus.

No Estado Novo de Vargas (1937-1945), os pais e mães de santo criaram formas silenciosas de realizar suas atividades e, assim, não chamar a atenção da vizinhança. Essa chamaria a Polícia por conta do barulho e do crime que era ser de candomblé, umbanda e demais religiões de matrizes africana e indígena naquele momento.

Já em 2020, a forma mais eficaz de garantir a continuidade dos cultos e da integridade dos membros dos terreiros e centros espíritas foi pelo fortalecimento do Orí de cada um em sua casa. Foi a partir do afastamento que o contato com os demais Orixás deveria ser mantido e a saúde das Iyalorixás, Babalorixás e pessoas mais velhas preservada.

“Abaixo de Deus, é o nosso Orixá Orí que nos protege”, afirma Mãe Miriam de Xangô. Segundo ela, é o Orí que primeiro dá a proteção e o entendimento de como agir e reagir de acordo com as situações. Iniciada no candomblé em 2008 pelo Ilê Obá Ogunté, o Sítio de Pai Adão – o  primeiro terreiro da tradição nagô em Pernambuco, hoje ela é Iyalorixá do Ilê Asè Obá Aganjú Aseobá, também em Recife (PE). Ela conta que pouco antes do início do ano de 2020, percebendo que tempos difíceis que viriam, procurou preparar sua casa e seus filhos minimamente para o tempo desconhecido que estava sendo prenunciado.

Mãe Miriam de Xangô. Foto: Aye Funfun

Durante o primeiro ano da pandemia, o terreiro parou completamente. O contato com os filhos se limitou às plataformas online. Orientação, reuniões, o contato passou a ser somente verbal. Com o avanço da cobertura vacinal na cidade e no país, algumas atividades foram retomadas com os devidos cuidados necessários e restrito aos filhos da casa.

A Iyalorixá conta que com os cultos e celebrações suspensas, o desafio para manter a cabeça firme era o próprio cuidado com a saúde. Fazer suas rezas, mas também “cuidar da sua forma de vida, ter uma vida saudável. Não adianta vir dar muitas obrigações e quando sair ficar fazendo coisas erradas, não mudar a conduta social”, defende.

Mãe Miriam conta que o bem estar religioso está muito ligado às questões morais de cada pessoa, mas ninguém fica totalmente blindado aos fatores sociais externos. Em se tratando de um contexto de pandemia e sendo a população negra e periférica uma das mais prejudicadas no acesso à prevenção do vírus, à saúde e ao socorro, não raro a reza e as orientações à distância precisam buscar reforço.

Para ela, quando o autocuidado não se mostra suficiente para se manter são, é preciso evocar Oxalá, o Orixá dos Orixás, para realizar um cuidado que só pode ser feito através das mãos dos zeladores e sacerdotes das religiões de matriz africana.

Mãe Miriam de Xangô e seus filhos, filhas e irmãos de santo do Ilê Asè Obá Aganju Aseobá. Acervo pessoal.

Durante a pandemia, cuidar do corpo, da mente e da espiritualidade foram os principais meios de tentar passar minimamente ileso por todas as transformações que o mundo girava. Tarefa que parece simples, mas que em muitos momentos foi impossível, dada a irresponsabilidade do Governo Federal e de muitos governos estaduais e municipais no trato com a pandemia.

Hoje, o país criador do Sistema Único de Saúde (SUS), que oferece saúde de forma universal e gratuita e que é modelo em todo o mundo, soma mais de 650 mil mortes por Covid-19. Os primeiros meses da pandemia foram mais letais para pessoas negras, pobres e de baixa escolaridade, segundo esta pesquisa do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, grupo da PUC-Rio. Nos primeiros meses de vacinação, a população branca foi duas vezes mais imunizada do que a população negra, segundo a apuração da Agência Pública.

A covid sob a ótica da religiosidade indígena

Embora diversos, os povos indígenas cultuam similaridades entre si e entre religiões de matriz africana. Afinal, como Mãe Ceça conta, eles também foram essenciais para que os africanos que vieram ao Brasil na condição de escravizados pudessem sobreviver e criar suas raízes aqui.

Dentro da religiosidade indígena, a natureza é a manifestação de Deus. “São os animais, as matas, os espíritos da floresta, os animais de rios, o mar, as marés. Há essa conexão com a natureza. Essa é a base da nossa religiosidade”, conta Maya Tupinambá, jornalista manauara que hoje mora em Recife.

Maya Tupinambá, jornalista. Acervo pessoal.

Maya conta que os ritos da maioria dos povos indígenas foram pausados para evitar o contágio e proteger os mais velhos. Mesmo assim, muitos não conseguiram sobreviver. “Na primeira fase, o ‘auge’ da pandemia atingiu os mais velhos e pra gente os mais velhos são quem carrega a sabedoria, conhecimentos ancestrais, infelizmente muitos dos povos perderam seus mais velhos, com isso não deu tempo de transpassar os conhecimentos dos mais velhos pros mais novos”.

Segundo os indígenas mais velhos, “de tempos em tempos vamos passar por um processo de declínio para aprender a olhar o que somos e focar no que realmente importa”, conta Maya. “Assim como na época do colonialismo onde europeus  trouxeram doenças pra cá, fazemos essa analogia com os tempos atuais.” Nesse tempo, muitos tiveram que aprender a fazer alguns rituais sozinhos ou com orientação. O autocuidado contou com a medicina natural, o uso de chás e ervas, e a espera pela vacina.

O ideal, inclusive, com essa pandemia, era para aprendermos a viver coletivamente de forma mais humana…que infelizmente não aconteceu

Maya Tupinambá

Lidando com entraves

No entendimento de Mãe Ceça de Oyá a pandemia se mostrou uma provocação em duas frentes: atenção à natureza que está dentro de nós, mas sobretudo à que nos rodeia. A Iyalorixá entende que houve uma reação da Terra ao desrespeito que sofre em nível global e a maior “penalização” de pessoas e territórios mais pobres nada mais é do que reflexo da desigualdade social provocada pelos detentores de poder econômico pelo mundo: “como querem que façam isolamento num ônibus lotado?”, indaga.

As maiores dificuldades enfrentadas pelas Casas de Axé condizem com as que pessoas negras e de periferia enfrentam, sobretudo por esse ser o território onde os terreiros estão geralmente. Lidar com o racismo institucional e ambiental intensificado ao mesmo tempo em que foi necessário restringir as atividades com as comunidades foi doloroso. Sobretudo por não poder contar com o Estado, de fato, na garantia de condições de prevenção ao Coronavírus.

Pela Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco, conta Ceça, a ação de arrecadação de alimentos e kits de higiene para distribuição nas comunidades de terreiro e arredores foi uma das estratégias para seguir combatendo o genocídio provocado pela gestão do Governo Federal durante a pandemia.“O projeto de extermínio do nosso povo nunca parou”, afirma. No Governo Bolsonaro, embora as dificuldades com as notificações oficiais, os povos de terreiros e outras comunidades tradicionais afirmam que sofreram ainda mais perseguição e desrespeito tanto por vias institucionais, como por cidadãos comuns.

A população indígena foi ainda mais desrespeitada e cerceada nos últimos anos. O avanço do garimpo e dos madeireiros em áreas demarcadas e não demarcadas e a insistência no Marco Temporal, que pretende considerar de direito dos Povos Originários brasileiros somente as terras indígenas que existiam até a promulgação da Constituição  Federal de 1988, demonstram. Os Yanomamis, que ficam localizados em terras em Roraima e no Amazonas, foram um dos mais atingidos pela Covid-19, sobretudo por conta da negligência do Estado.

Embora haja avanços, nada está totalmente garantido para o povo de axé

Em junho de 2021 em Goiás aconteceu mais um episódio que fica marcado na história do povo de terreiro de matriz africana no Brasil. A caça a um homem foragido por ter matado uma família inteira na Ceilândia, no Distrito Federal, e alguns outros crimes resultou na invasão e depredação de pelo menos dez terreiros pela Polícia Militar e Civil na região de Águas Lindas de Goiás.

Com uma força-tarefa policial de mais de 400 homens, a demora na captura de Lázaro Barbosa pareceu ser justificada na demonização das Casas de Axé que encontraram a alegação perfeita. Não precisou de muitas evidências  para que a mídia resgatasse o racismo descarado no tratamento com as religiões de matriz africana nas décadas passadas. A partir de registros de um assentamento do Orixá Exu de um dos terreiros invadidos, o foragido foi associado aos rituais de “magia negra”, mas quando foi apanhado e assassinado com quase 40 tiros de pistola e fuzil, dentro de sua bolsa foi encontrada uma Bíblia. 

Quanto mais distante do centro, mais difícil o acesso à saúde, à educação e às políticas públicas em geral. Dentro da tradição Angola, Dani Sanchez é a Makota Roxi Mutaledi, uma das zeladoras dos orixás da Tumba Nzo Jimona dia Nzambi, terreiro que cultua a umbanda e o candomblé em Águas Lindas de Goiás. Ela conta que essa é uma área rural que tem a especulação imobiliária que tomou conta do Distrito Federal como uma marca. Lá, moram pessoas que trabalham no DF, mas que não conseguem dar conta dos altos custos de morar  nas cidades que ficam mais próximas do Distrito. Lá os terreiros cumprem o papel de preservação e cuidado da natureza e também dessas pessoas. 

Através da Associação Vida Inteira, a Tumba Nzo Jimona dia Nzambi faz trabalhos sociais com as comunidades do entorno desde antes da instalação da Casa de Axé. O Babalorixá Tat’etu Ngunzetala deu início a uma relação de respeito e comunhão com a vizinhança antes mesmo de receber seu primeiro filho de santo. Estima-se que 90% das pessoas atendidas sejam negras e retirantes ou descendentes de nordestinos.

“Onde o Estado não chega a gente sabe que os terreiros chegam porque a gente sabe que os terreiros têm uma ação social. E essa região onde a gente tá localizado é uma região onde o estado do Goiás não nos olha. Não olha praquelas pessoas que estão em situação de extrema pobreza e que o terreiro é o único alicerce. Todo mundo ficou muito impactado com a situação de como eles chegaram no terreiro porque tudo foi visto, a polícia chegando lá botando fuzil na cara de pai de santo” Dani Sanchez, Makota Roxi Mutaledi.

A pandemia não foi um choque somente para os fiéis das religiões de matrizes africanas e indígenas, que precisaram parar seus ritos e obrigações, mas também para as pessoas que eram/são atendidas pelos trabalhos sociais que esses terreiros também fazem. Makota Roxi Mutaledi conta que sua casa pode continuar as ações de distribuição de cestas básicas e kits de higiene, mas que, por exemplo, as ações que são direcionadas para a diminuição das violações intrafamiliar, dentro das casas, e institucionais, tiveram que parar.

Dani Sanchez, Makota Roxi Mutaledi. Acervo pessoal.

Embora toda a importância dessas instituições nas periferias da ação dos poderes públicos, essas Casas de Axé enfrentam severas dificuldades para regularizarem-se enquanto templos religiosos. Em Goiás e no Distrito Federal, por exemplo, a Makota também é assistente social e trabalha como assessora parlamentar do deputado distrital Fábio Félix. Nessa posição, ela acompanha a luta pela regularização dos terreiros e comunidades tradicionais da área.

Ela conta que, embora todo o esforço feito junto à Defensoria Pública do DF para auxiliar os terreiros a construir a documentação necessária para regularização do terreiro e do terreno, existem outras barreiras institucionais. O não reconhecimento das religiões de matrizes africana e indígena enquanto religiões e a falta de recursos financeiros para que políticas públicas e afirmativas para essa população sejam postas em práticas efetivamente são algumas delas.

“A gente tem essa dificuldade do reconhecimento do Candomblé como religião. Apesar do STF já garantir nosso direito de culto e de fé”, relata Dani Sanchez. “A própria constituição, vários outros artigos da lei falam sobre nossa tradição e nossa fé mas muitos parlamentares utilizam de muleta o fato da gente não ter um livro, uma escritura sagrada, assim como existe no islamismo, no cristianismo, os próprios judeus, [para dificultar a regularização].”

O Candomblé, a Umbanda, a Jurema Sagrada, o culto aos Caboclos e as demais religiosidades indígenas e afro-brasileiras são ancoradas na tradição oral. Ou seja, a história, os fundamentos e a sabedoria da religiosidade é passada através da fala. Essa é uma característica muito própria de sociedades africanas e indígenas e que não desqualifica a fé de quem faz parte dessas religiões. Pelo contrário, demonstra o quanto a oralidade tem dado conta da perpetuação de como cada religiosidade é vivida e praticada. Daí a grande importância dos mais velhos em todas elas e a importância de garantir a saúde e a vida dessas pessoas como foi mencionado no início da reportagem.

Além disso, “a gente tem brigado é que a gente tem uma fé própria, uma língua tradicional. Sé é o povo Bantu, vai falar kimbundo ou kicongo, se é o povo Iorubá vai falar o próprio Iorubá. Você tem as línguas tradicionais nativas, que são do culto de caboclos. Então tem uma série de questões que nos colocam nesse lugar de religião‘’, afirma Dani Sanchez.

Como exemplo da falta de políticas públicas que protegem os terreiros, Dani retoma as invasões que aconteceram no período de caça à Lázaro. “Mais de 10 terreiros foram invadidos pela Polícia Civil e Militar, tanto do DF como do Goiás, numa ação que tentou criminalizar e demonizar as religiões de matriz africana. E quando a gente entrou com uma ação judicial, um habeas corpus coletivo, solicitando que essas buscas fossem cessadas, a gente teve como resposta o sigilo dessa operação”, evidencia a Makota.

Por outro lado, embora a construção de cargos e instituições direcionadas ao combate ao racismo e à proteção da população negra, suas culturas e seus credos, a falta de recurso impede que políticas públicas cheguem, de fato, ao público-alvo. Dani acredita que “não adianta ter só a estrutura e não ter condições para tocar esse projeto político. Se você não tem recursos para botar o Estatuto da Igualdade Racial para rodar, seja ele [em âmbito] nacional ou distrital, a política pública não anda. É isso que a gente vive hoje’’.

De Olinda, Mãe Ceça de Oyá participou ativamente dos conselhos que construíram e aprovaram o Estatuto da Igualdade Racial que foi sancionado em 2010. Com a participação de organizações e movimentos negros de todo o país, esse é um documento que deve ser usado como referencia para o desenvolvimento de políticas públicas mas não é. “O Estatuto está lindo, se fosse utilizado, estaríamos vivendo em harmonia”, acredita a Iyalorixá.

a gente não consegue avançar se não existe recurso. A política pública só funciona com adequação orçamentária

Dani Sanchez, Makota de Nkissi e assistente social.
Oferenda para Caboclo, os donos das matas. Foto: Eduarda Nunes.

Histórico de desproteção dos povos de terreiro

Diferente dos europeus, que chegaram ao Brasil como colonos ou como força de trabalho e povoamento legal, os africanos deixaram de ser pessoas na África e se tornaram trabalhadores braçais ou domésticos desprovidos de humanidade para chegar aqui.Os grupos étnicos se misturaram, famílias perderam o contato, pessoas foram rebatizadas e tiveram suas crenças proibidas em favor do Cristianismo, mulheres e homens foram violentados, espancados e explorados das mais diversas formas.

À época dos primeiros anos da colonização portuguesa no Brasil, o líder supremo do Catolicismo Apostólico Romano, o Papa Nicolau V, havia permitido, ou melhor, orientado que a população africana fosse escravizada como forma de reparação da alma dessas pessoas.

(…) nós lhe concedemos, por estes presentes documentos, com nossa Autoridade Apostólica, plena e livre permissão de invadir, buscar, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo, onde quer que estejam, como também seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades (…) e reduzir suas pessoas à perpétua escravidão, e apropriar e converter em seu uso e proveito e de seus sucessores, os reis de Portugal, em perpétuo, os supramencionados reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades, possessões e bens semelhantes (…)
Fragmento daDum Diversas (bula papal publicada em 18 de junho de 1452.

O fato é que essas pessoas encontraram formas de sobreviver e fazer suas culturas e crenças também fossem conservadas. Seja alterando elementos bases de seus credos ou adaptando e integrando-os às que já eram cultuadas pelos povos originários do Brasil. Através de muitas estratégias de sobrevivência, os povos negros e indígenas conseguiram manter suas religiosidades vivas até hoje.

Segundo dados do Datafolha em 2020, apenas 2% dos brasileiros fazem parte de religiões de matriz africana e indígena. Sendo o Candomblé a Umbanda as manifestações mais conhecidas. Mesmo sendo uma população pequena, é a que mais sofre perseguições e violências, físicas e simbólicas, por parte, também, de fiéis de outras denominações religiosas.

Se a história oficial do Brasil, a que é contada nos livros didáticos das escolas do ensino básico, fosse escrita a partir da ótica dos indígenas e africanos que foram escravizados, português nenhum seria herói nacional.

Até 1978, com a criação do Movimento Negro Unificado(MNU), o Brasil ainda não contava com uma força negra organizada para reivindicação de políticas públicas de reparação da escravidão. A partir desse momento, a população negra passa a integrar mais as discussões sociais e raciais do país numa agenda conjunta de norte a sul do País. 

A partir da articulação gerada pelo MNU a importância da agenda negra foi elevada e as manifestações públicas tiveram cada vez mais força. A Marcha Zumbi, em 1995, é uma das mais importantes na história da população negra do Brasil. Marcando os 300 anos da morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares, mais de 30 mil pessoas marcharam em Brasília, no Distrito Federal, para denunciar e evidenciar o racismo e a falta de políticas públicas reparatórias para a população negra. Foi a primeira vez que um Presidente da República (Fernando Henrique Cardoso) reconheceu oficialmente o histórico racista do país. 

Em 2015 a Marcha das Mulheres Negras em Brasília que levou mais de 50 mil mulheres de todas as regiões do país para o Distrito Federal. Lá, a presidenta Dilma Rousself recebeu e também assinou a carta trazida pelo movimento. Enfim, essas mobilizações públicas e políticas em prol da população negra evidenciam também em embates que os povos de terreiro são submetidos. Elas pressionaram, e ainda pressionam, que o Povo de Axé receba a devida proteção institucional por todo o racismo religioso a que os fiéis sofrem desde toda a história do País.

Em 2010 foi aprovado o Estatuto da Igualdade Racial, em 2012, a Lei de Cotas. Mesmo com avanços, os povos de terreiro não foram e ainda não são poupados. Em 2022, o Ilê Axé Ayabá Omi, também conhecido como Terreiro das Salinas, no litoral sul pernambucano, foi quase completamente incendiado no primeiro dia do ano. A briga pelo respeito à suas diversidades de existências é uma constante na trajetória dos povos de terreiro e das comunidades tradicionais.  

XIV Kipupa Malunguinho (2019), evento em Pernambuco que celebra a força da Jurema Sagrada e a entidade Reis Malunguinho. Foto: Eduarda Nunes.
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