Encontro de narrativas 2 22

No último fim de semana, dos dias 18, 19 e 20 de outubro, a cidade do Rio de Janeiro recebeu, na Fundição Progresso, a segunda edição do Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente – uma iniciativa brasileira que tem a premissa de fomentar as discussões sobre o momento de reinvenção que o meio digital tem imposto ao jornalismo, e como falar em jornalismo independente, inovador e inspirador, sem contemplar o trabalho de jornalistas negros, pobres e moradores das favelas e periferias Brasileiras que constroem a primeira geração de universitários em suas famílias?

Com base nessa reflexão e considerando que a produção jornalística ao longo dos anos esteve restrita à classes mais privilegiadas do Brasil, a equipe de organização do evento encontrou caminhos para conceder subsídios que pudessem garantir certa diversidade no evento e foi a criação da categoria de “patronos” do festival que permitiu a participação de 70 jornalistas e comunicadores oriundos de diferentes favelas e periferias do país. 

O integrante do conselho curador do festival e representante do projeto #Colabora, Agostinho Vieira, esclarece como foi o processo que conseguiu viabilizar entradas gratuitas para estes profissionais: “desde o início discutimos a necessidade de ter um pacote de ingressos para os jornalistas da periferia. A questão era como fazer isso sem afetar o orçamento do festival que já estava bem apertado. Por isso buscamos os “patronos” que apareceram na divulgação do evento. Os patronos foram a Coca-Cola Brasil, a Open Society e o ICS (Instituto Clima e Sociedade). Eles basicamente compraram os 70 ingressos que foram oferecidos para os jornalistas”.

Os desafios para viabilizar de forma igualitária a participação de jornalistas periféricos, que não teriam chance de pagar o valor de R$ 320,00 no ingresso para participar de 3 dias de festival continuavam, e foi necessário decidir um critério para a distribuir os ingressos. “Fazer parte de um coletivo de comunicação, por exemplo, foi uma das ideias. No final resolvemos abrir as inscrições no site do festival para quem quisesse se candidatar. Todos poderiam se inscrever. Achamos que apareceriam 200 ou 300 e teríamos que voltar a debater os critérios. Mas isso não foi necessário. Tivemos 75 inscrições para 70 ingressos”, finaliza Agostinho Vieira.

Desde a primeira edição em 2017, com 20 ingressos subvencionados, a equipe organizadora vem demonstrando o interesse em proporcionar um ambiente de inclusão no evento. Ainda que o conselho tenha conseguido através dos patronos e curadoria para incluir iniciativas ao espaço Google, a secretaria-executiva do Festival 3i, Natalia Viana, relata que outras preocupações ainda permeiam o tema para as próximas edições. “Infelizmente não conseguimos viabilizar o apoio logístico desta vez, embora tenhamos tentado, algo que buscaremos para o próximo festival”, acrescente Natalia, mostrando a disposição do conselho em seguir ampliando possibilidades de inclusão.

Os coletivos, jornalistas e veículos de comunicação que surgem no contexto de favelas e periferias do Brasil, desenvolvem-se a partir do ambiente digital. O celular, torna-se a principal ferramenta de produção jornalística porque é o equipamento acessível para essa geração que se forja e encontra, na internet, o espaço de criação e emancipação que, até hoje, não existe nas redações tradicionais. Só que criar saídas é a especialidade desse time e articulação é rotina. Talvez você não consiga imaginar perfeitamente como um profissional pode não ter dinheiro para locomoção e alimentação no centro de uma grande cidade que é o Rio de Janeiro. Mesmo com os ingressos em mãos, muitos desses profissionais não poderiam vivenciar a experiência de compartilhamento e aprendizado que espaços como este proporcionam e aí surge a ideia de realizar uma vaquinha online.

O engajamento através das redes sociais foi importante para o reforço no orçamento do grupo de jornalistas favelados.

Pelo menos 14 jornalistas, além da gratuidade de ingresso, precisavam de apoio financeiro para deslocamento e alimentação durante os 3 dias do festival. “Eu percebi que muitos estavam animados com a possibilidade viver essa experiência, mas ao mesmo tempo, preocupados com a falta de dinheiro para chegar até lá. Parecia inviável, mas já tínhamos conseguido a parte mais difícil. Decidi pedir ajuda em grupos de whatsApp e montei uma thread no Twitter, em algumas horas nós conseguimos reunir o dinheiro necessário”. Conta Daiene Mendes, jornalista e co-criadora do Favela em Pauta.

Um grupo de 16 pessoas, que acompanham e acreditam nos trabalhos desempenhados por todas essas figuras, doaram o que puderam, chegando à cifra de R$ 1.670,00, que possibilitou que o grupo dos 14 jornalistas e comunicadores periféricos pudessem, além de acessar o espaço, também custear transporte e parte da alimentação durante esses dias. No Rio, foi através desses profissionais que a #RedaçãoFavela foi usada para realizar a cobertura colaborativa do Festival 3i. Através de suas próprias redes sociais, os jornalistas compartilharam suas percepções e aprendizados e o @FavelaEmPauta compartilhava em todos os canais de mídia unificando o discurso.

Pedro Borges, do Alma Preta, ilustra a representatividade no Festival 3i, onde apenas 7 palestrantes, de um total de 42, eram não brancos.

Um dos infelizes fatores que ilustram bem o cenário desigual do jornalismo brasileiro é a gritante ausência de negros nas redações. O palestrante Pedro Borges, do Alma Preta, trouxe em sua fala alguns dados que expõem muito bem essa realidade, segundo o levantamento, as redações dos jornais O Globo, Folha de São Paulo e Estadão tem respectivamente 9%, 4% e 1% de profissionais negros em suas equipes. Contrastando a representação com dados do levantamento étnico da população brasileira realizado pelo IBGE em 2016, onde consta que 54,9% da população brasileira se considera não branca (46,7% se consideram pardos e 8,2% se reconhecem pretos), fica evidente a precisão dos argumentos do palestrante. E o jornalista acrescenta dizendo que “as redações brasileiras ainda são majoritariamente brancas e masculinas, mas não basta ser negro, é preciso construir espaços antirracistas”, e se o tema é jornalismo inovador, com foco em nativos digitais e novos meios, Pedro ainda vai mais fundo ao alertar sobre o tema, “o jornalismo independente não pode reproduzir a mesma lógica que a grande imprensa. Não existe a possibilidade de se construir democracia no Brasil sem diversidade”, ele afirma finalizando sua fala e também a série de palestras e workshops que durou um fim de semana inteiro na região boêmia da cidade do Rio. 

Esse evento, as palestras e demais momentos, envolveram boa parte dos veículos hegemônicos e o contato com alguns desses profissionais produziu discordâncias pontuais e aprendizados mútuos. “Eu fiquei muito grata pela oportunidade. Não teria como ir por meios próprios. O ponto mais alto do evento foi olhar pro lado e ter mais pessoas do meu bonde junto comigo, do contrário não faria sentido aquele conteúdo. Muito do que foi passado não se aplica à nossa realidade. Ver Raull e Pedro no palco e a galera do espaço Google lavou minha alma. Eram os nossos ali. Me senti contemplada e penso que, se é pra falar de inovação eles tem que chamar a gente. Jornalista com 40 anos de carreira tem experiência, mas isso não necessariamente quer dizer que ele é inovador. Inovador é o que a gente faz, sem recurso, sem ferramenta, muitas vezes sem formação e fica tão profissional quanto”, acrescenta a participante Michele Silva, que é co-criadora do Fala Roça, da favela da Rocinha. 

Raull Santiago, empreendedor social e ativista, integrante do Coletivo Papo Reto e Movimentos em sua fala no último dia de festival.

As discordâncias foram absorvidas e terminaram por potencializar ainda mais a fala de um dos palestrantes do último dia de evento. Raull Santiago trouxe tanta representatividade e força para a sua fala, mostrando o tamanho do equívoco de outros profissionais de veículos consolidados, que costumam taxar profissionais periféricos como ativistas, ou até mesmo como fontes de informação. Sobre isso, Raull diz que “ainda nos veem como fonte, não como produtores de conteúdo. Nós, jornalistas periféricos, sabemos fazer, mas não somos valorizados como trabalho de ponta. Querem transformar o jornalismo? Se conectem com essas pessoas (jornalistas favelados e periféricos presentes no momento que, a pedido do palestrante, se encontravam de pé sob os olhares de todos)”.

O Festival 3i aconteceu através da parceria dos veículos nativos digitais Agência Lupa, Agência Pública, JOTA, Nexo, Nova Escola, Ponte Jornalismo e Repórter Brasil, em 2017, contando ainda com ((o)) eco, Congresso em Foco, ÉNois, Marco Zero Conteúdo, Poder360 e Projeto #Colabora, que chegam para integrar o conselho curador do festival, que em 2019 teve a parceria de Google News Lab e Facebook Journalism Initiative.

Enem e Periferia: as dificuldades de avançar nos estudos durante a pandemia do novo coronavírus 0 155

*Reportagem colaborativa de Rick Trindade e Mariana Assis

Para muitos jovens periféricos ou de favela, ingressar em uma universidade é uma chance de ocupar novos lugares, mas para alguns ainda é visto como um lugar difícil de ser alcançado. A maioria desses jovens vem de uma realidade na qual a educação de qualidade nem sempre se faz presente, e depois de enfrentarem dificuldades no Ensino Médio, ou até mesmo aqueles que estão longe de uma sala de aula há muito tempo, enxergam nos cursinhos pré-vestibulares comunitários um caminho para a realização de seus sonhos. E em tempo de quarentena, alguns planos precisaram ser alterados ou adiados.  

Em 31 de dezembro de 2019, foi identificado em Wuhan, na China, o primeiro caso de infestação pelo novo coronavírus. O vírus começou a se disseminar pelo mundo em escalada, atingindo países do continente asiático e europeu. A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a doença, em março deste ano, como pandemia. A primeira morte no país ocorreu no mesmo mês, em São Paulo. Desde então, o número de casos e mortes só vem aumentando.

Um levantamento feito pelo G1 junto às secretarias municipais e estaduais de saúde, afirma que nesta  segunda (1º), já foram registradas quase 30 mil mortes e mais de meio milhão de casos confirmados. O Brasil já é o segundo maior país do mundo em número de casos da doença, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, que registra nesta segunda (1º), 1.787.680 casos e 104.396 mortes, de acordo com a atualização de hoje do CDC (Centro para o Controle e Prevenção de Doenças americano). 

Assim que o calendário do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2020 foi divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) em março, e já enfrentando os desafios impostos pela Covid-19, entidades da sociedade civil começaram a se articular pedindo o adiamento das datas apresentadas (prova impressa nos dias 1º e 8 de novembro; digital, 11 e 18 de outubro). 

Organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), dezenas de mobilizações contra à data ganharam protagonismo nas redes sociais, alcançando grande expressão no dia 15 de maio quando houve um tuitaço. Além disso, os grupos entraram com ações na justiça e fizeram um abaixo assinado, que já contabiliza mais de 350 mil assinaturas, o  Adia Enem

Uma das principais argumentações era de que a manutenção da prova indicaria um desrespeito por parte do Ministério da Educação, visto que nem todos os alunos teriam condições de continuar os estudos. Dados do infográfico Desigualdade feito pela Casa Fluminense apontam que, dos 5,5 milhões de candidatos que realizaram o Enem em 2018, menos da metade tinha computador em casa. Quando esta parcela é recortada aos candidatos de escolas públicas e sem computador, a diferença atinge quase 90%.  Segundo dados levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca mais de 45 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à internet. 

Os pré-vestibulares comunitários em tempos de pandemia

Logo quando o isolamento social foi implantado, a direção do cursinho popular da Rede Emancipa, em Belém, no Pará, Estado que, segundo a Secretaria Municipal de Saúde do Pará, já somatiza mais de 40 mil casos do novo coronavírus, e 3 mil mortes, suspendeu as atividades presenciais e adotou, após pesquisa interna, aulas via WhatsApp. O aplicativo de mensagens foi a plataforma indicada como a que possivelmente melhor atenderia aos alunos. 

Para Hamilton Nogueira, 33, professor do cursinho esse novo método tem sido uma experiência nova para a maioria dos professores, poucos já haviam dado aula dessa forma. A “novidade” causou impacto, e por questão de hábito, até agora ele não se adaptou com o modelo de ensino online. “A maioria dos professores estão acostumados com aquele vínculo mais próximo, aquele vínculo afetivo, então quando você muda isso drasticamente, principalmente pra quem não tem essa experiência, pela distância, você sente sim um estranhamento”, diz ele. 

Os alunos também sentiram o impacto negativo das aulas via WhatsApp, a maioria ainda não conseguiu se adaptar. “O nosso público vem de uma realidade social às vezes com muitos problemas familiares. É muito difícil a concentração, sem falar na questão do material, então nós temos que sempre estar pensando estratégias todos os dias pra poder motivá-los”, afirma o professor, que dá aulas de Literatura e Redação.

Clarissa Andrade, 26, é aluna do cursinho, ela destaca que nesta nova realidade, não ter essa relação próxima acentua os desafios na preparação para o vestibular. Agora, estudando em casa, precisa ter disciplina redobrada e lidar com as eventuais interrupções, já que divide a casa em que mora com outras nove pessoas. Mas as dificuldades não se encerram aí. 

A renda principal de sua família provém de trabalhos informais alterados neste contexto pandêmico. De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do primeiro trimestre deste ano, o desemprego atingiu 12,8 milhões de pessoas, cerca de 900 mil a mais se comparada ao mesmo período do ano passado. O auxílio emergencial  no valor de R$ 600 ajuda, mas não deixa de provocar receios quanto ao futuro. Clarissa comenta que o emocional é inevitavelmente abalado, o que dificulta a rotina de estudos. 

Assim como boa parte de seus colegas de classe, Clarissa já terminou o Ensino Médio há mais de dez anos e sente que as trocas que a sala de aula proporcionam não só enriquecem como também dão força para continuar. Antes da pandemia, a sala de Clarissa tinha 108 alunos;  depois que as aulas foram para o WhatsApp, pouco mais de seis interagem frequentemente no grupo. “Nós tivemos uma evasão muito grande justamente por nem todos nós termos acesso à internet. Então, isso dificultou muito”, conta ela que deseja cursar Medicina.

Enquanto o Emancipa, em Belém, decidiu continuar suas atividades, isso não foi possível para o Vila Isabel Vestibulares (VIVE), localizado no Morro dos Macacos, Zona Norte do Rio de Janeiro. O projeto funciona há mais de 20 anos e o valor arrecadado, a partir de mensalidades simbólicas, é revertido em compra de materiais aos alunos e para as atividades extraclasse, como passeios culturais e visitas à universidades.  

Amanda de Oliveira, 25, professora de Biologia, afirma que desde quando foi estabelecida a quarentena, as aulas tiveram que ser interrompidas. Houve um questionamento por parte de alguns alunos se as aulas continuariam de forma online. Discutido em reunião e levado para professores e alunos, eles chegaram a conclusão de que, de forma geral, os alunos não conseguiriam acompanhar as aulas online, já que nem todos possuem computador em casa ou uma internet de qualidade para baixar vídeos ou assistir aulas ao vivo.

“O que a gente  faz hoje, é tentar prestar de alguma forma uma assistência, então a gente tá aberto a comunicação com eles, de vez em quando um aluno ou outro aluno diz no grupo que está com dúvida em alguma coisa ai o professor vai lá, ajuda e explica, às vezes eles pedem alguns materiais, a gente envia, tudo a partir das demandas deles”, explicou Amanda. 

30 ou 60 dias, é o ideal? 

Para a professora Amanda, o ensino à distância só é possível desde que os alunos tenham os dispositivos necessários para acessar o conteúdo. Com a pandemia, tudo fica ainda mais difícil, afetando a saúde mental e física de quem não terá a oportunidade de manter os estudos. ”Pensar em que esses alunos deveriam estar estudando é descontextualizar a realidade deles , a realidade física, a realidade de onde moram, a realidade política”, pontua.

De acordo com Iago Montalvão, Presidente UNE, o não adiamento das provas poderia representar um impedimento aos alunos de baixa renda e a juventude favelada, preta, indígena e quilombola de acessarem esse espaço. ”Com o Enem mantido na data e sem as aulas, esses estudantes não têm as mesmas condições de estudar em casa, então estaria promovendo uma elitização do acesso à universidade”, complementa. 

Após forte pressão, o Senado Federal aprovou, no dia 19 de maio, o projeto de lei   1.277/2020 que prevê “a prorrogação automática de prazos para provas, exames e demais atividade para acesso ao ensino superior em caso de reconhecimento de estado de calamidade pelo Congresso Nacional ou de comprometimento do regular funcionamento das instituições de ensino do país”. A PL segue para votação na Câmara dos Deputados. Entretanto, no dia seguinte, O INEP divulgou nota em que anuncia que o Enem será adiado entre 30 a 60 dias, a ser decidido por meio de enquete no Página do Participante, em junho. 

Professores e alunos dos pré-vestibulares aqui citados viram o adiamento como uma conquista, mas julgam que 30 ou 60 dias ainda não é um cenário ideal, se a realidade em que vivem for levada em conta. Acreditam que a vitória no Senado tenha sido importante, mas que a pauta pelo um adiamento mais extenso continua. O preparo virtual não contempla todos os estudantes que vão prestar o Enem e, por isso, é necessário uma data que leve as diferenças de acesso em conta.

Para Brenda Barcellos, 22, moradora do morro da Serrinha e estudante do VIVE, o Enem não é uma prova que distribui conhecimento por igualdade. A jovem teme que o adiamento da data não seja suficiente. “Mostra uma clara materialização que há na educação no Brasil, porque os conhecimentos que são cobrados nas provas não são distribuídos de maneira igualitária no Ensino Médio público”, destaca Brenda que não teve aulas de química, física e geografia na escola.

Brenda, no entanto, é otimista. Conta que é preciso olhar para a história e se encorajar a partir da luta dos ancestrais. “Isso vai passar, nós vamos conseguir acessar esses espaços seja em 2021 ou 2022, porque toda a nossa história é pautada em resistência, em sangue. Em 400 anos de escravidão não seria fácil de reverter isso agora, não desistimos até agora, então não vai ser esse governo que vai fazer a gente desistir”. 

Questionamos os motivos pelos quais o INEP adiou as datas das provas e inscrições, por que essas datas não acompanham o calendário escolar e se tem havido conversas com organizações estudantis. Como resposta, o INEP limitou-se a dizer:  “As informações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 estão sendo divulgadas no portal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).”

O que você precisa saber sobre o ato #VidasNegrasImportam 2 66

O ato #VidasNegrasImportam, organizado pelo Movimento de Favelas do Rio de Janeiro, realizado no domingo (31/5) não é só mais uma manifestação. É o estopim para que as favelas não sejam mais alvos de operações policiais sem fundamento.

Os dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública traz preocupações que são antigas para quem nasceu e vive nas favelas do Rio de Janeiro. Em abril de 2020, a polícia matou 43% a mais do que em abril do ano passado, de acordo com análise feita pelo Observatório da Segurança.

No município de São Gonçalo, região onde o menino João Pedro, de 14 anos, foi assassinado durante uma operação conjunta da Polícia Federal e Civil, concentra 48,13% das mortes.

Já na área do 41°BPM, responsável por 15 bairros na zona norte do Rio, e onde o jovem Iago Cesar, de 21 anos, foi morto um dia antes de João Pedro, foi responsável por 58% das mortes ocorridas na área do batalhão.

Manifestantes seguram cartazes com frases sobre a realidade nas favelas. Fotos: Rithyele Dantas

Além de se preocuparem com possíveis invasões de policiais em suas casas, os moradores também precisam ficar atentos pelo que vem pelo ar. Segundo o laboratório de dados sobre violência armada no Rio de Janeiro e Recife, Fogo Cruzado, somente em 2019, houve 23 operações policiais com helicópteros sendo usados como plataformas de tiros. Ao todo, 37 pessoas foram baleadas nessas situações: destas, 27 morreram.

A manifestação é em protesto pelas pessoas assassinadas só neste período de pandemia da Covid-19. No estado do Rio de Janeiro, a polícia matou 606 pessoas em 4 meses deste ano, sendo 290 em março e abril, durante o isolamento social ordenado pelo poder público. 43% a mais do que no mesmo período do ano passado. Além disso, no dia 30 de maio, mais um jovem, Matheus Oliveira, de 23 anos, foi assassinado pela polícia nos acessos ao Morro do Borel, na zona norte do Rio.

Segundo um amigo de Matheus, eles estavam em uma moto voltando pra casa quando foram abordados por policiais que estavam na rua e se assustaram, atirando contra os dois. Matheus foi atingido na cabeça e faleceu no local. Ele trabalhava como barbeiro, motorista de aplicativo e era mototaxista. Não tinha operação policial na hora dos disparos.

Morrer por Covid-19 ou tiro de fuzil

Segundo os organizadores do ato, nem mesmo na maior crise sanitária do novo século que diversos países estão sofrendo com o novo coronavírus, as polícias do Rio deixaram de matar a juventude negra e pobre das favelas e periferias. As recomendações em todo o mundo é resguardar as vidas, mas a regra não serve para governos que já têm em suas estruturas práticas racistas e genocidas.

Na última semana, um caso que ocorreu nos EUA ganhou repercussão internacional. “Eu não consigo respirar!” foram as últimas palavras que George Floyd teve forças para dizer, enquanto um policial branco pisava sob o seu pescoço contra o asfalto. O episódio, que os negros de todo o mundo conhecem, ocorreu durante uma abordagem policial no Estado de Minnesota, nos Estados Unidos. Imagens dessa triste cena viralizaram nas redes sociais e despertaram ondas de protestos em diversas regiões do mundo.

“Aqui no Brasil, a população negra vive sob o jugo do braço armado do Estado, que age de forma genocida, atuando com uma política de morte contra os negros e favelados. No Rio, essa política fica bem explícita quando vemos o Estado entrando com o seu poderio bélico nas favelas, e não com serviços e direitos básicos”, explicam os organizadores do ato em uma carta.

Exemplo disso são as ações de solidariedade aos mais vulneráveis durante a pandemia do coronavírus, que foram frequentemente interrompidas por operações policiais. O Estado não entrou com alimentos e sim, com a morte, deixando corpos no chão.

#VidasNegrasImportam surgiu porque é necessário dar um basta a essa política que tira vidas. A principal exigência é o fim das operações policiais nas favelas para que possam freiar o genocídio negro e o fim da militarização da vida.

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