Educação, periferia e pandemia: Uma tríade capitolina perigosa 0 251

Educação, periferia e pandemia

As questões socioeconômicas junto ao impacto da pandemia aprofundam a desvantagem de aprendizado entre estudantes de escola pública e privada de Montevidéu, Uruguai.

Neste momento, é interessante falar das dificuldades que surgem para manter a regularidade dos estudos em época de pandemia no Uruguai, especialmente no Ensino Médio de adolescentes do ensino básico, cujas idades variam de 12 a 14 anos, em instituições da periferia de Montevidéu. 

Nessa faixa etária observei a maior dificuldade em manter um vínculo com o sistema educacional. Durante quinze anos trabalhei em instituições de ensino localizadas na periferia da capital uruguaia e esse problema estava presente, sendo produto de múltiplos fatores, já que a educação não era vista como promotora de mobilidade social. Nesse espaço também havia outras atividades, que promoviam melhores condições financeiras, em menos tempo, embora com alto risco de vida. Por outro lado, pelo fato de viverem ali, alguns jovens, mesmo com ensino formal, não tiveram a possibilidade de acessar outros espaços de trabalho, industriais ou de serviços, pois muitas empresas preferem não contratar pessoas da periferia por temerem desvios de conduta, faltas, etc. 

A sua vez, a ausência de acolhimento do sistema educacional para aqueles alunos que eram a primeira geração de suas famílias a ingressarem no ensino médio, muitas vezes não possuíam um espaço físico ou a compreensão da família sobre o que significa estudar – como a dedicação de tempo, a formação de rotinas, de um lugar apropriado, o acompanhamento nos estudos. Isso não permitiu que os adolescentes tivessem as competências para responder com sucesso aos requisitos dos cursos secundários.

Processo de democratização da educação no Uruguai

Entre 2005 e 2019 existiam políticas progressivas de democratização da educação, o que favorecia o acesso, mas não a permanência ou a graduação. As instituições de ensino com populações vulneráveis não tinham apoios suficientes como corpo docente, equipes multidisciplinares, ampliação da oferta educacional, possuindo apenas um orçamento maior, mas para o qual não havia uma fiscalização.

Nesse período, a democratização da educação e a melhoria econômica de alguns setores sociais da periferia promoveram a destinação de recursos econômicos à educação privada. Assim, cresceram as instituições privadas com oferta de ensino em tempo integral, às quais eram assegurados professores, a regularidade dos cursos, de materiais e a permanência dos adolescentes durante oito ou nove horas por dia.

As diferenças entre o ensino privado e o público manifestaram-se em melhores resultados, mediante observações diferentes. Cursos mais completos e com maiores taxas de graduação no primeiro caso, onde o sucesso era contado com o número de concluintes, por outro lado, no ensino público, o sucesso era medido pela permanência dos adolescentes no sistema educacional, onde a taxa de repetência e de alunos maiores de idade era crescente.

Nas duas áreas educacionais, a profundidade e a funcionalidade dos conteúdos acadêmicos foram deixadas de lado para os alunos em um local onde se questiona a ideia da educação como geradora de oportunidades. As ferramentas educacionais também não foram diferentes porque, em ambas as situações, foram utilizadas fotocópias e houve uma ou duas aulas externas por ano.

Educação em meio a pandemia 

Essa realidade educacional foi afetada de forma particular em 2020 com as medidas de saúde do governo para enfrentar a pandemia da COVID-19. A suspensão das aulas presenciais foi ordenada pelo Estado. Foi assim de março a junho de 2020, atualmente, em abril de 2021, o mesmo cenário é retomado – a doença é agravada pela entrada da variante COVID-19 P1 – onde a presença dos alunos dependerá do aumento ou diminuição dos infectados.

Funcionários da área de saúde realizam testes de Covid-19 nos arredores de Montevidéu, Uruguai. Foto: Matilde Campodonico/AP.

Outra medida é a suspensão da escolaridade obrigatória, princípio de longa tradição em nosso país, presente desde o final do século XIX, quando foi realizada uma reforma educacional na primeira modernização do Estado-nação da América Latina no Uruguai, inicialmente dirigido por José Pedro Varela, influenciado pela tradição norte-americana e pelo propósito de “disciplinar” a sociedade para integrar os hábitos culturais modernos sob os princípios da obrigatoriedade, laicidade e gratuidade.

O atual governo do Uruguai, formado por uma coalizão de partidos políticos que acabou com a sequência de governos progressistas de esquerda, tomou posse em março de 2020. Apenas uma semana após o início do mandato, implementou novas diretrizes de conduta e limitação de atividades, antes do aparecimento das primeiras infecções por COVID-19. 

A suspensão das aulas e a sua obrigatoriedade de impedir a propagação da pandemia revelaram lacunas na educação, antes amortecidas, mas não resolvidas, diante de políticas sociais que foram pensadas para o território e a população em geral, sem verificar as particularidades geográficas e sociais que o Uruguai possui.

A educação precisa estar aliada às particularidades de quem vive na periferia

A falta de estudo das particularidades aliada à presença da COVID-19 está causando fissuras importantes, ainda maiores do que as existentes, entre o ensino público e o privado. Alguns dos elementos que fazem essa diferença, que afetam alunos e professores, são o acesso à internet, a posse de computadores ou telefones celulares particulares de cada aluno, a existência de um espaço físico adequado para receber e ministrar aulas por videoconferência, a incorporação de uma rotina, de respeito pelo espaço com que recebem e dão aulas em casa (fazer silêncio, não gritar ou ter televisores e rádios ligados) e comunicação clara das instituições sobre horários de atividades virtuais.

O ensino remoto escancara problemas sociais no processo educativo. Foto: Divulgação.

Vamos levar em conta três elementos dessa particularidade: a falta de conexão com a internet, a diminuição do conteúdo e a reconfiguração da função docente.

– A falta de conexão afeta, principalmente, o espaço da periferia de Montevidéu e Canelones, porque a fibra óptica não está instalada em sua totalidade, portanto, a velocidade de conexão é diferente nas residências. E a necessidade de energia elétrica, nos espaços onde às vezes o serviço é acessado de forma irregular, à medida que o consumo aumenta nos meses de inverno, é interrompido por constantes quedas de energia que afetam a transmissão de videoconferências ou atrasam o envio de trabalhos dos alunos. 

Agora, em termos de custo, as videoconferências Zoom e Meet consomem dados, assim como o acesso a plataformas como Google Classroom e Crea de Ceibal, sendo apenas Conference e Moddle gratuitos, cujo desempenho é ruim, corta, congela a imagem e a voz não é transmitida regularmente, impedindo uma comunicação eficaz. Isso torna o acesso inviável para quem não pode pagar pela internet ou serviços de dados pelo seu celular.

– A diminuição dos conteúdos cresceu em 2020 com o retorno da aula presencial, porque a medida de distanciamento social da saúde se deparou com instituições cheias de alunos e com pouco espaço, tendo que dividir em grupos para desenvolver as aulas, ou seja, foi preciso reduzir pela metade o tempo de aula. A queda de conteúdo no meu curso foi grave, pois, consegui trabalhar apenas 30% do total dos tópicos. Atualmente, abril de 2021, a virtualidade e a não obrigatoriedade são retomadas como medidas, enquanto estamos em processo de vacinação e aumento de infecções. 

– O papel docente é questionado entre o profissional e o comprometimento. Entre a decisão de ser profissional exigindo melhoria na situação de trabalho, equipamentos, wi-fi, etc; e a exigência do comprometimento, solicitada pela sociedade e pelo desprendimento, de se vincular individualmente, com meios próprios, sem uma instituição de ensino que facilite o vínculo, com os alunos. Ao mesmo tempo, novas tecnologias são aprendidas e ensinadas com poucos recursos humanos das instituições e individualmente. 

Pensa-se também o que avaliamos e como avaliamos. No caso da área de História, existem formas possíveis de avaliação com maior reflexão, na comparação de conteúdos, na seleção de materiais, e até observando que a memória acaba sendo deixada de lado, pois parece que não há necessidade disso com o uso da tecnologia que nos fornece a informação. O professor também se viu sozinho, sem espaços de coordenação ou interação com seus pares para canalizar o transbordamento que implica o aumento de tarefas.

Podemos concluir várias coisas que encaminham ao fortalecimento da educação não presencial e não obrigatória, como a falta do componente estatal no fornecimento de meios de comunicação da educação, diante disso, a ausência de vontade e o compromisso do aluno, e a reconfiguração do papel docente como articulador de saberes e habilidades para a busca de informação, deixando de lado a construção do conhecimento. Isso está gerando uma diminuição de conhecimentos e habilidades na população jovem que está nas periferias. A solidão e a falta de ferramentas não são bons aliados para o desenvolvimento da autonomia criativa nestes tempos de pandemia. Os laços humanos na comunidade educativa, espaços de interação profissional, são, como sempre, essenciais para o enfrentamento de um mundo pandêmico.

María Salomé Fernández Batista.
Professora de História.
Discente de Especialização em Estudos Afro-Latino-Americanos e Caribenhos – CLACSO.
Montevidéu, Uruguai.
salome.batista2012@gmail.com

*Imagem em destaque: Administração Nacional de Educação Pública – Uruguai.

*Edição: Renato Silva.

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