A pandemia no Chile, um país em constante estresse pós-traumático 3

As marcas invisíveis da violência urbana acompanham pessoas e gerações por muito tempo. O transtorno de estresse pós-traumático é o sofrimento psíquico que depois de situações de grande trauma. O Chile viveu até pouco tempo sob a mesma Constituinte elaborada e aprovada durante o período da ditadura de Pinochet. O regime militar que privatizou os  sistemas de educação, saúde e aposentadoria e terminou com o saldo de mais de 3 mil mortos ou desaparecidos e 40 mil torturados. O espaço urbano militarizado, com carabiñeros (policiais militares) expondo armas de grande porte e cometendo abusos, inclusive em meio à pandemia, torna visível o quanto Pinochet marca o dia a dia dos chilenos até hoje.

O Chile é o país de maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da América do Sul ao mesmo passo que também é um dos países mais desiguais do continente. As populações historicamente vulnerabilizadas desconhecem o título de país próspero e são quem sofrem o ônus de viver no país sulamericano em que o modelo de gestão neoliberal mais deu “certo”.

Em outubro de 2019, o mundo inteiro acompanhou a força das revoltas populares Chilenas. Imagens do país rodaram o mundo por uma série de protestos impulsionada por estudantes secundaristas contra o aumento da tarifa do transporte público em Santiago, capital do Chile. Posteriormente, outras reivindicações foram agregadas e milhares de Chilenos e migrantes aderiram às manifestações. O Favela Em Pauta conversou com Cari Amaral, brasileira que mora em Santiago há 15 anos e integra o Kilombo Negrocentricxs e a Red de Mujeres Afrodiasporicas Negras, para entender um pouco sobre como a país se comporta em meio a esses dois momentos históricos em curso – a convocação para uma nova Constituinte e a pandemia do Coronavírus.

Cari Amaral

Favela em Pauta: Como viveu o Chile desde outubro de 2019 até a declaração da pandemia do Coronavírus pela OMS?

Cari Amaral: Bom, a vida no Chile mudou muito. Pelo menos aqui em Santiago, desde outubro de 2019, que foi o chamado estallido social (período em que acontecem manifestações em massa com frequência). Esse processo implicou uma redefinição de espaço público, tinha muitos protestos, principalmente nos dias de segunda e sexta-feira, mudou os trajetos dos ônibus, tinham que desviar da alameda – que é uma das ruas principais aqui do centro. Tinha muita presença policial e teve uma reapropriação do espaço, muitas pessoas começaram a intervir nas paredes fazendo grafite ou  colando material visual com diversas opiniões políticas. Foi uma revolta muito generalizada, sabe? Muitas pessoas estavam se manifestando por muitos motivos diferentes, mas o que mais se sobressaia era justamente os efeitos do neoliberalismo no Chile que vem da mão da Constituição de 1980, escrita na ditadura. E acabou uma certa normalidade. Não tinha condições de chegar na universidade, porque tava tendo mto conflito todos os dias na ruas. Estações do metrô fecharam.

E aí tem uma disputa sobre a verdade, né? Porque muitas pessoas sentem ou sabem que a queima do metrô foi talvez uma montagem interna para poder instaurar o estado de emergência e algumas pessoas dizem que foram os manifestantes. Mas pelas condições em que aconteceram, pela forma em que incendiaram a infraestrutura do metrô e os materiais que foram utilizados pra poder incendiar dá para suspeitar muito que foi um trabalho interno de montagem.

E foi muito chocante a instalação do estado de emergência porque teve toque de recolher e muita presença militar na rua. Isso revitimizou muitas pessoas que viveram na época da ditadura e traumatizou toda uma geração nova de pessoas.

FP: E como vocês viveram a pandemia?

CA: A pandemia foi profundamente dividida, como muitas outras coisas aqui no Chile. É importante mencionar que teve uma campanha super aguda dos meios de comunicação e do Governo de usar as pessoas migrantes, principalmente as pessoas migrantes negras e marrons, indígenas, como um alvo fácil para culpar sobre a pandemia. Por exemplo, tem muitos migrantes haitianos, que vivem em situação super precária  pelo racismo que enfrentam aqui no Chile. Há dificuldade em regularizar a situação migratória, em conseguir trabalho e muitos haitianos vivem em habitações lotadas onde muitas famílias dividem um terreno não tão grande. E aí teve uma criminalização muito forte dessas pessoas, muitos jornalistas iam gravar nesses lugares perguntando por que eles não cumpriam as medidas de isolamento social, entrevistavam vizinhos que tinham opinião super racista e xenofóbicas, que falava que os haitianos são pessoas que não tem capacidade de entender as leis ou que não respeitam os protocolos sanitários. É uma falta de entendimento da problemática racial muito grande.

E, claro, nos bairros ricos, as pessoas que tem seus privilégios puderam fazer quarentena, deixar de trabalhar. Mas nunca soltaram a mão de obra, né? As mulheres que trabalham como domésticas, trabalhadoras particulares, não puderam deixar de trabalhar. As pessoas que trabalham recolhendo o lixo nunca deixaram de trabalhar. Muitas dessas pessoas são pessoas negras. Ficou bem explícito que no início da pandemia a maioria das pessoas contagiadas era pessoas com dinheiro, que tinham viajado pro estrangeiro, que estavam de férias. Mas paulatinamente foi se generalizando o estágio dos contágios justamente porque os trabalhadores que prestavam serviços para essas pessoas tinham que atravessar a cidade igual, não podiam fazer uma quarentena segura e muitas pessoas tiveram que decidir entre se arriscar a sair pra trabalhar pra não morrer de fome.  

E nos bairros mais pobres, muita presença militar fiscalizando, mas não tava tendo tanta ajuda. Tipo, um ou dois meses depois de decretar o estado de emergência pela pandemia as regiões ficaram encarregadas de, com recursos próprios, enviar cesta básica para as pessoas do seu município(comunas). Como era justamente uma atividade municipalizada, teve muita diferença entre as comunas.  As mais pobres tinham outro nível de alcance de produtos. Tinham comunas que recebiam até detergente em pó e outras que só recebia chá, arroz, um pouco de feijão. Não tinha equidade entre os bairros. E, claro, os bairros ricos, agora que já está na segunda onda, seguem funcionando e tem todas as facilidades para que as pessoas que tem dinheiro possam ter acesso a restaurantes, bar, coisas assim.

Tem um grupo de pessoas ainda mais vulnerabilizado nessa pandemia que são as pessoas do movimento sem terra. Aqui no Chile o ato de ocupar o espaço mesmo que não seja seu legalmente é chamado de Tomas de Terreno e tem muitos chilenos e migrantes vivendo nessas circunstâncias. Mas, durante a pandemia houveram várias mortes de mulheres haitiana que vivam nessas condições que foram ao médico com sintomas da Covid-19 e, por serem migrantes irregulares, eram mandadas de volta pra casa. E aí quando voltaram, elas faleceram e o serviço médico legal do Chile demorou muitas horas pra buscar o corpo sem ter o PCR, o teste para saber se a pessoa tinha Covid ou não. Wislande Jean y Sandra Janvier foram duas mulheres haitianas que morreram por negligência médica e que o serviço médico legal demorou muito tempo pra recolher o corpo delas, o que sgnificou um perigo de contágio para toda a família delas.

FP: E como acontecem as ações de solidariedade em meio a tudo isso?  

CA: Eu acho muito importante falar sobre as ollas comunes, que é o ato de comprar legumes, comida e cozinhar num panelão para todas as pessoas que precisarem [no Brasil, os sopões comunitários são nossas ollas comunes]. Isso é uma prática muito comum aqui no Chile, em muitos territórios. Eu lembro que quando tinham manifestações, as pessoas mais jovens faziam ollas comunes para poder alimentar as pessoas que tavam protestando. Muitos dos que tavam protestando, por exemplo, eram pessoas que estavam em linha de frente, em contato direto com a polícia e que recebiam a maior quantidade de balas e outros machucados. Estavam na linha de defesa, mas também viviam em situação super precarizada, muitas pessoas sem casa, que tinham escapado do sistema de suposta proteção ao menor, mas que é um local que tem muitos casos de abuso, negligência e violência aos menores.

Então, era muito interessante o fenômeno da comida, de se juntar ao redor da comida. Isso foi se transformando num movimento de conversar, de sentar em comunidade, as chamadas assembleias vecinales (assembleias locais), que é se juntar e discutir sobre distintos tópicos sobre ecologia, economia, saúde, educação, sabe? Era um movimento de organização de base, cujo único motivo era se juntar e começar a falar como as pessoas queriam que fosse o país.

Agora estão saindo a luz muitos casos de policiais infiltrados que usaram identidades falsas e se infiltram nesses movimentos. Quando enturmados, eles tentavam incentivar que as pessoas fizessem atos violentos. Eu acho que isso revela muito o poder das assembleias vecinales e o desentendimento que os policiais tem de movimentos de base, porque eles assumem que é só violência, “gastação” e não se dão conta de que as pessoas realmente tão tentando construir uma coisa diferente.

Então, assembleias Vecinales, que era esse espaço pra se juntar. As ollas comunas que era esse incentivo pras pessoas que não estavam conseguindo ter os recursos pra se alimentar. Houve também muitas coletas e rifas em benefício de pessoas que tiveram familiares que faleceram. Aqui no Chile falecer é muito caro, pode custar entre  2 milhões a 5 milhões de pesos (R$14 a 35 mil), sem incluir dívidas de hospital, de cuidados. As companheiras da organização da secretaria de mulheres migrantes conseguiram arrecadar fundos para  fazer cestas básicas para famílias migrantes em situação de pobreza aqui no Chile.

Tem que sido  muito importante para nós no ativismo negro as economias negras. No Kilombo Negrocentricxs agora tem um diretório de empreendimentos negros, para que quando alguém precisar de algum serviço, possa investir na circulação de dinheiro entre pessoas negras. Então, por exemplo, tem um sindicato de mulheres haitianas que agora tão vendendo geleias, café ou artesanato. Ou tem uma mulher negra que tem um empreendimento de turbante, produto pra cuidar da pele, ou que é designer gráfica ou publicitária.

FP:  Como ficaram as intervenções militares nesse período de pandemia?

CA: Nesse estado de emergência uma das atribuições que dá ao governo exerce é limitar agrupamentos muito grandes de pessoas. Então, quando se juntavam mais de 20 pessoas para fazer algum tipo de protesto, chegava a polícia com gás lacrimogêneo, muitas pessoas eram detidas. Também era uma forma indireta de controlar e tentar regular possíveis ollas comunes, que não podia ser mais de duas pessoas, tinha que ser em lugar fechado. Mas, poxa, se você perceber que é um ato para poder ajudar pessoas que estão sem comer, é esquisito ter tantos critérios. Mas se nota que é para que não tenha mesmo (as olles comunes), né? E a polícia tem estado super arrogante, tem uns carros que estão modificados pra soltar gás de pimenta. Então você está caminhando pelo centro e simplesmente os polícias jogam gás pimenta na sua cara. Se você tá num lugar especificamente combativos. No centro da cidade tem uma praça que se chamava Praça Baquedano, mas agora pela quantidade de manifestação e a pedido dos manifestantes, o nome da praça é Praça Dignidade. Se você está lá em um momento equivocado, tacam pimenta em você, te levam detido.

Agora tem muitos policiais revistando se você tem a permissão para poder sair de casa. Na véspera do dia internacional dos direitos humanos (10/12) se instaurou uma medida que era basicamente permitir que as pessoas saiam de casa pra ir a shopping, restaurante de segunda a sexta, mas no fim de semana não pode. É lógico que era para deter uma manifestação que aconteceria pelas pessoas que ainda não foram encontradas na época da ditadura, mais as que foram mortas e detidas no estallido social, que são várias. O presidente (Sebastian Piñera) fala que o Chile é um país que se preocupa com os direito humanos [riso irônico].

Tem uma normalização da militarização dos espaços públicos. Acontece muito com amigas minhas, que também são mulheres negras, delas não poderem sair nas ruas sem ser fiscalizada. Principalmente durante os meses mais fortes da pandemia (julho, agosto e setembro). Eles nem sempre fiscalizam as pessoas brancas, nos bairros mais acomodados, mas se tu é negro, indígena ou atende ao estereótipo de bandido que eles criaram, te fiscalizam todos os dias quantas as vezes que quiserem.

Então, aí também tem esse preconceito que emerge na hora de executar a lei. A polícia executa a lei como quer e quando quer, né? Comigo também aconteceu, um dia eu tinha chegado do Brasil e tinha ido no centro com minha namorada comprar comida, uma coisa muito básica, eu não tinha beck (maconha), não tava bebendo, mas chegou um policial numa praça onde eu tava, que inclusive tinham velhos brancos fumando maconha, e ele fez a fiscalização só em mim. Quando eu perguntei o porquê, ele respondeu que era porque a lei mandava.

É isso, muita fiscalização, muita polícia em espaços públicos e é o mais fodido porque eles tem essas armas gigantes e tipo, pra quê tu estás com uma arma gigante numa feira livre? Se eu tiver Covid tu vai disparar em mim?

FP: Quais são as expectativas para essa nova constituinte que está por vir? Quais seus pensamentos futuros pro Chile?

CA: Eu acho que tem muitas expectativas no processo da constituinte e eu acho que é bom ter esperanças. Mas essa oportunidade de mudar a constituição foi num momento bem panela de pressão, as manifestações estavam super intensas e o presidente (Sebastián Piñera) literalmente falou que estava em guerra contra os cidadãos que estavam se manifestando, né? Então, se juntaram algumas pessoas de alguns partidos de esquerda, da oposição, e, polemicamente, fizeram um acordo pela paz. Um nome bastante sensacionalista e acho que sem noção fazer um acordo pela paz porque a manifestação não é uma guerra, nós não estávamos armados de forma equitativa contra a polícia, então acho foda chamar de guerra.

Bom, esse acordo pela paz dizia que teria um plebiscito para perguntar aos cidadãos se queriam mudar a constituição, mas uma das condições, a letra pequena, era que pra precisar tomar qualquer decisão, ela não ia ser tomada na democracia 50/50, mas a regra dos 2/3. Ou seja,  se não tem ao menos 2/3 dos constituintes de acordo com alguma coisa, a moção não pode passar. E esse tem sido um dos maiores problemas na democracia do Chile porque os partidos de direita e o oficialismo, usualmente, constituem os 30% da população. Talvez muitas leis, artigos progressistas vão ser barrados por desagradar  1/3 dos constituintes que provavelmente vão ser de direita.

Também votaram contra as cotas para constituintes negros e originários, pessoas indígenas do Chile. E então, para ter uma campanha precisa de financiamento. E os financiamentos tem que se dar por via particular ou por partidos. A maioria das pessoas independentes que vão concorrer são pessoas que tem dinheiro, empresários, oligarcas, porque o custo de ter uma candidatura pode chegar, aproximadamente, a 35 milhões de pesos (R$245 mil) e isso é muito dinheiro. Isso é pedir três empréstimos se você é uma pessoa que não tem dinheiro. Então, lamentavelmente, eu acho que as pessoas que vão se candidatar para as constituintes tem muitas celebridades, muitas pessoas que não estão ligadas às questões políticas, mas que estão em busca de relevância e tem muitos empresários, mas ta tendo alguns candidatos mais diversos.

Esse é um processo que tá centralizando muito a noção de cidadania e para ser cidadão no Chile você tem que se legitimar através do sistema de cidadania neoliberal, né? Você tem que trabalhar, se você é migrante, tem que ser um migrante regular. É um movimento que deixa muitas pessoas fora. E também falando do tema anti-carcerário, tem muitas pessoas presas políticas pelas manifestações que perderam o direito ao voto e que não estão contempladas nesse processo cidadão que, na realidade, eles que conquistaram. Porque não teriam aceitado o plebiscito se não fossem as manifestações extensas que aconteceram e pela quantidade gigante de pessoas que foram mutiladas, torturadas, presas, assassinadas, perseguidas. Então, que o movimento agora seja só em torno das pessoas cidadãs que cumprem todas essas regras normativas de emprego, educação, de querer ser membro da sociedade produtiva, é super excludente para um monte de pessoas que na realidade fizeram que fosse possível a mudança de constituição.

*Todas as imagens foram cedidas por Cari Amaral para serem utilizadas na entrevista

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