Ações da intervenção federal poderão afetar escolas a longo prazo no Rio 0 25

Antônio*, de 26 anos, estava saindo de sua casa na manhã de sábado para comprar pão, na Alvorada, uma localidade no Complexo do Alemão, quando ouviu os fogos de artifício seguido de uma rajada de tiros. A Polícia Militar anunciara em seu perfil no Twitter que PMs da UPP, com apoio do Grupamento de Intervenção Tática (GIT) e do Grupamento Aero-Móvel (GAM), faziam uma operação no Complexo do Alemão. Um veículo blindado do batalhão da região também foi utilizado na ação. A padaria localizada no Largo da Vivi, próximo a Estrada do Itararé, fechou as portas mais cedo. No feriadão da Proclamação da República, os moradores não aguentam mais proclamar nas redes sociais o desespero que vivem diariamente com tiroteios, sem hora e nem lugar para acontecer.

Em nove meses, a intervenção federal no Rio de Janeiro provocou um aumento nos tiroteios. Esse cenário violento tem afetado a população, sobretudo as crianças e adolescentes que perdem aulas por conta dos confrontos armados. O Observatório da Intervenção, coordenado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC), em parceria com o laboratório de dados Fogo Cruzado, apontam que os tiroteios aumentaram em 59% e 584 operações já foram realizadas com 655 apreensões de armas.

Pichação como alerta

Nas ruas da cidade é possível ver pichações e faixas com os dizeres: muito tiro, pouca aula; pouca aula, mais bandido. A frase reflete nos dados apresentados pelo observatório. No ano passado, 69 escolas foram afetadas com 169 tiroteios ou disparos a menos de 100 metros. Em 2018, 177 escolas foram afetadas com 463 tiroteios ou disparos. Os tiroteios a menos de 100 metros das escolas aumentaram 156% nos meses de intervenção, prejudicando o aprendizado dos alunos. O IDEB — um indicador criado pelo governo federal para medir a qualidade do ensino nas escolas públicas — de escolas sem registro de tiros é 4,8; o de escolas com tiros, 3,6.

A escola mais afetada está localizada na Cidade de Deus, na zona oeste do Rio, com 51 tiroteios registrados em 2018. A Escola Municipal Alberto Rangel atende 151 crianças e jovens da 5ª a 8ª série ou 6º ao 9º ano. Segundo o Ideb, a nota da escola é 4,7 com previsão de atingir 5,2 em 2021. Se depender da intervenção federal, os planos poderão ser frustrados. “Esses números são chocantes, mas os dados sobre as escolas e as pichações nos muros do Rio lembram que a violência produz efeitos que não são visíveis imediatamente, mas que terão consequências a longo prazo”, aponta o relatório do CESEC.

Outras nove instituições de ensino correm o mesmo risco. O colégio estadual Ricarda Leon, no Parque São José, em Belford Roxo, registrou 30 tiroteios. Em seguida, aparecem: E.M Almirante Tamandaré, no Vidigal, com 26 tiroteios; E.M Francisco de Paulo Brito, na Rocinha, com 21 tiroteios; C.M Vidigal, também no Vidigal, com 21 tiroteios; C.M Tia Maria, no Morro da Formiga, na Tijuca, com 15 tiroteios; C.M Tia Elena, em Padre Miguel, com 12 tiroteios; C.E Armando Gonçalves, em São Gonçalo, com 7 tiroteios; E.M Jornalista Brito Broca, no Morro da Formiga, na Tijuca, com 6 tiroteios e o CIEP Presidente Juscelino Kubitschek, em Manguinhos, com 6 tiroteios.

Para Silvia Ramos, coordenadora do Observatório da Intervenção, a fixação em alguns indicadores causou uma cegueira momentânea sobre os efeitos da violência a longo prazo, além de aspectos que não são mensuráveis a curto prazo. As consequências de um tiroteio vivido por crianças e jovens, mesmo que não haja mortes, pode piorar se ocorrerem várias vezes. “O que vai acontecer, por exemplo, na vida dessas pessoas em termos de rendimento escolar? Em termos de desejo de irem à escola e de amor ao saber? Essa frase [Muito tiro, pouca aula; pouca aula, mais bandido] fixada nos muros da cidade chamou nossa atenção para um aspecto ainda mais importante no monitoramento da violência que são essas vítimas ocultas da violência e fenômenos de pouca visibilidade, porém de impacto muito grande”, questiona Silvia Ramos.

Segundo o ativista Raull Santiago, as constantes imagens de crianças e jovens deitadas no chão de creches e escolas das favelas para se proteger durante os confrontos armados prejudica o desenvolvimento social. Ele cita exemplos como a menina Maria Eduarda Alves da Conceição, morta aos 13 anos, ao ser atingida dentro da escola onde estudava por disparos de fuzil feito por PMs, em Acari, na zona norte do Rio, em 2017.

“É preciso reconhecer o fracasso dessa estratégia atual de “guerra” para lidar com a questão das drogas e mais, entender que essa violência em momento algum construirá segurança pública. Também é preciso perceber que a repetição do fato, apesar de tantas evidências de que isso jamais construiu algo positivo, mostra que a estratégia é essa, violência para contenção do nosso povo. Essa é a política pública para nós, que somos pensados apenas a partir da secretaria de segurança e vistos pela mira do fuzil da polícia, na principal forma de contato de nossos governantes conosco, ao longo da história”, alerta Raull Santiago.

Como Medellín tem feito

Jorge Melguizo foi secretário da Cultura Cidadã, de 2005 a 2009, e do Desenvolvimento Social, entre 2009 e 2010, na cidade de Medellín, na Colômbia. Hoje, ele explica em palestras como tornou seu trabalho em exemplo mundial. As ações em seu governo provocou uma redução de 382 casos de homicídio para 39 casos em uma população de cem mil habitantes. A violência na região reduziu 95% do era há 20 anos. Mas qual é o segredo da intervenção colombiana que investiu 90% em ações culturais?

Durante uma palestra no Centro Cultural de São Paulo, no início de novembro de 2018, Melguizo foi entrevistado pelo jornalista Julio Maria, do jornal O Estado de S. Paulo, no qual explicou como a cultura venceu o crime e se tornou a última esperança. Para combater a violência, o município de Medellín aumentou o investimento em cultura de 0,6% para 5% do orçamento anual e, em educação, de 12% para 40%. Em 2018, segundo o Sistema Municipal de Orçamento do Rio de Janeiro, o limite de gastos com cultura totalizou R$ 63.822.927,00 e R$ 121.353.590,00 em educação, além de R$ 118.286.317,50 com assistência social e direitos humanos.

Para Melguizo, as cidades se inspiram em Medellín como referência, entretanto, não como tem feito. O investimento aplicado na área de segurança pública foi menor — 10% ou 15% — se comparado ao resultado final. A articulação com universidades, empresas privadas, ONGS e lideranças comunitárias também foram fundamentais para a diminuição da violência a longo prazo. “O conceito é simples: esses bairros chamados de bairros violentos não são violentos, mas violentados. Não são bairros culpados, mas vítimas. Ao assumi-los assim, eles necessitam de um abraço da sociedade e não da dupla violência que se produz com operações militares. A militarização de um território é uma dupla vitimização que gera mais problemas do que soluções. Quando fizeram a jornada de pacificação com a entrada de dois mil soldados em uma favela do Rio, escrevi: ‘Por que não entram dois mil maestros? Por que não sobem o morro dois mil gestores culturais, dois mil técnicos de esportes, dois mil cidadãos em vez de dois mil soldados?’ Quando leio nos jornais brasileiros que o governador do Rio diz que é preciso disparar para matar um jovem se ele estiver armado penso que isso é impor a pena de morte. Um jovem com arma é um perigo tremendo, mas mais perigoso é um governador que pede a morte sem julgamento para esta pessoa.”, conta Jorge Melguizo.

Três dias de confrontos armados na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, maio de 2018. Foto: Betinho Casas Novas

Mais investimento bélico como solução

O Interventor Federal, General Braga Netto, destacou em uma palestra realizada no Clube Militar, no Rio de Janeiro, uma série de aquisições feitas pela Secretaria de Administração do Gabinete de Intervenção Federal nos últimos meses, como a compra de viaturas, fuzis, munições e equipamentos de proteção individual. Com R$ 1,2 bilhão, a Intervenção Federal conta com recursos que equivalem a 6,2 anos de investimentos no Estado do Rio de Janeiro em segurança pública. “A Intervenção Federal está dando certo e tudo depende da cobrança da população para que as ações possam ser continuadas”, concluiu o General na palestra.

Até hoje as instituições que monitoram a intervenção federal não sabem os custos envolvidos nas operações por falta de transparência do Gabinete de Intervenção. O Favela em Pauta tentou contato duas vezes por e-mail e não obteve respostas ao questionarmos o aumento de tiroteios há 100 metros de unidades escolares de ensino.

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) não respondeu ao e-mail até o fechamento da matéria.

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Atualização 20h00

O MPRJ enviou a seguinte nota para o Favela em Pauta:

“As crianças e as escolas sempre sofreram com o impacto da violência, na medida em que confrontos armados, oriundos de operações policiais e conflitos entre grupos armados civis, existem há muitos anos na cidade do Rio de Janeiro. O que mudou foi a visibilidade dada ao tema nos últimos anos. Plataformas colaborativas como “Fogo Cruzado” evidenciaram a frágil situação das crianças e de escolas das rede de ensino municipal e estadual, neste cenário. O olhar mais sensível da opinião pública também tem contribuído para que episódios de violência contra estudantes, nas escolas ou em suas imediações, recebam a devida atenção da sociedade. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), na esteira de sua missão institucional, busca a redução desses danos por meio de diferentes estratégias. O Inquérito Civil n. 2017.003.59066 instaurado originalmente pela 1a Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva da Educação, e hoje sob responsabilidade do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP/MPRJ), tem por objeto “apurar as condições de segurança nas unidades da rede pública de ensino, localizadas próximas a áreas conflagradas”. A análise detida dos fatos evidencia que a comunidade escolar necessita de proteção contra a violência física, psicológica e institucional. Para tanto, é preciso que sejam estabelecidos: protocolos de operação e redução de danos pelas polícias civil e militar, bem como pelas secretarias de educação dos municípios e Estado; protocolos próprios e sigilosos de comunicação envolvendo as polícias civil e militar, o CICC e as secretarias de educação para informação após o desencadeamento de operações policiais (art. 6o, inciso III, da Resolução SESEG n. 03/2018); ampliação do processo de escuta da comunidade escolar, com abertura dos canais de comunicação para que crianças e professores possam narrar a sua visão sobre os eventos vivenciados. Além disso, verificou-se a necessidade de construção de uma cultura de respeito ao espaço escolar, bem como investimentos na fórmula da polícia de proximidade, com fortalecimento dos conselhos de segurança escolar dos batalhões (V. Boletim da PMERJ n. 74 de 2016). Por fim, é preciso que as secretarias de educação elaborem relatórios detalhados com informações sobre os diferentes impactos sofridos pela comunidade escolar – fechamento das escolas, perda dos dias letivos, danos físicos, danos perpetrados contra o patrimônio público, para que medidas compensatórias possam ser construídas com toda a comunidade.”

‘Meu corpo é sempre um alvo’, diz manifestante negra agredida por PMs em ato do MPL 2 21

Ato do MPL contra o aumento da tarifa do transporte público na quinta-feira (16) foi marcado pela repressão policial

“Eu não estava na linha de frente da manifestação, mas meu corpo é sempre um alvo, independentemente do que eu esteja fazendo”, conta Andreza Delgado, ativista do Movimento Passe Livre (MPL) e integrante do PerifaCon, em entrevista ao Alma Preta. Ela foi uma das pessoas agredidas, arrastadas e presas pela Polícia Militar no terceiro ato contra o aumento da tarifa do transporte público nesta quinta-feira (16) na região central de São Paulo.

Andreza Delgado levou um jato de spray de pimenta dentro da boca antes de ser arrastada pelos cabelos. A agressão começou quando ela tentava interromper PMs que davam golpes de mata-leão em outros manifestantes na esquina das avenidas Ipiranga e São João.

“Eu não consigo não me manifestar contra as injustiças do mundo. Eu estava indo dialogar com policiais que agrediam manifestantes e eles me bateram e puxaram meus cabelos. Eu acho que eles sentiram um ódio muito grande pelos meus cabelos e as imagens difundidas nas redes sociais mostram isso”, relata.


Após as agressões, Andreza Delgado e outras nove pessoas foram levadas para o 2º Distrito Policial do Bom Retiro, também na região central da capital, onde permaneceram até a madrugada desta sexta-feira (17). Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), os manifestantes foram detidos por desacato e lesão corporal.

Protesto contra o aumento da tarifa

A concentração do ato contra o aumento no valor da tarifa do transporte público, de R$ 4,30 para R$ 4,40 ocorreu no Theatro Municipal. A Polícia Militar bloqueou a saída dos manifestantes em direção à Avenida Paulista sob a justificativa de que a manifestação pioraria as condições do trânsito provocado pela chuva, mas os manifestantes conseguiram chegar à Praça da República, onde o conflito começou.

Andreza Delgado explica que o objetivo do Movimento Passe Livre (MPL) é evidenciar o direito da população a um transporte público efetivamente público. “Se você não tem como pagar a tarifa, você não acessa à cidade e as oportunidades de emprego. Mulheres vitimadas, por exemplo, também não têm dinheiro para custear o transporte”, sustenta. “As pessoas precisam continuar se manifestando, pois a polícia agride as pessoas a fim de passar um recado de que não deveríamos nos posicionar”, complementa.

Questionada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) se posicionou sobre as prisões e agressões cometidas pelos policiais militares. Em nota, o órgão afirmou que a Polícia Militar agiu “para garantir o direito à livre expressão e a segurança de todos”.

O valor da mentira 0 13

Mamadeira erótica, candidata a vice com camisa “Jesus é travesti”, Jean Wyllys como ministro da educação e até o tal kit gay, que inclusive foi apresentado por presidenciável em rede nacional. Estas foram algumas das notícias falsas que apareceram constantemente naquele grupo da família, da igreja e até da pelada de fim de semana. Notícias, ou apenas chamadas, tão absurdas que seriam facilmente desmentidas. Mas elas provocavam sentimentos intensos de revolta, justiça e até ódio, justamente quando os cargos mais importantes do país seriam decididos e no meio de uma prolongada crise política.  

Definitivamente, as eleições de 2018 marcaram um momento de mudança no processo eleitoral brasileiro. Mas não se trata da eleição de estreantes em cargos executivos, nem mesmo da mudança radical de ideologia política, mas da importância da TV para o resultado nas eleições. Jair Bolsonaro, presidente eleito pelo PSL, foi quem menos teve tempo de TV em horário eleitoral, só 8 segundos por bloco, somados à 11 inserções de 30 segundos nos comerciais. Números muito inferiores aos de Geraldo Alckmin (PSDB), o cabeça da lista, que contou com 5 minutos e 32 segundos por bloco, somados à 434 inserções de mesma duração. E qual seria o fator decisivo para mudança tão repentina? 

Uma análise de dados realizada pelo The Guardian no fim de outubro de 2019, trouxe dados que atestam o favorecimento ao discurso de extrema direita nas eleições 2018. De acordo com a publicação, 42% dos textos apontados como sendo da direita continham informações consideradas falsas pelos verificadores de fatos. Enquanto menos de 3% de notícias do grupo oposto continham falsidades. Nessa análise foram observadas 11.957 mensagens compartilhadas em 296 grupos de WhatsApp durante o período eleitoral brasileiro. 


Antes disso, o executivo do aplicativo de mensagens WhatsApp, Ben Supple, declarou em participação no festival Gabo, na Colômbia que a empresa tem ciência do domínio de grupos poderosos nas eleições. “Sabemos que nas eleições do ano passado havia empresas que enviavam mensagens em grande número, querendo violar nossas regras de serviço e alcançar um público maior, estamos muito conscientes dessa ameaça”, acrescentou Supple, que é responsável pelo tema eleições da organização.

Ben Supple em participação no Festival Gabo de jornalismo, na Colômbia. Foto: reprodução YouTube.

Mais recentemente, no dia 19 de novembro, o site The Intercept publicou um texto investigativo com o relato de um ex-blogueiro sobre uma espécie de assessoria prestada pela Google Brasil em sua sede no Itaim Bibi, bairro “nobre” de São Paulo, para que um grupo de seis blogueiros de maioria mineira tivessem maior engajamento e sucesso financeiro em seus sites e nas redes sociais através de um melhor direcionamento dos conteúdos para um público cada vez mais segmentado e o pior: sem preocupação alguma com a verdade e a ética jornalística às vésperas das eleições.

Cópia de e-mail cedido ao The Intercept Brasil por um ex-blogueiro atendido pela Google Brasil.


Há quem diga que essa mudança de cenário nas eleições se deve única e exclusivamente ao avanço da tecnologia, mas o que foi apresentado pelos jornalistas Rodrigo Ghedin, Tatiana Dias e Paulo Victor Ribeiro na matéria Grana por Cliques, do The Intercept Brasil, põe dúvidas à esta afirmação.

De acordo com a publicação, a primeira reunião organizada em julho de 2016, na sede da empresa em São Paulo, terminou por causar a mesma sensação em todos os presentes, de que o caminho para ganhar muito dinheiro através da ferramenta de anúncios AdSense seria uma agenda contra o PT e a presidente da República, Dilma Rousseff. Aparentemente isso funcionou bem. A fonte relata que um dos blogs chegou a faturar R$ 25 mil apenas um mês depois desse primeiro encontro.

Boleto de pagamento cedido por ex-blogueiro ao site The Intercept Brasil.

Entre os exemplos citados pelo ex-blogueiro ao TIB, estão sites como Diário do Brasil, Jornal do País, Notícias Brasil Online e Pensa Brasil, ainda no ar, além de Brasil Verde Amarelo e The News Brazil, hoje desativados. 

Alguns destes que ainda seguem ativos, agora seguem agendas bolsonaristas, ainda veiculando anúncios na ferramenta AdSense que figuram ao lado de notícias como “General do Exército cogita ‘intervenção cirúrgica’ no país” e “Uma rede de televisão não pode citar o nome do presidente em um caso de morte e não ser punida”.

 Google e AdSense

Questionado sobre o caso, o Google afirmou que não deu orientações a respeito de palavras-chave, mas apenas à otimização do AdSense. O programa de anúncios, lançado em 2003, gerou mais de US$ 15 bilhões para a empresa só neste ano. Ele funciona permitindo ao dono de um site alugar espaço em suas publicações para que o Google venda anúncios. Os lucros, gerados por cliques, são divididos entre o dono do site e o Google. Dessa forma, gerar uma audiência e engajamento não é benefício só do blogueiro, mas também um dos inúmeros negócios do Google, um gigante da internet.

Uma das provas de que nem o avanço tecnológico, e tampouco o acaso, são responsáveis por mudanças drásticas na política e na opinião pública está no relato do ex-blogueiro não identificado pela equipe do TIB, quando diz que através do benefício do AdSense, sua renda se multiplicou em poucos meses. Saindo de um lucro de R$ 4,3 mil em maio de 2016, para ganhar R$ 25,7 mil em agosto do mesmo ano, mês decisivo para o impeachment de Dilma Roussef, já que o Senado aprovava o afastamento da petista e Michel Temer assumia finalmente a presidência da República.

Mas quem se beneficia e quem sai prejudicado nessa história?

Pois bem, tomando como base uma das notícias citadas acima, o site Diário do Brasil publica um título alarmante, onde um General do Exército estaria sinalizando uma possível intervenção militar no Brasil. Isso tem o poder de inflamar uma parte da sociedade que consome irrestritamente este conteúdo de qualidade e procedência questionável.

Ao abrir o link, você vai se deparar com a assinatura de um oficial da reserva, ou seja, ele não exerce e nem nunca exerceu a função de porta-voz, não responde pelas Forças Armadas, se trata do General da Reserva do Exército Brasileiro Luiz Eduardo Rocha Paiva, que construiu sua carreira militar entre gabinetes em funções administrativas e como instrutor em escolas e centros de estudos militares, seu único destaque em atuação operacional foi em 1998 em operação de pacificação em um conflito envolvendo fazendeiros e o MST no Paraná.

Desde 2007, quando se tornou militar de reserva, se dedica a escrever artigos sobre temas políticos e estratégicos, segundo diz seu perfil no Eblog do Exército Brasileiro.

Tudo isso vai te fazer enxergar que não há informação alguma no texto publicado pelo Diário do Brasil. Ele não traz fatos, nem novos elementos políticos, apenas a opinião de um militar da reserva sobre política. Mas o veículo utiliza o treinamento oferecido pelo Google Brasil para espalhar cada vez mais a desinformação alarmista que empodera radicais e assusta os pacifistas mais desavisados. Dessa forma contribuindo para que as redes de mentiras aumentem e dêem mais destaque aos discursos mais extremos.


Já sabemos quem obteve benefício, mas agora pare e pense por alguns segundos, como isso tudo influenciou nas favelas? Talvez a “política externa” seja assunto chato, mas até quem não gosta do tema sabe que o quilo da carne já passa dos trinta reais. O Estado nunca foi mocinho na favela, mas agora inovou, também taxa desempregados, declara guerra à educação, libera agrotóxicos e muito mais. Atinge até quem nunca se preocupou com política e de repente passou a defender com todas as forças um grupo político que atacava tudo que “está aí”, o pouco que havia de políticas públicas, todo tipo de ativismo e pensamento crítico. A pergunta que fica é: valeu a pena compartilhar notícias falsas?

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