#DHemPauta: A pedagogia antirracista construída pelas mãos de Joaninha Dias 0 394

Professora do Ensino Básico, Joaninha desenvolve metodologia que valoriza contribuição africana e afrodescendente e disponibiliza manuais gratuitamente

O acesso à Educação foi dado como direito fundamental e universal pela primeira vez pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, que hoje completa 72 anos. No Brasil, essa discussão passou a ver mais seriedade somente a partir da Constituição de 1988, que regulamentou os investimentos na área a partir de instrumentos para o planejamento, gestão e avaliação do ensino; e a reorganização dos papéis dos municípios, estados e união. Desde então foram instituídas legislações, metas e indicadores de qualidade para acompanhamento da educação brasileira. 

O acesso à Educação foi dado como direito fundamental e universal pela primeira vez pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, que hoje completa 62 anos. No Brasil, essa discussão passou a ver mais seriedade somente a partir da Constituição de 1988, que regulamentou os investimentos na área a partir de instrumentos para o planejamento, gestão e avaliação do ensino; e a reorganização dos papéis dos municípios, estados e união. Desde então foram instituídas legislações, metas e indicadores de qualidade para acompanhamento da educação brasileira. 

Desde então, essa mulher negra, gorda, bissexual, artesã das palavras, de 37 anos financeou ela mesma a Educação Antirracista que queria ter recebido quando era criança. A história e cultura negra era tema frequente nas reuniões de família e a joaninha menina estranhava nunca ter tido discussões como aquelas nas escolas em que estudou. Acompanhar as atividades que os movimentos negros realizavam eram programas comuns de sua adolescência e juventude. Hoje, ela está há 17 anos dividindo a vida entre as salas de aula da rede pública de Recife e Jaboatão, com a atuação no Movimento Negro e a vida em família.

Para ela, pôr em prática uma Educação Antirracista seria intervir no currículo e prestar atenção  de verdade aos estudantes negros. Esses são os que são mais vistos como bagunceiros e “sem futuro.” A eles são negadas oportunidades de construção e consolidação da autoestima a partir do que é vivido em sala de aula, do conhecimento. Não é só a grade escolar que está defasada no tocante às relações étnico-raciais, mas os livros didáticos também quando não incluem personagens negras nas ilustrações e em outras linguagens, como a poesia por exemplo. Além de tratar muito superficialmente sobre essa parcela da população.

Em todas as disciplinas, é importante pontuar sobre a contribuição de povos negros na construção do conhecimento, é o que defende Joaninha. “Se eu vou dar aula de matemática e eu vou trabalhar a multiplicação, eu vou trazer grandes matemáticos africanos e os jogos de origem africana pra gente aprender conceitos e padrões matemáticos a partir daqueles jogos. Se eu vou trabalhar geografia, vou trazer para o debate os 54 países que fazem parte do continente africano e como esses países se completam e são diferentes em suas culturas e histórias. Como eles estão hoje e como eram antes e todo esse processo de entendimento”, exemplifica a professora.

Eu queria ser a professora que eu queria ter quando era criança

É na escola que, geralmente, as crianças vivenciam o racismo de forma mais perversa. Nesse ambiente, que também é de construção da personalidade, acontecem eventos que marcam as crianças negras por toda a vida. E essa é a principal razão de Joana em escolher seguir essa profissão: queria ser a professora que queria ter quando era criança.

Seus primeiros dias como professora do ensino fundamental foram marcados pelo racismo e etarismo. Mulher negra retinta, gorda e com 19 anos, foi desacreditada pela coordenação da escola e até por alguns alunos da primeira turma que assumiu. Investir numa educação antirracista não era escolha ou capricho, mas até certo ponto era também uma estratégia de permanência e afirmação de seu trabalho de educadora.

Foto: acervo pessoal

Enquanto revelava sua intelectualidade, fortalecia e desenvolvia também a autoestima dos estudantes negros da turma – que, na rede pública de ensino em geral, representam 87% dos estudantes. Crianças que muitas vezes falavam muito baixo, eram tímidas ou muito agitadas. “Eu me via neles e eles se viam em mim”, conta Joaninha com muita ternura sobre o desenvolvimento pessoal desses alunos a partir da visão integral que a educadora direciona para eles.

Hoje, 17 anos depois, Joana afirma que o impacto da Educação Antirracista não é somente nos estudantes, mas também em suas famílias e comunidades: “Os familiares vem à escola falar sobre o que as crianças conversam em casa e como estão agindo.” São essas as oportunidades que ela encontra de explicar para as mães e responsáveis sobre preconceitos que muitas vezes parecem estar escondidos, mas que se expressam através do estranhamento com a metodologia de ensino da pedagoga.

“Se eu tivesse essa professora que eu sou hoje na minha infância, a escola teria sido muito mais feliz e um ambiente muito mais saudável pra mim. Ter uma professora que brinca, aposta corrida com elas na hora do recreio, que tem a cor da pele igual à sua e fala que não descendemos de escravos, mas sim de pessoas inteligentes, articuladas, belíssimas. Criadoras da medicina, engenharia e matemática. O andar deles muda e a cabeça se ergue!”

Joaninha Dias, 37, professora antirracista

Todos os atores têm que estar envolvidos

É comum que outras professoras e professores elogiem o trabalho que Joaninha tem feito todos esses anos. Ao fazer isso eles demonstram que não enxergam a própria responsabilidade nesse processo e que entendem o racismo como algo que só pessoas negras precisam resolver e não a sociedade em geral. Na verdade, esse é um trabalho que envolve o porteiro, que primeiro recebe os estudantes, a diretoria, a equipe de limpeza, enfim, todos os atores da educação.

A Educação Antirracista faz a criança,adolescente, jovem, adulto negro se reconhecer nos conteúdos, textos, fotos, debates. Faz as pessoas brancas perceberem que não é normal só elas estarem representadas em todos os espaços e que existe muita coisa errada na normalidade com que esse fato foi tratado até agora. Em cada disciplina, em cada conteúdo do currículo, é necessário refletir, combater o racismo e colocar o legado negro, pois foi esse mesmo racismo que fez e faz com que nada da construção e produção do povo negro chegue às salas de aula. É um trabalho da escola como um todo. Envolvendo totalmente pessoas, espaços e ações.

Joaninha Dias, 37, professora antirracista

Foi pensando também nisso que Joaninha desenvolveu e disponibilizou alguns manuais para que mais profissionais  possam aderir a conduta. Embora seja lei desde 2003, quase não há fiscalização para que o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas seja aplicado. Do outro lado, há muito racismo e fundamentalismo pressionando para que ele continue não sendo.

Embora Joaninha trabalhe as atividades desde 2003, a primeira edição do Manual de Atividades em Contos Africanos foi lançada em 2015. Ele foi construído em colaboração com os alunos e compilado para distribuição gratuita para escolas. Esse livro surge da falta de referência teórica de atividades que trabalhem o legado negro de forma positiva e didática para crianças e adolescentes. A partir dele, Joaninha se inspirou e não parou mais. Hoje, no total, são cinco livros e livretos, disponibilizados em PDF para ninguém dizer que não sabe por onde começar a implementar um método de ensino antirracista na educação de crianças e adolescentes.  O objetivo em distribuir esse material gratuitamente se dá ao fato de que “o capitalismo move o mundo, mas ele não move minha educação antirracista”, conta Joana. Essas são produções que mais pretendem instigar a busca pelo conhecimento dessa parte da história que é invisibilizada.

Seminário Escola Sem Racismo realizado pelo Sinproja em novembro/2019.
Foto de Henrique Lima/ SINPROJA

*Imagem destacada por Arthur Souza/Leia Já

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