#DHemPauta: “Não permito que ninguém me cale!” 1 309

#DHemPauta: “Não permito que ninguém me cale!”

Em meio a terreno esquecido pelas políticas públicas, as mulheres negras gestam potências de transformação política nas periferias do Distrito Federal

As mulheres negras foram e são, historicamente, as grandes estrategistas de enfrentamento ao poder escravagista. Cada contexto demanda uma ação, sempre em coletivo, para avançar  na retomada dos espaços e, principalmente, na reconfiguração de outras humanidades possíveis. Nesse caminhar, as mulheres negras nos ensinam, a partir de outro modo de vida, que a intersecção de raça e gênero, junto a outras categorias, necessitam ser discutidas quando se trata de Direitos Humanos na “Améfrica Ladina”, como aponta a intelectual negra Lélia Gonzalez.

À frente da luta, mulheres como Joice Marques, que vive em Ceilândia, Distrito Federal, percorrem caminhos, ocupam e transformam espaços em favor de uma comunidade que valorize os afetos e a saúde mental da população negra. E o Favela em Pauta (FP) bateu um papo com ela, que é mãe de um adolescente de 16 anos, nordestina, agente e produtora cultural, artivista, membra do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Movimento de Mulheres Negras, integrante do Afromanas, afroempreendedora e uma das gestoras do Quilombo Urbano Casa Akoritene

A conversa foi marcada pelos passos firmes de Joice, que mesmo com 34 anos, já experienciou realidades diferentes que a fortalecem na caminhada. Passamos pelos temas de violência, saúde integral, maternidade, transporte, leituras, ancestralidade, trajetória, desafios, espiritualidade,  racismo, direitos e sonhos. 

Cada afirmação da gestora é fundamentada e cheia de orgulho por ter chegado até aqui. Porém, já no começo ela chama atenção para uma dificuldade comum, imposta às pessoas pretas pela efetivação do racismo: o entrave de não sabermos falar de nós mesmas. 

“Por mais que você tenha conteúdo, que você crie, que você trabalhe, você sabe, no fundo, no fundo, tudo o que você faz. Você não consegue verbalizar isso. Às vezes você não consegue dizer quem você é. Esse silenciamento imposto, que é você ter essa autoconfiança de falar de você, de dizer quem você é com propriedade. Não é nem timidez, eu não sou tímida. Digo que acredito mesmo que no racismo como forma de silenciamento. Então, às vezes a gente acha que é timidez, mas nem é” conta tentando encontrar a próxima palavra.

Joice veio do Piauí – onde morava em casa de taipa, sem energia elétrica – aos 9 anos para morar em Brasília. Foi criada em uma família matriarcal, pela avó e pela mãe. Uma família constituída por uma parte indígena e outra negra. Como mãe solo, precisou “pisar em um terreno incerto” para continuar firme, um desafio, mas uma experiência, que segundo ela, a transformou e a ajudou a perceber o mundo a partir de outros olhares.  “Para uma mulher negra, ter um filho, dentro de uma estrutura racista, que não reconhece, que não zela pelos adolescentes, pelas nossas crianças negras” conta em tom de reflexão. “E a gente teve nesse final de semana um massacre. Então, cada vez que esse adolescente faz aniversário, você comemora, mas você também sente muito medo” diz pausadamente ao lembrar de seu filho.

A gestora ainda pontua que mesmo tendo consciência do que é esse país genocida, isso não significa que estarmos seguros. “A gente luta lá fora, luta dentro de casa. Marielle tá aí pra provar que a gente não tá isenta de nada” enfatiza lembrando o quanto o racismo atua imprimindo o medo e a desesperança à população negra. “Reconheço o quanto que meu corpo é frágil, mas que é um corpo de luta, é um corpo que demarca território. Não sou convidada a entrar nos espaços, mas eu tipo me auto convido a estar nesses espaços, a falar nesses espaços. Não permito que ninguém me cale, ninguém, ninguém, ninguém. Não tô aqui pra servir ninguém, eu tô aqui pra servir a minha ancestralidade e isso me cobra uma responsabilidade com os meus” ressalta evidenciando a luta, que é coletiva.

“O que me faz me manter de pé é querer ver o desmonte dessa estrutura”

Joice vive em um local muito bem marcado sobre o que é o centro do poder e o que é a periferia. O Distrito Federal foi construído a partir da higienização a respeito de quais corpos podem ocupar o plano piloto e quais vão morar nas cidades satélites. Sendo que essas são compostas por trabalhadores que vieram para realizar o grande empreendimento que é Brasília, mas ficaram sem moradia e infraestrutura para viver, e tiveram que se alocarem nas periferias. 

“Não somos vistos como pessoas que têm direito à cidade, a gente é visto ainda como mão de obra. A mesma mão de obra que construiu Brasília, hoje está nas RAs, nas periferias, abandonadas, mas continuamos sendo mão de obra de Brasília. Porque as nossas cidades não tem investimento, consequentemente, não gera emprego. Então, a gente tem que passar uma hora, uma hora e vinte dentro de um “baú”, pra chegar em Brasília, trabalhar e voltar pra casa. E isso é muito adoecedor, essa falta de perspectiva”, diz ao descrever a rotina que massacra os corpos que ainda dependem desse centro do poder para sobreviver.

A Ceilândia é a região administrativa (RA) mais populosa do Distrito Federal (DF) – que funciona mais ou menos como uma cidade, mas não se tem eleição, tudo é organizado pela gestão de Brasília. Joice ainda afirma que essa região é ocupada por cerca de 80% de nordestinos e que ainda existe racismo no atendimento de saúde, pois são pessoas que vêm de outros lugares para trabalhar ali e não procuram compreender a região. Além disso, com a pandemia, segundo a Secretaria de Saúde, Ceilândia foi a região mais atingida pela covid-19 no DF.

“A nossa juventude tá abandonada”, denuncia, pois os pais precisam trabalhar e como não se tem políticas de lazer, “o filho fica sendo cuidado pela rua”, o que pode promover outros problemas. Como gestora esses descasos sociais ficam perceptíveis e escancarados, o que demonstra que mesmo estando tão próximos ao centro do poder do país, a comunidade ainda é marginalizada pelas políticas públicas. 

O transporte custa 5,50, isso em uma viagem de 40 min, só de ida. “É uma vida de gado, o ônibus é feito só para gente trabalhar”, destaca. “Esse mesmo transporte que serve pra você ser burro de carga, não serve pro seu lazer”. “Pra nós, os direitos básicos não foram alcançados. Primeiro: o direito à vida. Ele não foi alcançado quando a gente tem nossa vida tirada pela violência promovida pelo Estado”. Joice ainda diz que é preciso direito à alimentação, ao saneamento básico e à segurança, “a segurança com dignidade, porque que a polícia defende quem mora no plano piloto e violenta quem mora na periferia?”.

“O que me faz me manter de pé é querer ver, sabe?, o desmonte dessa estrutura. É querer ver a gente desmontando essa estrutura” afirma. A começar, continua a gestora, quebrando o ciclo que amarra as mulheres às economias das grandes cidades, para isso é preciso investir em capacitação. 

#DHemPauta: “Não permito que ninguém me cale!”
Foto: Héllyda Chyarinne

“Mais uma vez, o nosso desafio de mulher negra vivendo na periferia numa cidade como Brasília, que é totalmente excludente, é o desafio de se manter viva, vivendo por nossa própria conta”.

“O racismo nos adoece todos os dias”

“A gente tem uma constituição que não foi criada por nós, então, consequentemente não é criada pra nós” pontua Joice ao se referir aos Direitos humanos no Brasil e do quanto a luta é árdua, já que nem os direitos básicos são garantidos. “Esse “Brasil para todos”, ele não é para todos”, continua, apontando a contradição da democracia. “Onde você mora, pode determinar quem você é pro Estado, pra polícia, por exemplo. Então, Direitos humanos, pra nós, povo negro, não chegou ainda”.

“Quem pensou Direitos Humanos, não nos considera como humanos” a artivista, integrante do MNU, expõe esse cenário em sua fala entendendo a falta de renovação política no país, pois são os mesmos homens brancos, “caquéticos”, da elite que decidem as aplicações das políticas públicas, e essas pessoas não entendem o corpo preto como ser humano.

“O racismo, ele nos adoece todos os dias, quando mata nossas crianças, quando mata os nossos, sabe?, quando naturaliza o genocídio. Porque morrer um jovem a cada 23 minutos não é natural! Porque morrer 63 jovens por dia no Brasil, não é natural!” afirma indignada. “Somos violentados quando a gente vê os presídios com mais de 80% da população preta. Quando a gente vê a população preta abandonada nos hospitais, nos postos de saúde. Quando a gente sai na rua e vê corpos negros ocupando as ruas enquanto sem sem teto, enquanto pessoas que não representa nem um ser humano pro Estado, e isso nos volenta todos os dias”.

Esse projeto de morte organizado pelo Estado impede também o direito à humanidade para as mulheres pretas, que são lançadas à base social. “O racismo quer nos enlouquecer”, ressalta Joice, “então, vai ter hora que a gente vai chorar. Nem sempre a gente pode se dar ao luxo de descansar”, diz ao retomar sobre o compromisso com os seus. Nesse processo, é preciso “saber se dobrar, porque a árvore que se dobra, ela não quebra com qualquer ventania. Nós, mulheres negras, carregamos dentro de nós a força da natureza”, conta ao lembrar que esse “dobrar” não significa aceitar a opressão e sim, saber a hora certa de agir.

“E acho que é isso que faz com que a gente continue e não pare. Eu também tô continuando o que as minhas fizeram e eu quero honrar esse legado, eu quero honrar esse caminho que os meus escolheram para eu seguir. Eu quero fazer esse trabalho da melhor forma possível e deixar caminhos abertos para quem vai vir depois de mim. Porque eu tive caminhos abertos também e é isso tudo que me dá forças de continuar, e não vou parar!”.

“O que me sustenta é minha ancestralidade. Sou filha de Xangô”

A artivista diz que gosta de manter uma leitura muito diversificada e que tenta se nutrir de cada referência. “Olha o quão doloroso é, você ler livros de que você não é aquela moça que falava lá no livro, aquela história não é sua. Então, como você vai ler uma história e sonhar com a história que não é sua, que não é contada numa perspectiva sua, dos seus?”. Ao nosso redor, somos direcionadas para que não nos reconheçamos enquanto sujeito humano, intelectual, criadoras de conteúdo e conhecimento, por isso, para Joice, ler autoras negras e autores negros é um ato de renascimento e de saúde mental.

Durante a conversa ela foi citando algumas leituras, escritoras e escritores, como “Peles negras, máscaras brancas”, de Frantz Fanon; bell hooks, Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo e Cristiane Sobral. Carla Akotirene, para a artivista, é referência de intelectualidade ancestral, pois é uma escritora que carrega exu para dentro da universidade, enquanto perspectiva de educação diferente e de transformação. “Defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, é outra grande referência para Joice, “toda menina negra devia ler esse livro”.

A força da intelectualidade, não está apenas na academia, mas na vida, é uma ação histórica que nos manteve vivas e que acompanha todas as mulheres negras. “Toda mulher preta é um Quilombo”, assinala, pois são elas as que movimentam transformações. A gestora da Casa Akotirene ainda lembra das mulheres negras que ficam no fundo terreiro, tramando o desmonte do racismo, e isso é um exercício de intelectualidade ancestral. “As nossas mais velhas já faziam intelectualidade com seu alguidar na cabeça, vendendo quitutes na rua. Isso tudo era mulher de luta, isso tudo era mulher intelectual que tramava entre elas pelo bem viver, pelo combate ao racismo.” 

Quando perguntada sobre quais são os seus sonhos, Joice fala a partir de uma fala que visa a comunidade e, com isso, a realização de seus objetivos pessoais. “É ter a oportunidade de construir algo palpável, algo que realmente possa mudar o curso, para melhor, da vida de muitas pessoas”, e continua ao rogando aos orixás, “é ter uma vida tranquila, sem doença, sem muitos medos, vida longa e de muito trabalho significativo”.

“O que me sustenta é minha ancestralidade. Sou filha de Xangô e eu sinto dentro de mim essa energia que me move”, enfatiza, “o meu tempo é agora, como diz a Yalorixá Stella de Oxóssi”, por isso, “eu sonho, mas o sonho vem em decorrência do que tô fazendo aqui agora”, completa.

“A gente tá aqui pra trazer ferramentas de transformação”

Ocupado por Joice no final de 2018, e em seguida pelo Coletivo Afromanas, o Quilombo Urbano Casa Akotirene é uma ocupação preta que procura trabalhar políticas de base, o resgate de saberes, identidade, manutenção de culturas pretas e de protagonismo preto. “É tentar trabalhar ao menos na comunidade o resgate, fazer o link entre o passado, o presente e a possibilidade de estar vivo no futuro”.

O espaço surge a partir das necessidades da comunidade de Ceilândia e conta com mais de 150 famílias cadastradas. O Quilombo funciona como um ponto de apoio para várias situações das quais as pessoas não encontram informações. Para isso, a ocupação conta com uma rede de apoio que ajuda com “escurecimento” jurídico, atendimento psicológico e psicossocial, mediante parcerias com a Universidade Paulista (UNIP), Conselho Regional de Psicologia do DF e outros psicólogos pretos que também realizam combate ao racismo para “desembranquecer o imaginário”, pontua a gestora. Além disso, a casa também promove atividades, arrecada e distribui cestas básicas, realiza a feirinha verde, uma vez por semana, e acolhe procurando compreender, em especial, a subjetividade dessas pessoas.

“A gente tá aqui pra isso, pra trazer ferramentas de transformação positiva”. Tanto que mesmo com a pandemia a casa não parou, pelo contrário, se recebeu ainda mais pessoas, “apesar das adversidade conseguimos criar campanhas e mantê-las”, pois é um “espaço de resistência junto a comunidade” e “essa persistência vem conquistando e firmando a importância da casa”.

Joice ainda faz um convite a todas as pessoas que quiserem se somar ao projeto. Segundo ela, existem muitas formas de fortalecimento que não é apenas com a contribuição em dinheiro, que é importante, mas o se juntar, trazer ideias para fazer junto, se tornar um ou uma agente de transformação, é o que impulsiona essa missão. A casa estará sempre aberta.

“A gente precisa acreditar nas nossas utopias, os nossos mais velhos acreditaram, por isso, que eles lutaram tanto. E é isso, eu digo que eu tô aqui pra continuar o sonho das minhas”, finaliza, nos saudando com um “Axé!”

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*Foto em destaque: Kaio De Aquino.

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