O fotolivro que mostra o cotidiano nas favelas durante a pandemia 0 144

No mês de agosto a editora Artisan Raw Book em parceria com o jornal El País  e o Favela em Pauta convocou profissionais da fotografia que registram  o cotidiano nas favelas e periferias do Brasil durante a pandemia causada pelo novo coronavírus para um concurso de fotojornalismo. Ao todo foram mais de 130 inscritos de todas as regiões do país, que teve como prêmio o valor de mil reais para o primeiro colocado, com direito a publicação no jornal e também publicações no fotolivro “PERIFERIA”.

O Favela em Pauta conversou com o ganhador do concurso, o fotógrafo Roger Silva, 40 anos, que também é historiador e professor. Ele contou sobre como tem desenvolvido seu trabalho dentro da periferia. “Não é uma tarefa fácil, sabemos da potência criadora que emana nas nossas quebradas, temos talentos soterrados todos os dias seja pela violência e descaso do Estado, ou pelo simples fato de não suportarmos tanta desesperança e falta de oportunidade que é fruto dessa sociedade desigual na qual estamos inseridos.”

Trabalhando como fotógrafo há quatro anos, o profissional falou sobre as dificuldades que enfrenta para viver de seu trabalho pautando a vivência periférica. “Entristeço bastante, mas lá no fundo sei que a culpa não é minha, estamos tentando sempre dar nosso melhor, fazer nosso trabalho, mas, infelizmente a produção cultural periférica não é valorizada. Contudo, continuo produzindo meus trabalhos na periferia porque acredito nos meus irmãos e irmãs, então luto com minha arte fotográfica em grande medida para denunciar o descaso, a falta de humanidade na qual somos submetidos”, desabafa o vencedor do concurso.

Sob a ótica de um homem preto

A série vencedora intitulada de Banzo nasceu a partir da indignação do fotógrafo pela primeira morte de covid-19 de uma empregada doméstica no Rio de Janeiro e do medo de sua mãe ser a próxima vítima, já que ela também é diarista. Composta por autorretratos trazendo as reflexões de Roger enquanto homem negro e periférico, aborda questões sobre a dor da alma, desencadeada pelos preconceitos, traumas e sobre o sentimento de impotência quando pretos  são mortos pelo racismo. 

“Banzo é mais que imagens, é um grito preso na garganta, fruto das angústias que sofremos ao longo da história. Sou historiador, quando entrei na universidade, não sabia o porquê da minha dificuldade de ter e ser. Não entendia as piadas racistas quando criança, não entendia porque meu pai não conseguiu terminar o ensino fundamental e teve que trabalhar desde os nove anos vendendo sonhos, sem poder comer um, porque tinha que voltar com o dinheiro para ajudar sua família a comer, e por aí vai.”, conta Roger Silva. 

A Artisan e a ideia do projeto

A editora Artisan Raw Books é formada por fotojornalistas que durante trabalhos de campo em periferias perceberam como era difícil reportar histórias que a sociedade parecia não estar muito interessada em saber. Com isso eles entenderam que se era difícil para eles, para um fotógrafo que vive na periferia poder contar sua própria história é ainda mais desafiador. Foi a partir dessa reflexão que a Artisan foi criada com o objetivo de valorizar o trabalho de quem não estavam sendo visto.

Logo em seguida, surgiu o convite ao El País para somar e dar essa visibilidade. Viabilizar a produção de um fotolivro para os criadores foi a “cereja do bolo” por saber que são poucos os que vivem na periferia e que podem publicar um material impresso.

“Ao todo foram mais 134 inscritos de todas as partes do Brasil no intervalo de uma semana. Isso foi fantástico. Enviar um trabalho que será julgado requer coragem. E, por isso, todos são vencedores. Ao final ficamos com quatro vencedores que  suas cópias dos livros nos próximos dias. Estamos ansiosos para saber o que acharam”, conta Marcio Pimenta um dos criadores da Artisan.

Apoio do Favela em Pauta

Nós do Favela em Pauta acreditamos no poder das parcerias e o fotolivro “PERIFERIA” é resultado exatamente disso. Uma das essências da favela é o sentido e o sentimento de coletividade de mobilização. A editora Artisan em parceria com o jornal El País Brasil convidou o Favela em Pauta para apoiar esse projeto e foi com muito orgulho e alegria que o nosso “bonde” apoiou esse projeto e ressignificou esse sentimento de coletividade. 

“É muito importante que as pessoas comprem o fotolivro. Esse material e esse momento que estamos vivendo nas favelas é algo histórico e não diferente disso, as favelas responderam de forma histórica nesse momento da covid. Você pode olhar as iniciativas que reagiram aos efeitos do coronavírus nas favelas, inscritas no #MapaCoronaNasPeriferias, por exemplo. São apenas 10 cópias disponíveis. Melhor correr para garantir a sua”, conta Daiene Mendes, co-fundadora do jornal.

O fotolivro “PERIFERIA” pode ser adquirido através deste link.

Perfil e trabalho dos vencedores

Roger Silva é historiador, professor, adesivador e fotógrafo e traz em seus trabalhos questões que apontam as formas do racismo em nossa sociedade.

Fiona Forte é uma fotógrafa e vídeo-artista francesa. Depois de estudar literatura e ciência política, voltou para o jornalismo e para uma organização de eventos culturais, especializada em questões urbanas relativas a expressão de comunidades periféricas. Ela se interessa nas relações dos indivíduos com seus territórios, na tentativa de questionar suas especificidades e suas complexidades, através de um olhar sociológico, documental e contemplativo. 

Larissa Rocha é fotógrafa retratista de espetáculos e começou a registrar o cotidiano na periferia quando viu a oportunidade de articular junto com alguns coletivos e artistas que trabalhavam nessas áreas, além de desenvolver atividades artísticas e culturais. Entende que ter o seu trabalho escolhido traz a questão da representatividade do corpo feminino exercendo essa profissão.

Luca Meola é um fotógrafo italiano que mora no Brasil há seis anos anos. Tem seu trabalho direcionado a marginalização social e também a identidade do outro. Nos últimos anos desenvolveu um trabalho sobre o centro de São Paulo, e desde então tem registrado o cotidiano da maior capital do país, assim como a região conhecida como “cracolândia”. Apresenta trabalhos sobre a luta das aldeias indígenas. 

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