#DHemPauta: A luta de Indianarae Siqueira na garantia de uma vida digna à pessoas LGBTQIA+ 0

A ativista paranaense líder da “CasaNem” que tem o ativismo como forma de garantir acesso à educação, moradia e qualidade de vida ao público LGBTQIA+. 

Quando surge uma pergunta sobre o que é a vida, certamente existe um ideal desenhado e influenciado por nossa percepção desse mundo na resposta, que quase sempre respeita uma lógica de metas a serem traçadas ao decorrer da vida de cada pessoa. Mas, a realidade da vivência em um país desigual traz a possibilidade de uma debate mais fervoroso e urgente para garantir o mínimo para aquele que sofre com um sistema (ora, “cistema”) desigual e opressor desde a sua idealização. 

Contando com a sorte de uns e o azar de outros, o incômodo ultrapassa as inquietações pessoais. Muitas personalidades decidem lutar contra essa série de segregações sociais, e é por este motivo que Indianarae Siqueira se tornou um referencial não somente dentro da comunidade LGBTQIA+, mas sim de forma mundial. Pute, travesti, vegane e militante pelos direitos das mulheres, das prostitutas e dos LGBTQIA+ há mais de vinte anos.

A história de Indianarae Siqueira com movimentos sociais começou quando ainda era muito nova, ao perceber em sua mãe um olhar assistencialista que apresentava para ela a preocupação do que acontecia com o outro. “Minha mãe sempre foi uma inspiração para mim, eu a via sempre preocupada e pensando nas pessoas que não tinham o que comer, então isso me fazia admirar e inspirar muito na forma que ela fazia e pensava nas coisas”, relembra Indianarae.

Mais tarde, a criança que admirava a forma que a mãe olhava para o mundo precisou sair da casa dos pais para conseguir viver a sua vida de forma independente. “Eu comecei a me hormonizar aos 8 anos de idade e eu nem sabia o que significava. Todo mundo falava sobre meus traços e trejeitos femininos ao ponto de eu descobrir que os anticoncepcionais serviam para evitar crianças. Eu não queria ser mãe, então, passei a tomar e meu corpo começou a mudar, continuei morando com meus pais apesar dos atritos que tivemos quando decidi transacionar de fato e conscientemente aos 11 anos de idade até os 16 anos quando me mudei para Santos, litoral de São Paulo” conta a ativista. 

Foto acervo pessoal de Indianarae.

A mudança para a cidade grande trouxe à Indianarae a oportunidade de se deparar com histórias de vidas que eram diferentes da que ela havia tido contato na sua cidade de origem. Sem conseguir emprego por sua aparência já não corresponder com o nome e o gênero em registro, o contato com as travestis e mulheres transexuais se tornou frequente. Junto à experiência de poder construir uma vida longe do ambiente familiar, que já não era confortável para ela, a endemia causada pela AIDS se tornou uma realidade cruel para a cidade de Santos, com altos números de mortos entre os anos 80 e 90.

“O estigma sempre foi muito grande sobre mim. Perdi minha irmã cisgênera e heterosexual para a Aids. Ninguém esperava que isso fosse acontecer da parte dela, mas sim de mim. O que ainda é uma realidade, afinal, ainda existe essa crença. Foi então que comecei a me informar mais e a propagar o debate aqui no Brasil para conscientizar aquelas meninas que estavam nas ruas precisando da informação, apesar de saber que a realidade de quem trabalha nas ruas se prostituindo é outra”, aponta.

A luta por moradia

A pandemia do novo coronavírus trouxe para a ativista a lembrança dessa época em que casos aumentavam ainda mais e que os estragos poderiam ser catastróficos. Indianarae, que coordena a Casa Nem, viu a oportunidade de trabalhar na conscientização e na captação de alimentos e produtos de higiene para a população assistida pela organização. “Eu vivi algo similar lá atrás e outras que estiveram comigo também sentiram o mesmo. A gente já tinha a experiência de lidar com um vírus letal porque perdemos muita gente querida para um outro. Então, a gente se preocupou e corremos atrás de todas as formas para conseguir garantir ao menos o mínimo para quem estava ao nosso radar e posteriormente fomos dando atenção à todes.” lembra Indianarae.

Dentro da sua trajetória, a ativista esteve em contato com diversos coletivos e frentes que trabalhavam contra o sistema brasileiro que sempre forçou a desigualdade do país. Indianarae durante muito tempo esteve à frente de uma rede de apartamentos onde ela conseguia possibilitar uma moradia para mulheres transexuais e travestis, mas quando a situação financeira era ruim, ela sempre procurava entender. “Existiam outras mulheres que cuidavam de casas iguais a minha, então, se alguém não tinha dinheiro para pagar, mandavam ir atrás da minha casa porque eu gostava de ajudar”. 

Foto acervo pessoal de Indianarae.

Esteve em contato com o Movimento Sem Terra (MST) e começou então a lutar em prol de uma moradia digna e para todas as pessoas. Em 2015 idealizou o “Prepara Nem”, que era um pré-vestibular e curso de educação básica destinado para corpos LGBTQIA+, com prioridade às travestis e mulheres transexuais, o que possibilitou o ingresso para universidade e ao emprego formal para muitas das alunas. Com esse contato, questões ficaram ainda mais visíveis e a moradia era uma delas, conforme ela conta. “O convívio mostrou que a gente precisava lutar ainda mais, e foi assim que começamos a sonhar a utopia que era a CasaNem que se concretizou em 2016 até aqui”. 

Durante a pandemia a Casa Nem sofreu uma reintegração de posse, mesmo com uma decisão do Superior Tribunal Federal (STF). Posteriormente a esse episódio, a  CasaNem conseguiu um espaço fixo no Flamengo cedido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, onde hoje é o lar de mais de 50 pessoas LGBTQIA+ na cidade. Quanto ao que espera sobre o futuro e sobre as suas inspirações, Indianara disse: “A gente está diante do que a vida colocou pra gente. Não temos como ignorar. Me inspiro nas que vieram antes de mim, nas que estiveram e estão comigo, como a minha mãe, a Geovana Baby e a Paola que é a minha mãe de rua”.

Indianarae Siqueira é protagonista do documentário “Indianara” que tem direção de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa, o filme acompanha a trajetória da ativista transexual Indianara Siqueira, uma das idealizadoras da Casa Nem, abrigo para pessoas LGBTIs em situação de vulnerabilidade, no Rio de Janeiro. O filme foi o único filme brasileiro incluído na seleção oficial da mostra ACID, do Festival de Cannes, e concorrente à Queer Palm, premiação dedicada a filmes com temática LGBT participantes do festival.

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