Fernando Ermiro: “Eu estou protegido pelos tijolos e a argamassa erguidos nos anos 80” 0 24

Nós, os favelados, moramos numa área, que os primeiros colonos da América do Norte chamavam “city upon a Hill“, simplesmente por estar vazia uma, vez que sempre houve preferência por ocupar as áreas de planícies e esses acessos “militares” são mais difíceis, e menos confortáveis de ser escalados. Houve um tempo que essas áreas eram reservadas igreja católica, pois “nada podia estar a cima de deus”, lembrando a toda sociedade que igreja e estado eram e foram, uma coisa só.

Privilégio, no sentido que emprega Sandra Cavalcanti, não há, se houvesse e isso é subjetivo, citaria 02: as melhores vistas de uma cidade de bela topografia e com uma natureza sensacional, que somente os estrangeiros, que moram em planícies e destruíram a natureza a sua volta, são capazes de ver.

Aqui perto, por exemplo, tem a residência de Grandjean de Montignyi, estrangeiro que viu a beleza da natureza e construiu sua residência ali, enquanto que para a sociedade carioca da época, era coisa para selvagens morar próximo ao verde, e em sua obsessão por imitar a Europa, com sua ausência de verde e paixão pelo cinza do cimento, símbolo, dentro dessa mentalidade imitativa, de desenvolvimento.

Sou entusiasta, junto com outros, de uma instituição chamada Museu da Rocinha, seu conceito de operação é o valor das ações que os moradores realizavam antes do desenvolvimento” a lá Sandra Cavalcanti, valores antigos e que geravam o privilégio número 02 da minha lista: Sentido de comunidade (todo cuidado com esse termo, somos, somente na Rocinha, 100 mil moradores), uma vez que as mais modernas e caras (economicamente falando) práticas da moda atual, era o que já se fazia no início das favelas: sustentabilidade, redução do impacto ambiental, preservação da natureza, reaproveitamento das águas das chuvas, manejo inteligente da vegetação, esses são exatamente os conceitos que se quer operar o Museu da Rocinha. Não um retorno a um tempo idílico e impossível, mas uma volta necessária, para toda a humanidade, ao equilíbrio entre nós e a natureza.

As construções de casas na Rocinha entre os anos 1980 e 1990. (Foto: Guilherme Coelho)

Os maus exemplos dos ricos: desperdício, excesso, plásticos, são imitados na favela, onde entupir a si mesmo e os próprios filhos de açúcar (camuflado em refrigerantes e sucos industrializados, “caros”) é um sinal de status e diferenciação, para cima, na escala social. O lixo que é gerado pelos ricos e que “desaparece” na caixa mal cheirosa no final do corredor, é manuseado pelo funcionário mal pago do prédio de apartamentos, (alias pagar justos salários pelo trabalho, o brasileiro rico, estranhamente, não quer imitar o europeu).

Aqui na Rocinha e em outros lugares, criou-se, um necessário e funcional, projeto de recolha se lixo nas residências, mas este veio desacompanhado de envolvimento e conscientização junto a população atendida, o que gerou um maior volume de lixo, agora ancorado nos becos, à espera do seu igual “desaparecimento”.

Enquanto escrevo ouço tiros, em mais uma manhã sem creche e me vem duas imagens a cabeça: Racionais MCs e alguém na favela “num quarto de madeira lendo à luz de vela” e do escriba medieval, que só pôde produzir pois havia um soldado/guerreiro que o poupava da arte da guerra. Eu estou protegido pelos tijolos e a argamassa erguidos nos anos 80.

Ontem estive em Petrópolis, a estudo, e voltei disposto a falar mal do museu imperial e sua injusta distribuição de renda, mas deixo para outra hora, pois hoje acordei inspirado para falar de coisas positivas, mas o tiroteio lá fora me desconcentra.

E eu, assim como todos nós que moramos na favela, não sou escriba e muito menos guerreiro, nós, somos trabalhadores civis.

P.s: Nós que moramos nas favelas do Rio de Janeiro somos 2 milhões de pessoas, para um tempo em que palavras não significam nada e números menos ainda.

Giro 2020: evento promove debates para pensar o futuro das cidades 1 29

O Giro 2020, um ciclo de encontros mensais, começa na próxima segunda-feira (10), no Centro do Rio. O evento será oferecido pelas instituições Casa Fluminense e Fundação Ciudadanía Inteligente. Nele serão discutidas estratégias e tendências que possam gerar impacto nas eleições municipais, pautando prioridades comuns às cidades, periferias e favelas no contexto de metrópole fluminense.

O primeiro encontro vai debater o futuro das cidades do Rio de Janeiro a partir do tema da habitação. Quem vai participar do debate é a arquiteta e urbanista Tainá de Paula ( co-presidenta do IAB RJ e coordenadora do Br Cidades Rio). Também estará presente o historiador e ativista político Geraldo Henrique (co-fundador do partido Frente Favela Brasil) para compartilhar as estratégias de movimentos/partidos/coalizações para pautar o debate racial nas eleições de 2020.

A primeira etapa do Giro 2020 está marcada para começar às 18h desta segunda-feira (10) e acontece na Avenida Presidente Vargas, 502, 16º andar, no Centro do Rio. Com entrada gratuita, o evento é aberto à participação da sociedade, de lideranças sociais e pré-candidaturas. Clique aqui e confirme sua presença.

Favela em Pauta lança newsletter: veja como se cadastrar e receber 2 31

Chegou 2020 e nós queremos convidar você para assinar a newsletter do Favela em Pauta, chamada #RedaçãoFavela. Mensalmente você irá receber no seu e-mail um apanhado de conteúdo feito por profissionais favelados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, além das reportagens do Favela em Pauta.

A partir da newsletter, o Favela em Pauta reforça a narrativa que se contrapõe à estabelecida por grandes empresas de mídia, que enxergam favelas e periferias como desertos de informação. Tratando moradores como sub-população, atendendo aos interesses de governos e patrocinadores poderosos. 

O jornalismo de verdade está e é produzido de dentro das favelas, por quem vivencia a notícia e interage com ela no dia-a-dia, não mais por quem simplesmente assiste de fora e resolve contar uma versão adaptada ao gosto de quem paga por ela. 

Os profissionais que produzem diariamente jornalismo, conteúdo multimídia, material técnico e científico de qualidade, mas que por muito tempo foram e ainda são tratados apenas como fonte de informação – geralmente a custo zero – que há algum tempo reivindicam esse local de visibilidade e importância.

O #RedaçãoFavela é fruto de conversas que se iniciaram em 2017, quando o Favela em Pauta organizou um grupo de jornalistas e profissionais de comunicação favelados com a intenção de fortalecer o trabalho de cada um, seja através de formação profissional, ou mesmo para ampliar o alcance que cada um tem individualmente. 

Em articulação com a ABRAJI, os comunicadores periféricos participaram de um curso sobre jornalismo de dados com foco em bases eleitorais, oferecido pela ABRAJI em parceria com a UNISUAM, em Bonsucesso, na zona norte do Rio.

O fortalecimento do diálogo com a ABRAJI possibilitou a participação de 16 estudantes e profissionais de jornalismo no no 14º Congresso de Jornalismo Investigativo da ABRAJI (2019), em São Paulo. A iniciativa contou com apoio de doadores anônimos e da organização Repórteres Sem Fronteiras, responsável pelo custeio do transporte e estadia dos jovens comunicadores que receberam também os ingressos através da própria ABRAJI para acessar o evento.

O caminho que já percorremos é inspirador, mas com o apoio de cada leitor, sabemos que vamos conseguir voar ainda mais alto. Preencha o formulário abaixo para receber um conteúdo com novas perspectivas. Não enviaremos spam.

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