Favelas: o coração e o beco 2 50

Imaginem um coração! É assim que eu vejo a favela onde vivo, o Complexo do Alemão, como um grande coração que bate através das artérias que levam a cada segundo o “sopro de vida” a ele, ou seja, os becos.

Sim, este é um texto sobre os BECOS. São característicos em uma favela, é nele que a vida acontece, fazendo pulsar esse grande coração. Ele é o caminho, o ponto de partida e chegada, o local de encontros e despedidas, o ponto de referência, o abrigo ou o caos, para quem é de fora, um labirinto.

São vivos, se desmembram em outros, que se tornam novos becos e assim se espalham como um galho de árvore onde a partir do primeiro, se ramifica, porém, como as águas de um rio que buscam o mar, eles sempre nos levam a uma rua principal dentro da favela.

Muitas vezes para chegar ao seu, você passa por vários outros, conversando com os vizinhos na janela, com as crianças brincando, ou acompanhado pelo latido dos cachorros por trás dos portões ou ainda, ao som do Funk, de Pagode, do Forró, ligados às vezes no último volume em uma casa ou outra, quando não, em várias.

Os becos cantam, sacou? Como são importantes para o dia a dia estes becos, através deles acontecem às conexões de vida. Você conhece quem mora no mesmo beco que você, o chama pela janela, conversa de dentro de casa aos gritos, ou também aos gritos você ouve uma mãe chamar um filho para comer, botar um chinelo, descer da laje ou fazer um favor: “O fulano, cade você, vai botar um chinelo, garotoooooo! Vai à rua comprar um refrigerante!”.

Os becos gritam, tá ligado? Lembro que certa vez caminhando pela favela com um grupo de pessoas, eles me perguntaram: “Como você conhece todas essas rotas? Eu já me perdi no primeiro momento em que saímos da rua principal”.

Realmente… Eu nunca havia percebido isso, vai ver é a sobrevivência, quem é daqui já deve nascer sabendo isso, ou não, que ousadia dizer algo do tipo, mas não me lembro de quando aprendi a conhecer tantos e eu sei de quase todos do Complexo do Alemão e até de outras favelas.

Moradores jogam baralho em uma localidade na Rocinha. (Foto: Michel Silva/Favela em Pauta)

Alguns deles fazem parte da minha vida, pelos laços de afetividade e também por alguma situação de terror que eu já possa ter vivido, pois este é o famoso conjunto de favelas da zona norte e por aqui, apesar de rico em cultura e histórias incríveis, às vezes tudo se transforma numa praça de guerra, por horas…

Mano, os becos travam! É quando digo que essa artéria, esse caminho sangra; não são apenas os seres vivos que sangram por aqui, quando algo é primordial e este é abalado de alguma forma, também faz doer, também assusta…

É assim que acontece diante do “barulhento silêncio” no momento do disparo de um fuzil de assalto médio 762, ou da sequência de disparos de uma Glock rajada dentro de um beco, se sangra quando se ouve a sua parede, seu portão, a janela de sua casa, o cachorro, o vizinho, o parente sendo o receptor daquele projétil disparado. É um caos, só que às vezes tão comum, que se naturaliza a ponto de se ouvir dizer: “É normal… Daqui a pouco para… É assim mesmo”.

Tem beco que é sinistro! Aaaaaaah se os becos falassem, quanto não saberiam hein? Estão aqui desde o início, aliais, eles são o inicio, o fim, o meio, são tudo.

Eles podem não se expressar com falas, mas de forma visual, concreta, ele te demonstra qual a sua situação: Os mais pobres, os mais violentos, os que têm mais subidas ou descidas, enfim… Comum mesmo entre os diferentes becos é que se ouve dia de jogos de futebol, por exemplo, a vibração constante do seu povo a gritar e zoar uns aos outros quando o seu time faz o gol: “Goooool, caralho, puta que pariu! Isso é Flamengo, porra! O Fulano, cadê, ninguém aparece agora… Bota a cara, vascaíno”.

Os becos fervem! Chamo isso de ondas, de trocas, de encontro sinérgico onde os laços de confiança e afetividade se criam, para que você possa em breve bater na casa da frente pedindo o açúcar, ou mais comum que isso, deixar as crianças enquanto vai à rua comprar algo que esqueceu ou o que é de praxe, deixar a chave da casa para que o homem funcionário da grande loja do varejo (Casas Bahia) possa entregar o utensílio do lar. Às vezes também a chave fica para momentos tensos, pois até o homem da lei aparece: “Vizinha, vô ali no mercado comprar um negócio que esqueci, fica com minha chave pra se eles passarem ai, não arrombar o meu portão…”.

Os becos se conectam! Que incrível, não? É o cenário da vida real. Cada beco tem uma particularidade. Algumas das coisas que abordamos aqui em especial são arquivos de minha memória. Quantas vezes eles não são o nosso Playground, único espaço de lazer, já joguei muita bola, pique esconde, rodei peão e bola de gude, quando não em uma laje soltando pipa.

Os becos, para uma criança, são alegria! Agora, há dois momentos engraçados e que até hoje acontecem em muitos becos, onde antes do fato se consumir, há uma movimentação tão intensa de “desaparecer e ficar em silêncio” que nem policial ou traficante seriam capaz de agir de forma tão brilhante e rápida, falo da excelência de alguns moradores ao se esconderem do “Homem da Prestação – empreendedor andarilho que roda pelas favelas vendendo utensílios diversos” e quando a pessoa não tem alguma grana para dar ao mesmo, que normalmente vende seus produtos fiado e vem recolhendo em parcelas…

Tão rápido quanto, é o boca a boca e agitação pré-silêncio máximo que avisa que os “Testemunhas de Jeová” estão passando de casa em casa, logo cedo, normalmente às 7h da manhã. Que situação engraçada, é um cenário de filme, desliga-se todos os aparelhos eletrônicos, ficam em silêncio em suas casas observando a movimentação dos irmãos, até que eles passem. “As palmas estão mais perto, fala alguém dentro da casa. (É batendo palmas que eles chamam as pessoas.) Já estão aqui no Vizinho…” Até que as palmas chegam a sua própria casa e ao cansarem, continuam seguindo seu caminho e a vida volta ao normal.

Isso quando a vizinha sem paciência nenhuma para atendê-los ás 7h grita de dentro de casa: “Não tem ninguém nessa porra, vai bater palma essa hora na casa do …”

Em muitas casas na Rocinha, a fresta do sol é um desejo urbanístico. (Foto: Michel Silva/Favela em Pauta)

Os becos são divertidos! Becos, becos, becos… Às vezes “na madruga” em alguns deles você tem o silêncio profundo cortado pelo grito de dor de alguém que os policiais estão enfiando a porrada por conta de um cigarro de maconha que viu o jovem fumando… Em alguns outros, os meninos da movimentação cobrando algum “vacilão” que fez algo que não devia, de acordo com as leis do morro.

Os becos às vezes assustam! Mas também há os amores, as vibrações humanas, quem nunca morador de favelas, não se apaixonou pela vizinha de beco? Ficou ouvindo ele/ela cantar no chuveiro, levar broncas da mãe, chorar, se divertir…

Um beco tem esse nome justamente por ser o caminho onde dificilmente cabem duas pessoas em mão dupla. São apertadinhos por diversas casas que se sustentam umas nas outras, que não crescem apenas para os lados, mas para cima, fazendo assim se destacar a importância de uma laje na vida do morador de favela, que tendo a sua casa no térreo, constrói em cima um cômodo para o filho e este para o neto e assim sobem-se os “arranha céus” da favela.

Os becos aproximam! Falar de becos é algo emocionante, talvez impossível em palavras descrever o brilhantismo de algo tão gigante para a realidade de uma favela. Lembro-me do desânimo do povo quando após o curto circuito no “gato” a luz acaba, ou a partir do tiro que acertou algum transformador. Lembro também do “empresta, empresta” de velas entre os vizinhos, aos dizeres de na próxima compra eu te devolvo, já que vela é algo essencial em uma casa da favela. E os gritos? Sim, gritos, mas de alegria, eufóricos quando a Luz volta, parece até final de Copa do mundo.

Os becos vibram! Uma rua principal dentro morro, é alimentada por milhares deles, por todo o percurso eles são a vida, o movimento, o caminho de um povo que sobrevive do improviso criativo para seguir adiante dentro de todas as dores e amores existente dentro desse todo que formam o coração chamado Favela.

Os BECOS vivem!

*Raull Santiago é comunicador independente e mora no Complexo do Alemão. Favelaker, social media e ativista no Coletivo Papo Reto

8 Documentários para celebrar o Dia Internacional da Mulher 0 13

Celebrando o Dia Internacional da Mulher, selecionamos 8 obras audiovisuais produzidas por e sobre mulheres. Compartilhando realidades e dilemas sobre suas lutas, a lista de documentários independentes ajudam a reconhecer, valorizar e mobilizar pela luta histórica dos diversos e diferentes movimentos de mulheres na luta por direitos pelo mundo.

Todas as produções listadas vivem na #Bombozila – uma plataforma que reúne, organiza e facilita o acesso à produções documentais independentes. Com mais de 400 obras no catálogo, a #Bombozila tem foco na resistência política, além de mobilizações, seja por manutenção ou pela luta em favor dos direitos humanos básicos e muitas outras causas.

O dia Internacional da mulher é uma data estabelecida pela ONU na década de 1970 para simbolizar as lutas históricas de mulheres para equiparação salarial e de condições em relação aos homens, mas que foi ganhando mais simbolismos ao longo do tempo, como a luta contra a estrutura social machista e a violência que ela gera, entre tantos outros símbolos e causas que cercam a realidade da vida de uma mulher. 

  1. A DOR REPRIMIDA: VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E MULHERES NEGRAS – 

    Uma em cada quatro brasileiras que deram à luz já foi vítima de violência obstétrica. O tratamento hostil, seja na hora do parto, do pré-natal, do puerpério (pós-parto) ou numa situação de aborto é ainda mais comum entre mulheres negras e de periferia. “A dor reprimida: violência obstétrica e mulheres negras” propõe um debate sobre o tema, partindo de depoimentos de mulheres e profissionais que vivenciaram este conjunto de atos desrespeitosos, abusos, maus-tratos e negligência contra as mães. O documentário é o resultado do Trabalho de Conclusão de Curso da jornalista Mariana Sales pela Facom (UFBA).
  2. TRANSBAIXADA – 

    “TransBaixada” é um curta – documentário que traz um pequeno mergulho no universo trans na Baixada a partir dos relatos de três mulheres: uma cantora de funk de Queimados, uma funcionária da FIOCRUZ que mora em São João de Meriti e uma ex prostituta que viveu 10 anos na Itália mas não troca Caxias por nenhuma cidade do mundo.
  3. MAPANA

    Mapana é o nome de uma associação de mulheres do povo Ticuna. Localizada em Belém do Solimões (8 mil pessoas), a maior comunidade deste que é o maior grupo indígena do Brasil. Esta associação fornece produtos de suas roças para a merenda escolar de todas as escolas de Tabatinga (AM). Com seus resultados, tamanho e volume de produção, trata-se de uma experiência única que serve de exemplo para outras associações indígenas e comunitárias.
  4. ARPILLERAS: ATINGIDAS POR BARRAGENS BORDANDO A RESISTÊNCIA – 

    O filme “Arpilleras” conta a história de dez mulheres atingidas por barragens das cinco regiões do Brasil que, por meio de uma técnica de bordado surgida no Chile durante a ditadura militar, costuraram seus relatos de dor, luta e superação frente às violações sofridas em suas vidas cotidianas. A costura, que sempre foi vista como tarefa do lar, transformou-se numa ferramenta poderosa de resistência, de denúncia e empoderamento feminino. Por meio desse “fio” condutor, cada mulher bordou sua história, singular e coletiva, na respectiva região do mapa do Brasil. No final das filmagens, formou-se um mosaico multifacetado de relatos de dor e superação. Estes bordados, que segundo Violeta Parra “são canções que se pintam”, trazem ao público uma reflexão do que é ser mulher atingida. Se lá, no Chile, é seguir procurando suas memórias espalhadas como grãos de areia no deserto, aqui é buscar no fundo dos rios suas vidas alagadas, organizar-se, lutar e resistir.
  5. SAGRADO FEMININO EM PIABAS – 

    O documentário “Sagrado Feminino: o que o campo diz?” traz o relato das mulheres pretas e suas memórias das práticas de cuidado com a saúde, antes da chegada da medicina alopática. O filme aborda a inserção desses profissionais e as transformações ocorridas nessa comunidade, destacando também perfis de mulheres que contribuem para a sustentação dessa rede de saúde e cura, que reúne diferentes procedimentos, desde as rezas e benzimentos ancestrais até os medicamentos e remédios da biomedicina. Mas este documentário revela algo mais da riqueza singular que a pequena comunidade de Piabas possui.
  6. MARGARIDAS, LUTA E PÉ NA ESTRADA

    “Margaridas: luta e pé na estrada” é fruto da pesquisa de doutorado intitulada “Narrativas de si em Movimento, uma genealogia da ação política das mulheres trabalhadoras rurais do sul do Brasil”.

    O filme acompanha a participação de um grupo de mulheres trabalhadoras rurais da região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul na V Marcha das Margaridas, realizada em agosto de 2015 em Brasília-DF. Retrata o processo de participação na Marcha das Margaridas, desde a viagem em direção à Brasília, a chegada, a participação nas atividadades e a avaliação no retorno para casa. As narrativas das mulheres expressam os efeitos do processo de luta por melhores condições de saúde, educação, moradia, trabalho, acesso a terra e garantia de vida digna que compõem a pauta do movimento.
  7. POR ELAS – 

    Quatro mulheres compartilham suas histórias de violências, refletindo sobre o papel da sociedade na violência contra a mulher. 
  8. A MULHER QUE MOVE O MUNDO – 

    O curta-metragem documental “A Mulher Move O Mundo” retrata as ruas em 4 ocasiões: os 2 atos do 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher, ocorridos de dia e à noite, e as reações à execução da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ), tanto na vigília ocorrida na Praça Universitária, quanto no ato do dia seguinte.

    A denúncia do feminicídio e da opressão patriarcal, a construção de sororidade, o lamento pela morte de Marielle e a conclamação pela legalização do aborto e pela maior participação das mulheres nos governos, dentre outros elementos, somaram-se no grande caldeirão de manifestações cívicas de Março de 2018 em Goiânia.

Essa lista compreende realidades e cenários diferentes, vividos por mulheres de regiões distintas do Brasil, mas não aborda todas as questões que a estrutura social do nosso país faz com que sejam necessárias. Por isso, convidamos a todos a um aprofundamento no debate para além do simbólico Dia Internacional da Mulher, possibilitando enriquecer debater e a realização de mudanças factíveis que alcancem as vidas de cada brasileira. 

Texto: Renato Silva / Edição: Daiene Mendes / Foto: Divulgação/Bombozila

Abraça o papo: apoie o Favela em Pauta

Primeiro Dialoga Baixada de 2020 terá como tema o Carnaval e a Cultura Popular 0 10

O Voz da Baixada inicia hoje a agenda do Dialoga Baixada, encontro mensal onde são debatidas questões de urgência social tendo como centro do diálogo o território local. O evento acontece às 18 horas desta quinta-feira (20) com o tema “Carnaval e Cultura Popular como Resistência”.

O clima pré-carnaval pode parecer tempo impróprio para realização de debates, afinal quem é que gostaria de discussões sérias durante o festejo? Justamente o Voz da Baixada, através de um tema leve e divertido o coletivo de mídia livre vai debater a importância de defender a cultura do povo brasileiro.

O momento é mais que favorável a pensar e celebrar as histórias, tradições e a maneira inventiva que o nosso povo tem para levar a vida em meio a tanta dificuldade. A cultura do povo diz muito sobre nossas origens e preservar as histórias que ela conta pode ser ainda mais importante em um momento de ataques à cultura nacional. 

Para o Heraldo HB, animador cultural e mediador do evento, a cultura do povo é o que prova a soberania dele, independente de rótulos simples como cultura popular ou apenas o folclore. “A cultura do povo brasileiro é muito importante por que ela é uma lição dos modos de estar na vida. Essa cultura é inventiva, muito criativa e solidária, contrária à cultura do consumismo, ela na verdade é muito generosa, isso é importante dizer”.

Ainda de acordo com HB, que também é responsável pelo Gomeia Galpão Criativo em Duque de Caxias, muitas pessoas cometem o erro de acreditar que a cultura do povo é coisa do passado, mas isso é um erro. “Na verdade a cultura popular é o presente, ela é sofisticada, diversa e acolhedora. Um grande exemplo em momentos de crise, como essa política e ética que a gente está vivendo, é olhar para as formas como o povo constrói sua cultura”, finaliza Heraldo.

O Dialoga Baixada – Carnaval e Cultura Popular como Resistência vai contar com a mediação de Heraldo HB, animador cultural, escritor, produtor audiovisual e integrante do Cineclube Mate Com Angu, Gomeia Galpão Criativo, do site Lurdinha.Org e o Ponto de Cultura Lira de Ouro.

Esta edição conta ainda com os convidados Marlucia Santos de Souza, mestre em história pela UFF. Diretora do Museu Vivo do São Bento e do Centro de Referência Patrimonial e Histórico do Município de Duque de Caxias. A Dona Nora, da Folia de Reis Flor do Oriente, e Dona Vera, rainha do Maracatu Baque da Mata, movimento de cultura regional formado por músicos e articuladores culturais em Nova Iguaçu.


Serviço

Endereço: Biblioteca Municipal Governador Leonel de Moura Brizola – Av. Governador Leonel de Moura Brizola, S/N – Centro, Duque de Caxias – RJ, 25010-007
Data: 20 de fevereiro
Horário: 18h

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