O ato de fotografar corpos encantados no e pelo Carnaval 0 280

O ato de fotografar corpos encantados no e pelo Carnaval

O fotolivro No Fundo do Rio, lançado esse ano, é uma festa de poesias em imagens que mostra a magia do carnaval no subúrbio do Rio de Janeiro.

O Carnaval é a mais tradicional festa popular do Brasil e expressa a liberdade do viver. Lançado em época de Carnaval, em um ano ímpar, em que a festa não pôde ocorrer fisicamente, o fotolivro chega para nos dizer que o evento é resistente e se comemorou na captação de cada corpo subversivo retratado na obra. Editado pela Artisan Raw Books, o fotolivro No Fundo do Rio reúne um trabalho de 5 anos de imersão no Carnaval da avenida Intendente Magalhães, periferia do Rio de Janeiro.

“O Carnaval é perigoso”, afirma o professor e historiador Luiz Antônio Simas que prefaciou o fotolivro e descreve a singularidade da primeira publicação de Mota, que promove um festejo em imagens ao fotografar a resposta que o povo dá a repressão e ao controle cotidiano de seus corpos.

Vivendo no Rio de Janeiro, formado em jornalismo, com uma experiência de mais de 20 anos atuando na área de fotografia e audiovisual, Fabrício Mota já eternizou imagens de personalidades como Davi Kopenawa, Ailton Krenak, Djamila Ribeiro, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Mc Martina e Contardo Calligaris. Para sabermos um pouco mais sobre a “criação e o criador” da obra No Fundo do Rio, o Favela em Pauta conversou com Mota que nos contou um pouco de suas inspirações, como foi sua trajetória e como foi o processo criativo do fotolivro. 

Carnavais No Fundo do Rio

A fotografia ressaltada No Fundo do Rio se mostra como mágica do cotidiano e recorre a outra estética de imagem. Ao trazer corpos em movimento, a ideia de nitidez, estabilização, iluminação, ângulo adequado à chamada regra dos três terços, são aspectos que durante o ato de captação da experiência carnavalesca podem roubar a beleza da vida ali mostrada.

“Se eu for tentar com a câmera congelar esse momento, usar um tempo de exposição rápida para congelar esse momento, fatalmente eu iria perder para aquelas pessoas, para aquele movimento. Eu não ia conseguir, ia ficar um arremedo de movimento. E eu preciso deixar esse movimento acontecer. Na hora em que eu fazia a foto, eu tinha uma vaga ideia do que ia sair no resultado. Só depois quando eu chegava em casa que eu ia saber o que aquele movimento ali se transformou em imagem”, conta o fotógrafo, que ao fugir de técnicas padronizadas precisou também reposicionar o seu corpo de forma diferente no ato de fotografar movimentos.

Longe do glamour do Carnaval televisionado que marca, segundo Simas, a cultura do evento, bem financiada a fim de alimentar o empreendimento turístico, os chamados carnavais de rua nos convocam a um mergulho pelas profundidades do Rio de Janeiro. “Nossa brasilidade fluida de subversão dá o tom do desfile com o ritmo de um rio resistente que corre no fundo daquela cidade”, descreve Mota em seu fotolivro.

Ao apreciar cada imagem temos a impressão de estar em um transe, a experiência parece nos lançar no meio da rua, dançando e tentando acompanhar aquele corpo que foi captado pela lente, um corpo que se liberta no ato de vivenciar o Carnaval e a cidade. O conjunto de poesias visuais, com contrastes, luzes, é um convite para compreender a dinâmica da pluralidade dos carnavais, mas, principalmente, de compreender o Brasil submerso, que samba criatividade ao realizar gambiarras para que o festejo aconteça. São pessoas que viajam por horas até chegar à região, mesmo embaixo de chuva, calor e sem recursos financeiros, a ação carnavalesca ginga saindo das sacolas que carregam os trajes e maquiagens.

“Ao povo do samba, ao samba, à beleza que chega na sacola de feira e, como num feitiço, se encanta e vira esplendor”, dedica o fotógrafo.

Além da sensação de estarmos dançando junto às pessoas fotografadas, a obra traz imagens da preparação coletiva, das vestes sendo ajeitadas para o desfile, dos detalhes dos acessórios, dos passos, da composição do corpo adornado com vários símbolos, do encontro de crianças e idosos, das pessoas em êxtase e cansaço, dos pés descalços e com saltos que não suportaram a alegria, são cheiros, cores, brilhos, batidas que criam sua própria coerência existencial. 

Mas o Carnaval, como mostra o fotolivro, não acontece somente quando o bloco passa, também é feito por quem “apenas” se senta na calçada para ver o movimento. A malandragem da festa política, como afirma o prefácio de Antônio Simas, dá vida às imagens aparentemente estáticas.

Fabrício ainda nos conta que carnavais fora do viés de circulação de capitais, do glamour dos camarotes, dos megablocos da Zona Sul e do Centro, são pouco fotografados. E por ser uma divulgação inédita, de atos únicos, foi preciso usar outras técnicas que ressaltasse a beleza de um carnaval feito pelas pessoas e para elas. “Foi preciso colocar a fotografia cem por cento a serviço daquela beleza”, diz ao lembrar da importância de um exercício fotográfico que respeite o tipo de imagem que cada momento pede.

A rua é o lugar onde a fotografia acontece

Fabrício tinha o sonho de ser biólogo, fez um ano de medicina, observava o crescimento de fungos em suas pesquisas e começou a fotografar esses fungos com uma lente macro que ganhou do pai. Porém, foi no cinema, com o filme Lavoura Arcaica (2001), de direção fotográfica de Walter Carvalho, que o fotógrafo se apaixonou pela arte de fazer imagem e descobriu que seu caminho era outro. 

Transitando entre as possibilidades que a câmera o leva, Mota também atua com o fotojornalismo e o audiovisual. Entre outros projetos, integrou a equipe de filmes como Caminho do Mar (2018), Meu Nome é Daniel (2018) e  You Tubers (2020), além de ensaios fotográficos como o de Indígenas no Rio Grande do Sul

“A fotografia pra mim é poder viver duas vezes. É poder viver coisas que se não fosse a fotografia eu não estaria experienciando”, diz Fabrício Mota.
Foto: Paulo Mauricio Macedo.

É notável, observando a trajetória de Fabrício Mota, o quanto o ato de fotografar é uma captação dos sentimentos, do cotidiano de pessoas que constroem o seu dia a dia nos brasis. Sua produção se volta, especialmente, para a temática dos Direitos Humanos. Além de carnavais, já fotografou movimentos sociais, povos indígenas, ilustrou matérias jornalísticas e realizou retratos que enalteceram o contorno de rostos e histórias que passaram do anonimato para a documentação fotográfica. 

“Sou apaixonado por carnaval, sempre tive familiarmente o hábito de me levarem pro Carnaval. E depois que fui crescendo e me entendo como gente, me descobri apaixonado pelo Carnaval. E gosto desse Carnaval de rua mesmo! Aí essa paixão pelo Carnaval encontra outra paixão que é a rua, que é uma paixão que eu exercito muito na fotografia. Minha fotografia sempre depende da rua pra existir, das coisas que acontecem na rua”, conta Fabrício Mota.

Minha fotografia é uma homenagem à beleza 

Apesar de todas as produções gerarem impactos diferentes e importantes, Mota descreve uma foto muito simbólica que foi captada sem a pretensão de ser publicada. Durante um trabalho, em que fotografava alguns barracões precários das escolas de samba da zona portuária, se deparou com muitas doações recebidas das escolas com maiores condições financeiras. 

E no meio do aparente amontoado de coisas, se tinha uma escultura de Yemanjá que surgia numa postura imponente, simbolizando a resistência do Carnaval, expressando liberdade e protesto perante o descaso dos governantes com a área da cultura. Vale ressaltar que as escolas, sem recursos, precisam transformar o material recebido, ser criativos com o que se tem, para só depois poderem desfilar com aquilo.

Zona Portuária, RJ. 2017.
Foto: Fabrício Mota.

Entre as outras recordações dos desfiles, o fotógrafo também conta sobre um momento trágico. Foi o caso da morte do compositor, cantor, percussionista e ex-bombeiro, Jalmir Talismã, que sofreu um infarto durante o evento, organizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, precisou ser levado às pressas ao hospital na caçamba de um carro, pois não tinha nenhum atendimento médico próximo. 

O Carnaval dos subúrbios por contar com pouca verba, pouca atenção do governo, não tem a atenção de bombeiros ou ambulâncias adequadas para socorrer caso alguém passe mal. Segundo Mota, a precariedade a esses carnavais é imposta por ações políticas que minam a força das pessoas, até porque o governo, nesse período sob gestão de Crivella, realizou vários ataques a essas expressões culturais que são, principalmente, de matriz africana.

Portanto, mesmo sem o financiamento adequado para a promoção de uma festa popular, o Carnaval acontece para além do Sambódromo e sua mega estrutura. Fotografar o que ainda não foi visto, trazer a fotografia para testemunhar a diversidade humana, a força dos corpos que dançam e vivenciam o Carnaval, é adentrar a fundo o festejo que oxigena o querer viver diante de uma sociedade repressiva. 

Não conheço sentença sobre o Carnaval mais precisa do que a do mestre Aldir Blanc: “a fantasia é um troço que o cara tira no carnaval e usa nos outros dias”. Nos dias de esquecimento, a pessoa tira o disfarce de gari, motorista de ônibus, enfermeira, professor, trabalhadora doméstica, manicure, cozinheira, estivador, e deixa aflorar o pierrô triste, o pirata ébrio improvisado, o imperador romano em andrajos, a baiana, o bate-bola, o malandro Zé Pelintra, a porta bandeira, o mestre-sala…”, finaliza Antônio Simas, no prefácio do fotolivro No Fundo do Rio.

No Fundo do Rio tem parceria com o Favela em Pauta e parte dos recursos adquiridos na venda serão doados para o coletivo. O livro está disponível no site da Artisan Books.

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