As indomináveis do Mar do Caribe: Cuba e Haiti 2

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Compreender os conflitos históricos, em meio a vingança capitalista, é fundamental para se chegar às histórias silenciadas de países insubmissos, como Cuba e Haiti.

O som das ondas do mar, é algo como… tcha-tcha. Do mar, foi imaginado-inventado que abriga monstros e que come navios. O seu mistério inspirou numerosas histórias. Não podemos esquecer que houve aquela era marinha em que a geografia política não estava na “Terra Firme”, mas sim, pintada em suas ondas … (O) mar não é apenas a única realidade histórica, mas a imagem poética em que se expressam todas as lutas, trabalhos e ilusões de séculos e séculos (Germán Arciniegas).

Como o mar, suas ilhas são um grande ponto de interrogação. Nas últimas semanas, a situação política em Cuba e no Haiti ganhou relevância na mídia e temos sido invadidos por informações sobre o que está acontecendo nelas. As ilhas foram inventadas-imaginadas que são o caos, que são ingovernáveis, que não há soberania e, portanto, sob o pretexto de “oferecer ajuda”, Terra Firme reivindica o seu dever de intervenção.

Esta produção de “notícias”, longe de fornecer dados reais para a nossa própria análise, nos coloca numa encruzilhada entre a informação verdadeira e as “fake news”.

Diante desse cenário de informações confusas e desencontradas, o objetivo deste texto é compartilhar elementos que contribuam para a compreensão do que está acontecendo; por quê, quem apoia e para quê?

A revolução é a direção do momento histórico

Como todo país, a maior das Antilhas enfrenta problemas, os seus próprios e aqueles que chegam em barquinhos de papel. A Cuba revolucionária tem vivido toda a sua existência sob um bloqueio econômico imposto pelo governo dos Estados Unidos.

Esse bloqueio foi intensificado na década de 1990 durante o governo republicano de George H. W. Bush e foi reaquecido no recente e pouco convencional governo Trump, que impôs mais sanções somadas às já existentes e além de incluir novas restrições. Apesar disso, Cuba alcançou inúmeros sucessos de gestão própria com projetos que têm, até hoje, impacto na Saúde e Educação, citando dois destacados exemplos.

Desde então, a maior batalha travada pela Revolução Cubana é a batalha das idéias. O povo cubano está comprometido com valores baseados na solidariedade, no companheirismo, em uma visão internacionalista e na rebeldia. Um povo bravo que se recusou a baixar a cabeça como demonstração de submissão.

Dentro do seu compromisso internacionalista, Cuba não só ofereceu como ainda oferece a oportunidade de estudar, tanto para ter oportunidades no mercado de trabalho, quanto de nos educar numa direção onde a profissão está em função do coletivo. Apostando na Pátria Grande, que sonhou Martí.

O legado histórico da Revolução mostra que é possível criar outros valores de vida, paralelos a uma sociedade de consumo, do selvagem: “Salve-se quem puder!”. Longe de ser retórica, é uma proposta concreta e alternativa que se impõe aos valores do sistema dominante, que procuram fazer com que acreditemos que tudo o que não se enquadra na lógica cartesiana ou responde aos interesses do capital, é tempo perdido ou são ideias destinadas a afundar como um navio diante de uma tempestade.

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Juventude cubana. Foto: Ricardo-IV-Tamayo.

Numerosos foram os ataques e críticas a esta revolução e sua batalha de ideias. Entre as mais frequentes estão a proclamação de que em Cuba não existe liberdade de expressão, que é uma ditadura, que existe o caos e que a maioria das pessoas pede uma intervenção; nos apoiar nessas ideias nos deixa na completa superficialidade.

Dessas proclamações se impõe um ponto de reflexão, aponta para a banalização política e é torna-se fácil presumir que em Cuba, a revolução está perdendo a batalha das idéias.

Não foi o povo cubano que apoiou a Revolução Cubana? Para os que repetem a torto e a direito que não é assim, é importante repensar as seguintes questões: O que significa para Cuba se mostrar como um projeto falido?

Por que a única forma de mostrar o sucesso de um povo é medido na quantidade de edificações, de ricos e de um suposto “desenvolvimento”?

Por que é tão difícil entender uma proposta política de solidariedade e não, a maximização dos lucros e do dinheiro?

Por que é inviável uma proposta política que priorize a vida humana? Por que não uma sociedade que promove o pensamento crítico?

Atacar Cuba não é simplesmente atacar o Estado,  é atentar contra a soberania de um povo e anular seu legítimo direito de “pensar, acreditar e fazer” outra proposta de sociedade.

“O dia em que acordamos sem presidente”

Cuba compartilha o Mar do Caribe com outras ilhas, incluindo o Haiti. Esta república é de longe a maior incógnita latino-americana, da qual só recebemos rajadas de vento quando ocorrem tempestades.

No dia 7 de julho acordei às seis da manhã porque precisava imprimir a aula do dia, foi quando Vennise me disse “-èske ou tande yo touye Jouvenel-” (Já sabe que mataram o presidente), eu não soube o que dizer.

Peguei meu celular e os recados eram: “não saiam, mataram o presidente”, “compre água e comida porque não sabemos o que aconteceu”.

É perfeitamente compreensível que os acontecimentos no Haiti sejam “confusos”. Eu ouso dizer que, para nós que vivemos nesta ilha, os fatos não estão longe de surpreender ou mesmo confundir.

Este 2021 começou como um mar mexido.

Desde 7 de fevereiro, encerrou constitucionalmente o mandato de Jovenel Moise como presidente do Haiti, entretanto ele permaneceu no poder. Além disso, propôs um referendo (que, além de receber oposição de numerosas organizações e setores sociais), era inconstitucional, uma vez que foi violado o artigo 284, que proíbe mudanças constitucionais através de referendo.

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Ex-presidente Jovenel Moise e sua esposa  Martine Moise, antes do atentado. Foto: Igor Rugwiza/UNMINUSTAH.

Simultaneamente a estes eventos, o Parlamento teve suas funções suspensas e as eleições legislativas foram adiadas indefinidamente.

Nos últimos meses, o nível de insegurança aumentou enormemente. O poder dos grupos armados cresce, controlando inclusive a mobilidade da população, especialmente em Porto Príncipe. Semanas atrás, o acesso a combustível e eletricidade se tornou um grande problema.

Em 30 de junho, 17 pessoas foram assassinadas, incluindo uma jovem jornalista e ativista feminista. No resto do país, os roubos de terras continuam. Mortes, sequestros, roubos e incertezas são “o Pai Nosso de cada dia”.

O assassinato de Jovenel Moïse foi um ato sem precedentes, violento e abrupto. Do mesmo modo, sua chegada à presidência e seu mandato podem ser descritos.

“Sua ausência” é observada em dois níveis:

1 – O primeiro nível refere-se a uma ordem institucional onde a ausência do Poder Executivo coloca o país em um cenário de vulnerabilidade. Hoje o debate gira em torno de quem ocupará a cadeira presidencial: o presidente do Senado, o ex-ministro Claude Joseph ou o recém-nomeado ministro Ariel Henry? Nesta primeira ordem, também podem ser integradas as tendências “internacionais” que por um lado tentam apresentar o Haiti como um país que necessita de intervenção estrangeira para alcançar estabilidade política. Por outro lado, pretendem apresentar o ex-presidente haitiano como um mártir revolucionário.

2 – Um segundo nível diz respeito à população que vive a ausência do Estado. Essa parcela da população que o Estado historicamente esqueceu e negou, mantém sua lógica e ritmos de vida que permitiram e permitem a produção e a reprodução do cotidiano. O povo haitiano, sob suas próprias estruturas organizacionais, realiza sua produção e reprodução da vida, que engloba a identidade quilombola com estratégias de vida e sobrevivência que incluem o desenvolvimento de suas próprias tecnologias que orientam o processo de plantio, capazes de contra-atacar pragas ou doenças. Obter o dinheiro através do trabalho coletivo e ter clareza sobre os objetivos de apostar na agricultura de autoconsumo; Para garantir essa ordem estabelecida paralelamente ao Estado, o vodu é utilizado como uma “religião prática e utilitária que se preocupa mais com os assuntos da terra do que com os do céu” (Metraux in Castor, 1985, p.112). Nesse sentido, a ausência de um presidente não altera muito o dia-a-dia, mas é inegável que a ausência no plano institucional terá impactos também neste segmento da população.

Aqui o capital não encontra a submissão

Cuba e o Haiti têm resistido historicamente. Desde 1492, o Caribe passou por uma transformação radical, assim como a América Latina continental.

Por ser o lar de vários povos, como Taínos, Arauacos, Caribes, Ciguayos, Siboneyes e Guanatahibes; tornou-se uma violenta fronteira imperial, onde durante séculos as potências ocidentais lutaram. Esse processo traria uma nova conformação sociodemográfica e ambiental, bem como uma concentração de poder econômico e político no continente europeu (Bosh, 2017).

O Haiti em 1804 e Cuba em 1959 reivindicaram seu direito de existir soberanamente e deram ao mundo os exemplos necessários de dignidade. Ambas as ilhas foram alvo da intervenção dos Estados Unidos, Cuba no período 1899-1902 e 1906-1909 no caso do Haiti 1915-1934.

Ambas as ilhas usaram a força de suas idéias causando tempestades para expulsar “o tubarão”. Este fato tende a ser diminuído e enquadrado numa pintura, como uma passagem histórica, negando assim o seu impacto em nossos dias.

A verdade é que tanto em Cuba quanto no Haiti, “o capital” não conseguiu submissão. São experiências diferentes entre si, cada proposta de fundação no território e em sua própria história. Em Cuba, vemos um compromisso popular com a institucionalidade e o Estado como regente. No caso haitiano, há uma “cultura oprimida” nas palavras do sociólogo Jean Casimir, que se recusa a negociar com um Estado que não a considera e acredita fora da institucionalidade.

Para o Haiti e para Cuba, o mais importante é ter presente a singularidade que implica o Caribe, desde sua entrada histórica à Modernidade, mas também a partir de suas propostas atuais. Com esse texto deixo aqui o convite para que veja o Caribe e as suas ilhas de uma perspectiva sensata, inteligente e profunda. Tão profunda quanto o próprio mar.

Claudia é integrante do Colectivo Latinoafricano. Socióloga de formação e vive no Haití.

Foto em destaque: Prensa Latina | Edição: Renato Silva | Tradução do espanhol para o português: Gabriel Murga.

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