Agroecologia na batalha contra a fome que chegou com a pandemia 0 436

Luciana Peterse, especial para o Projeto A Periferia no Centro

Na região de São João del-Rei (MG), crise econômica decorrente da covid-19 aumenta valor da produção rural que respeita o meio ambiente, conectando territórios e pessoas nas práticas sustentáveis


Cidade histórica no interior de Minas Gerais, São João del-Rei é conhecida como o lugar onde os sinos falam. O badalar nas igrejas festeja nascimentos, comunica falecimentos, celebra dias santos, informa a hora e transmite recados que os locais identificam com facilidade. Mas em março passado, um som desconhecido atravessou a cidade. Não era inédito – fora ouvido pouco mais de um século atrás, em 1918. Era o toque da penitência, emitido pela última vez durante a Gripe Espanhola, pandemia que matou cerca de 50 milhões de pessoas no mundo. Os sinos dobraram este ano pela gravidade da covid-19, que, oito meses depois, produziria mais de 170 mil mortos no país. 

No começo da pandemia, a cidade fechou o comércio e as igrejas; a maria-fumaça turística que vai até Tiradentes parou de rodar; e apenas serviços essenciais permaneceram funcionando. Quatro meses depois, o prefeito Nivaldo Andrade (PSL) falou em reabrir todas as atividades, de prostíbulo a igreja. Na ocasião, a cidade tinha 395 casos confirmados e oito mortes. Novembro se foi com com 981 casos e 21 óbitos.

O midiativista Luciano Nascimento percebeu a gravidade da pandemia logo nos primeiros dias, e diante da ausência de dados da prefeitura, criou no Facebook o grupo “Corona São João del-Rei e Região”, que hoje conta com 10 mil pessoas. “A função primordial foi cobrar das autoridades posicionamento e ações concretas no combate à covid-19. Também tratamos de problemas comuns na saúde local, como a falta de uma unidade hospitalar pública e as recorrentes faltas de vagas em UTI”, explica.

O grupo se tornou também ponto de mobilização comunitária, diante de outro drama que se abateu sobre a cidade: a fome. Os pedidos de cesta básica aumentavam e ali as pessoas se organizavam para ajudar. 

Agroecologia: cuidar da terra como se cuida de um bebê

A agroecologia é um modelo de desenvolvimento de agricultura e movimento social que entende o ser humano e a natureza como interdependentes. Segundo o professor e pesquisador do Centro de Referência em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional da Universidade Federal Rural do Rio, Márcio Carneiro dos Reis, “a prática agroecológica destaca a acumulação no tempo, de vivência, experiência e aprendizado, que são constitutivas de culturas territorialmente localizadas, que ligam territórios, comunidades, pessoas e práticas”.

Agroecologia é um observar constante da terra, é cuidar do solo como se cuida de um bebê. O território do Bem Viver é importante, pois para ter uma terra saudável, um rio saudável, você tem que cuidar das pessoas que estão no território

Ativista pelo direito à terra e articuladora do grupo Diálogos de Saberes, a educadora popular Tutuca se relaciona com a terra pautada pelo combate à fome. Ela começou sua atuação na década de 1980 pela Ação da Cidadania, liderada por Herbert de Souza (Betinho). Foi quando percebeu que a fome estava mais perto do que imaginava. “Era uma situação degradante da existência humana. Mãe dando leite de cachorro para criança, sal na mamadeira.”

Tutuca começou, então, o contato com agricultores da região de Barbacena, buscando conectar produtores rurais e pessoas que passavam fome. Nessa época ela conheceu a agroecologia. “Um observar constante da terra, cuidar do solo como se cuida de um bebê”, descreve.” O território do bem viver é importante – para ter uma terra saudável, um rio saudável, você tem que cuidar das pessoas que estão no território”, ensina. 

Associação de Agricultura Familiar e Agroecológica (AAFAS)

Heloísa na feira do coreto: produtora há sete anos, leva o trabalho com a terra como uma terapia. Foto de Millena Fagundes
Heloísa na feira do coreto: produtora há sete anos, leva o trabalho com a terra como uma terapia. Foto de Millena Fagundes

Em São João del-Rei, a Associação de Agricultura Familiar e Agroecológica (AAFAS) conta com 15 produtores que se organizaram há sete anos com a intenção de levar a consciência agroecológica, através do consumo de alimentos sustentáveis. 

Uma das produtoras da associação, Heloisa Silva começou a plantar há sete anos, quando encontrou no trabalho com a terra uma terapia. “O que me trouxe à ativa na vida foi trabalhar com verduras. Perdi minha mãe, passei por uma grande depressão, comecei a plantar e aquilo foi me ajudando. Fora a sensação de estar passando uma boa qualidade de vida para as pessoas”.

A estudante de agronomia e produtora Fabiana Jaques aprendeu a plantar e nutrir o amor com seus ancestrais. Junto com o pai, ainda planta na mesma roça que pertenceu ao seu avô, e ao avô de seu avô. Os avós, alias, andavam cerca de quatro quilômetros até o ponto de ônibus que os levava até o centro de São João del-Rei, para vender verduras na rua. Hoje há uma parada na esquina da propriedade, mas com a pandemia só passam dois ônibus por dia. 

O pai de Fabiana, Jadir, conta que estava acostumado a usar adubação química e capinar as plantas que antes considerava mato. Com a filha, foi entendendo que poderia plantar de forma mais saudável para eles e para os consumidores, além de deixar crescer os “matos”, que ele descobriu o potencial para serem plantas alimentícias não convencionais, conhecidas como PANCs. Orgulhosa das plantas medicinais que crescem por ali, e são chamadas por eles de bálsamo, neosaldina, gelol e merthiolate. “Outro dia estava com um machucado, mastiguei um ‘cadim’ de bálsamo e logo passou”, garante

Para integrar a AAFAS é preciso atender aos requisitos observados em uma visita, como cuidado com o lixo, esgoto, não utilizar agrotóxicos, respeitar a biodiversidade e as áreas de preservação, garantir direitos aos trabalhadores e observar as orientações do Plano de Manejo Orgânico. 

A AAFAS faz parte da Rede Trem Natural que reúne alguns agricultores de São João del-Rei, Barbacena, Desterro, Ressaquinha, Nossa Senhora dos Remédios e outras cidades da região do Campos das Vertentes. Os agricultores faziam intercâmbios e reuniões para troca de saberes, mas com a pandemia essa integração está parada.

Fabiana explica que nesse momento de pandemia foi preciso se reinventar, por isso a associação criou sistema de compra de cestas de alimentos online e entrega de produtos a domicílio. “Estamos tentando aprimorar o site para aproximar mais o produtor dos clientes novamente, coisa que pandemia afetou. Esse contato faz diferença”, conta. 

O despejo do Acampamento Quilombo Campo Grande

Quatorze famílias protestam pelo despejo, em plena pandemia, no Acampamento Quilombo Campo Grande. Foto: Reprodução - MST
Quatorze famílias protestam pelo despejo, em plena pandemia, no Acampamento Quilombo Campo Grande. Foto: Reprodução – MST

Nem todo direito a plantar é garantido em Minas Gerais. Há 200 quilômetros de São João del-Rei, em Campo do Meio, moradores do Acampamento Quilombo Campo Grande foram expulsos de suas terras em plena pandemia, após ação truculenta de reintegração de posse. 

O acampamento resiste com 11 ocupações na cidade de Campo do Meio – MG há mais de 20 anos, numa área que pertencia à falida Usina Ariadnópolis. Após o fim da usina, trabalhadores que não receberam nenhum direito trabalhista permaneceram no local, que logo se tornou acampamento do MST e hoje concentra 450 famílias.

O nome Quilombo Campo Grande homenageia o território que abrangia parte do sul de Minas até a região do Campos das Vertentes e possuía 25 núcleos quilombolas de resistência. O acampamento do MST atuou no reflorestamento das nascentes da região e cultivo da terra. “Essa terra que era monocultivo de cana e depois com a falência da usina foi abandonada, a gente vem organizando nesses 22 anos, apesar dos 10 despejos que sofremos, através da perspectiva agroecológica que coloca para nós a centralidade no desenvolvimento da vida”, conta a assentada e produtora agroecológica Tuira Tule. 

Além de verduras e hortaliças que servem de alimento na região, o acampamento criou o Café Guaií, produzido numa perspectiva agroecológica. Durante a pandemia, o acampamento passou a sofrer dificuldades de escoamento de produção, com o fim das feiras e passou a entregar 50 cestas de produtos agroecológicos por semana, auxiliando na renda dos produtores.

Mas em meio ao discurso de “Fica em casa”, veio o despejo. Em 18 de agosto, o governo Romeu Zema enviou tropas da PM que, após 56 horas de brutalidade, expulsaram 14 famílias. Os policiais atearam fogo em plantações, destruíram casas e a escola Eduardo Galeano. Um dos principais interessados na reintegração de posse é João Faria da Silva, que já foi um dos maiores exportadores de café do mundo, dono do grupo de exportação Terra Forte e de sete fazendas, inclusive a vizinha do acampamento Quilombo Campo Grande. 

Em nota, a direção estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) denunciou que a área de 26 hectares inicialmente constatadas no processo judicial, que já estavam desocupados, foi ampliada para 52 hectares no último despacho da Vara Agrária e a operação policial foi além da determinada pela liminar, promovendo a escalada de violência no campo, agravada pela crise sanitária e econômica. “Para nós o despejo foi uma grande derrota, no sentido perda do território que é nosso por direito, com essa ilegalidade jurídica, e também a ilegalidade em relação ao coronavírus, com essa apatia do governo brasileiro e do governo federal”, afirma Tuira Tule. 

O Acampamento Quilombo Campo Grande segue resistindo no território e busca agora promover acompanhamento psicológico e de saúde para as famílias assentadas, reconstruir as casas e tem como grande desafio a reconstrução da Escola Eduardo Galeano como um grande polo de agroecologia na região, como ferramenta de troca de experiências e avançar na proposta de desenvolvimento da agroecologia. 

Agricultura familiar: comida na mesa

A ONU estima que agricultores familiares produzem 80% da comida no mundo. No Brasil, são eles os responsáveis por levar alimento à população. O Censo Agropecuário de 2017 aponta que 77% dos estabelecimentos agrícolas do país são classificados como da agricultura familiar, embora representem apenas 23% da área total de cultivo. Segundo o levantamento, 1% das propriedades agrícolas do país ocupa quase metade da área rural. Isso significa que se formassem um país, os latifúndios do Brasil seriam o 12° maior território do mundo. 

O agronegócio é responsável pela concentração de terra do Brasil. São quantidades enormes de terra de monocultura, especialmente soja, milho e cana-de-açúcar, voltados à exportação, que causam 70% do desmatamento na América Latina e utilizam 620 mil toneladas de agrotóxicos por ano. Em 2019, o governo Bolsonaro bateu recorde de aprovações de agrotóxicos no Brasil, liberando a fabricação, a importação e o uso de 474 produtos. Até o fim de outubro de 2020, foram liberados 343 pesticidas para uso na agricultura. 

Em Minas Gerais, dados da Emater-MG estimam que a agricultura familiar seja responsável pela produção de 67% do feijão, 49% do milho, 52% do leite e 84% da mandioca no estado. Fabiana Jaques explica que nem toda agricultura familiar ou orgânica é agroecológica. Agricultura orgânica diz respeito à plantação conforme à legislação, sem veneno ou adubação química, mas é possível ter uma monocultura de orgânicos, por exemplo. “Eu posso ter um produto orgânico e explorar seu valor, ele vale 5 reais e eu vendo a 20. Mas isso não é agroecológico. Estou produzindo para uma classe ou para todas as classes sociais?”. Ela considera muito importante que todas as pessoas consigam comprar os produtos naturais, sem veneno, por um valor acessível, valorizando os produtores e levando em consideração todo o processo envolvido.

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