Edu Carvalho: “O medo vai preenchendo o vazio daquilo que chamaríamos como segurança?” 0 1

Este texto começa a partir de uma ligação feita na manhã do dia 18. Eu estou em São Paulo para um evento cujo tema principal é o trabalho desenvolvido por comunicadores de favela que se articulam através das redes sociais para fazer seus trabalhos. Eu ligava para a casa, querendo notícias de minha família.

D’outro lado da linha, estava minha mãe. Me contava que a madrugada anterior tinha sido rasgada por um intenso tiroteio e que até aquele momento, não havia conseguido sair de casa e ir para o trabalho, num bairro vizinho a Rocinha. Era por volta de 11h30 da manhã.

Eu fiquei louco e não tinha como não ficar. Mais uma vez, moradores estavam reféns. Dos tiros, do poder, da inércia, do choque, do pânico e da tristeza. Você me dirá que a situação de tensão dura exatos quatro meses, e eu lhe indagarei: e daí? Cada ato, ainda que esperado, apavora.

Tenho repetido com muito pesar que circulo entre as cidades dentro de uma única, e que existe diferentes sistemas a ser seguidos por diferentes pessoas e jeitos. Seja pela Estrada da Gávea dentro de um 538 e 539 ou pela Auto Estrada Lagoa-Barra em diversos ônibus que tem como seu itinerário os bairros de São Conrado, Barra da Tijuca e por aí vai. Aos moradores destes locais, está assegurado o livre direito de ir e vir. A mim, enquanto jovem, negro e periférico, não. E pioraria se eu fosse mulher. Infelizmente.

E não diria somente transitar entre as cidades, mas em si pela própria Rocinha, afinal de contas, você já parou para pensar em quem reside e trabalha na própria favela? O comércio paralisa, o tráfego de pessoas diminui. O medo vai preenchendo o vazio daquilo que chamaríamos como… segurança?

Mas que tipo de segurança? A que coloca ordem com operações em dias festivos, como Natal e Ano Novo ou a que faz a guarda das pessoas frente à orla? A que está presente ou a que apenas está ocupando o lugar de diversas políticas públicas que deveriam ser (e devem) reger o ambiente de uma favela?

Essa coisa mínima de ir de uma ponta a outra não pode ser banal, nem deve. Ela impede não só a minha saída, mas a minha chegada. Impede meus sobrinhos, o seus filhos e os dos vizinhos de simplesmente brincarem ou irem a praia num dia de sol em pleno verão carioca. Uma simples ida à praia, coisa mais típica do morador do Rio. Uma ‘’válvula de escape’’ para quem não consegue mais viver dentro de um barril de pólvora e que pode explodir a qualquer momento. Estamos no escuro, sem luz. Literal.

Eu poderia terminar parafraseando e até mudando a célebre letra dos Titãs que pergunta “você tem fome do quê?“, só que faria da minha forma, trocando a palavra “fome” por “medo”. Só que não estou nos anos 80 e minha realidade me leva a terminar saudando uma outra letra, conhecida por todos que residem nas favelas espalhadas pelo Brasil:

‘’Eu só quero é ser feliz/ Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é./ E poder me orgulhar, e ter a consciência que o pobre tem seu lugar.
Fé em Deus’’ ♫♪

Edu Carvalho é estudante de graduação em Comunicação Social – Jornalismo na PUC-Rio e repórter do site FaveladaRocinha.com

Em três meses, mídia impressa do Rio publicou 80 capas negativas sobre favelas 5 34

Colagem de jornais impressos lidos na análise

Ninguém compra mais jornal impresso porque só tem notícia ruim. Essa declaração assertiva faz sentido se levarmos em consideração sobre como os jornais impressos abordam as favelas do Rio de Janeiro em suas capas.

Nos meses de março, abril e maio de 2019, fiz uma análise da cobertura jornalística das redações cariocas sobre as favelas para verificar se falam positivamente ou negativamente sobre as favelas do Rio. Eu, como profissional da comunicação, sempre busco ter cuidado ao publicar informações. Quem vai ler? Quem vai ser atingido? O que pode acontecer com as pessoas abordadas na notícia? Isso é interesse público ou interesse do público? 

92 dias após ler – cuidadosamente – os jornais impressos O Dia, Extra, O Globo e Meia Hora constatei que quem vê capa não vê coração. As favelas e seus moradores são retratados de forma sensacionalista por esses jornais e produtos televisivos há décadas. 

Os profissionais da imprensa nas redações cultivaram uma passividade de não questionar o que dizem as notas oficiais, deixando de lado as testemunhas. O editor, baseado em sua subjetividade, determina o que entra ou não na reportagem. E assim, em pleno ano 2019, ainda se veem manchetes taxando moradores de favelas como suspeitos ou criminosos, mesmo que inocentes, e jovens da Zona Sul como universitários, mesmo que culpados.

Uma pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), feita em 2007, com repórteres e editores dos principais veículos de comunicação no país mostra que não mudou muita coisa até hoje. “A maioria dos profissionais ouvidos reconhece que os seus veículos têm grande responsabilidade na caracterização dos territórios populares como espaços exclusivos da violência. Ao mesmo tempo, admite que a população dessas comunidades raramente conta com a cobertura de assuntos não relacionados ao tráfico de drogas e à criminalidade”, aponta a pesquisa.

Na análise dos jornais impressos, vi que a cultura, o esporte, a economia e as dificuldades cotidianas enfrentadas pelos moradores de favelas aparecem muito pouco, especialmente quando se considera o imenso número de reportagens e notas sobre operações policiais, tiroteios, execuções.

Em 92 dias, os jornais pesquisados publicaram quatro notícias positivas em capa, enquanto notícias negativas ocuparam 80 capas. Houve dias em que os jornais não abordaram assuntos relacionados às favelas em capas.

O jornal Extra, do grupo Globo, foi o que mais deu de capas negativas. Não à toa: o veículo de comunicação criou uma “editoria de guerra”, em 2017, para tratar da violência no Rio. A maioria das capas negativas foi referente à violência armada, varejistas de drogas e milicianos. O desabamento de dois prédios na favela da Muzema também ganhou espaço devido à proporção da tragédia em que 24 pessoas morreram. Na editoria de esportes, o jornal optou por dar destaque a diretoria do Clube de Regatas do Flamengo que vetou a expressão “Festa na favela” por ser algo associado à violência.

No mês de abril, o jornal Extra publicou 14 capas negativas, sendo que, 6 delas foram de forma sucessiva entre os dias 11 e 16 de abril. As capas destacaram a cobrança por meio de carnê feita por milicianos na Praça Seca, zona oeste do Rio; moradores da favela de Manguinhos, na zona norte, que foram atingidos por tiros de um sniper, além da tragédia na favela da Muzema, também na zona oeste da cidade.

A violência no Rio de Janeiro como mercadoria jornalística legitima o pensamento de “CPF cancelado”. Um fato negativo sobre favela sempre é vendável, pois os leitores normatizam a violência. 

Em um ensaio publicado no Nexo, o diretor da Ford Foundation, Átila Roque, sintetiza esta análise que fiz nos últimos meses. “A geografia segregada das cidades, a impunidade que prevalece em homicídios cometidos por policiais e a política de segurança focada na guerra e no enfrentamento armado do tráfico suspendem na prática o estado de direito e instalam o estado de exceção em certas áreas das cidades, sinalizando com uma autorização tácita para a execução dos “elementos suspeitos”. Uma seletividade perversa que torna alguns sujeitos matáveis, sem que sintamos qualquer horror ou responsabilidade em relação a isso”, explica Átila Roque.

O estudo desenvolvido nos últimos meses serve de exemplo para mostrar como a falta de diversidade nas redações cariocas influenciam na produção de conteúdo sobre favelas. Nos últimos anos, as discussões sobre diversidade nas redações ganhou mais espaço.

As capas negativas são frutos de jornalistas com uma visão homogênea que não têm vivência local e provocam uma pauperização nas reportagens por falta de um olhar interno e mais realista. É tempo de mudar.

Romário Regis: “Pensa numa AK-47. Agora pensa numa AK-47 numa favela” 0 9

Pensa numa Ak-47.

Agora pensa numa Ak-47 numa favela.

Uma Ak-47 custa 60 mil reais. R$60.000,00.

O Brasil não fabrica Ak-47, mas mesmo as armas fabricadas no Brasil não podem ser compradas numa loja de conveniência.

ou seja,

Pra uma arma chegar numa favela, é preciso uma caminhada bem longa de muitos envolvidos, participantes e sócios. Não se compra um Fuzil ou uma Pistola na OLX.

Para uma AK-47 chegar numa favela, ela precisa ser importada ilegalmente. Precisa ter alguém que traga num transporte aéreo ou pelo mar e sabemos bem que a Favela não domina o mercado náutico e nem aéreo Brasileiro.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que alguém da polícia federal ganhe um dinheiro para as cargas entrarem na fronteira brasileira e circule pelas estradas do País para chegar em Estados como Rio de Janeiro e São Paulo.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que as polícias estaduais dos Estados que essa carga passe ganhem algum dinheiro.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que alguma parte do Governo do Estado seja conivente com a chegada de armas numa favela.

Pronto. Chegou a AK-47 e jovens que não possuem nenhuma instrução estão armados com uma arma super potente. Levam a culpa por toda uma cadeia produtiva de tráfico de armas que eles nem devem compreender.

E vai além.

Quando tem uma troca de tiro na favela ou na rua, a culpa não é apenas de quem está com a arma na mão, mas sim de TODA A CADEIA PRODUTIVA que fez a arma chegar na mão daquela pessoa. É tanto culpa de quem dá o tiro até a culpa de quem transporta a munição pelo mar ou aceita o arrego na Blitz numa dessas Br’s ai pelo Brasil.

E não tem só o “bandido atirador” não.

Tem Deputado.
Tem Governador.
Tem a Empresa de Armas.

Tem um monte de gente que “não deve ser citado”.

Um tiro é uma Genki Dama de gente envolvida. Seja você a favor do Estatuto do Desarmamento ou não, seja você a favor de Bandido Bom é bandido Morto ou não, é preciso saber que.

UMA
ARMA
NA
RUA
TEM
DEZENAS
DE
ENVOLVIDOS

Se bandido bom é bandido morto, sua lista precisa aumentar inclusive para os donos das empresas fabricantes de armas que lucram milhares de dólares e reais com essas armas vendidas informalmente.

O policial é o menor responsável dessa cadeia produtiva assim como o bandido que troca tiros de havaianas na favela não sabe de 5% daquilo que está envolvido.

Os culpados são outros e a gente insiste em resumir tudo na Wagner Montesrização de o único culpado é quem atira.

Geral é culpado. Entre quem dá o tiro e quem fabrica a arma, existe tanta gente envolvida que nem The Walking Dead daria conta de criar tanto personagem

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