Haiti: Entre pandemia e violência estatal 1 645

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A chegada da covid-19 no Haiti catalisa uma violência histórica que força a população a encontrar formas de sobrevivência ao vírus, à fome e ao Estado.

Em 11 de março de 2020, há quase um ano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou o estado de pandemia. Uma notícia que gerou, infelizmente, muita tristeza em nossos lares, pois além de ser um problema de saúde pública, também impactou nossos hábitos como grupo social e cultural.

Quando a covid-19 começou a se propagar rapidamente em vários países do mundo e algumas mídias internacionais começaram a divulgar a saturação dos sistemas de saúde de alguns dos países mais desenvolvidos, aqui no Haiti, nós estávamos perguntando: como o país mais empobrecido da América vai encarar essa pandemia? Com um sistema de saúde fraco, onde falta “quase tudo”, o país não tem estrutura para encarar uma doença tão contagiosa e, em alguns casos, perigosa. 

Oficialmente, o primeiro caso de Covid-19 no território haitiano foi descoberto no dia 19 de março de 2020. No dia seguinte, todas as escolas fecharam e o governo decretou estado de emergência, com um toque de recolher das 8 da noite às cinco de madrugada incitando às pessoas a ficarem em casa. Oficialmente há cerca de 11. 806 contaminados, 9.177 curados e 246 mortos. Esses números, mesmo que não sejam completamente fiáveis devido à dificuldade geral de coleta de dados, dão a entender que houve uma boa gestão dessa pandemia no país. Será o caso mesmo? Será que esses números são fruto de um confinamento rigoroso no qual a população respeitou as medidas para combater o vírus com pleno apoio do governo?

A quarentena que nunca aconteceu

Depois dos primeiros casos de Covid-19 no Haiti, o governo adotou algumas medidas se baseando no que estava acontecendo no mundo, no entanto, se esquecia das particularidades sociais, econômicas e culturais do povo haitiano. Como pedir que as pessoas fiquem em casa sabendo que uma grande proporção da população não tem renda fixa? A taxa de desemprego é muito alta no Haiti, por tanto, para sobreviver, muitas pessoas ganham diariamente fazendo pequenos negócios informais, quer dizer, elas devem sair todos os dias para buscar o que comer. É mais do que óbvio que para essa classe trabalhadora, sair de casa não é uma opção, mas uma obrigação. Era comum ouvir: nós preferimos morrer do vírus a morrer de fome.

Haiti: entre Pandemia e violência Estatal
Foto: Pierre Michel Jean/AFP

Outro obstáculo a esta quarentena foi a incredulidade dos haitianos. Muitos fatores podem explicar esse comportamento da população. Um deles é a falta de confiança no governo atual, acusado de corrupção e de má gestão dos fundos públicos. Foi pensado que essa pandemia serviria  de pretexto ao governo para receber mais ajuda humanitária e desviar esse dinheiro, como aconteceu durante o terremoto de 2010, com recursos do Petro Caribe e tantas outras vezes na história do Haiti.

Existe um ditado popular no país que diz: eu sou Santo Tomás, eu tenho que ver para acreditar. Antes da Covid-19, em 2010, houve uma epidemia de cólera no Haiti. A experiência do cólera deixou muitos mortos. As campanhas de sensibilização eram mais eficazes porque o povo, vendo as vítimas, se conscientizou rapidamente sobre aquele problema e de como era urgente seguir as regras de higiene para combater a doença. Mas acima de tudo, a população tomou consciência da necessidade de se auto-organizar, pois, desde então, o Sistema de Saúde não conseguia responder de forma adequada.

Nesse sentido, a decisão de não acreditar também é uma resposta, um mecanismo de proteção ante a ausência  do Estado. 

Lavar as mãos e respeitar a distância social: uma façanha para a maioria dos haitianos

O crescimento urbano desordenado das cidades do Haiti resultou no surgimento de várias favelas na capital do país como nas outras cidades. E  nessas favelas, em crioulo haitiano bidonvil mora a grande proporção das pessoas com menos renda. Famílias de 10 pessoas  vivendo em uma casa de dois cômodos, impossível respeitar a distância social, medida imprescindível para conter a propagação do novo coronavírus.

Como na maioria dos países, o coronavírus agravou problemas históricos, e no caso do Haiti foi a falta de acesso à água potável. A grande maioria vive em casas sem água encanada e devem percorrer, às vezes, quilômetros para conseguir um balde de água. Esse problema foi uma das razões principais da propagação do cólera em 2010, pois uma boa parte da população, até então, consumia água dos rios. Os governos não aprenderam com aquela desgraça e o problema, até hoje, não foi solucionado. Nestas condições, se conseguir água para beber é uma façanha, é óbvio que as pessoas têm mais dificuldades para lavar as mãos frequentemente como se deve para se proteger contra o vírus: ou bebem água ou lavam as mãos.

A violência: a quarentena que aconteceu e segue acontecendo

Desde julho de 2018, o país está vivendo uma crise política intensa caracterizada por um fenômeno chamado “peyi lòk” (país trancado, em tradução livre). Com manifestações violentas nas ruas pedindo a renúncia do presidente, estradas bloqueadas e muita repressão policial, as pessoas são obrigadas a ficar dias trancadas em casa sem poder sair. Podemos dizer que vivemos várias quarentenas políticas bem antes da covid-19.

No fim de 2020 e no princípio de 2021, a crise política se intensificou com uma onda de sequestros como nunca havia acontecido na história do país. As pessoas evitam sair por medo de serem sequestradas, não por causa do vírus. A impotência da polícia nacional que não pode frear as ações criminosas de muitos grupos armados que reinam em vários cantos do território haitiano,  a incompetência e a expressiva falta de vontade do governo para combater o clima de insegurança presente no país traduzem a violência estatal da qual o povo haitiano está sofrendo.

Foto: Screen capture/Brasil de Fato

Diante desse fenômeno em que a violência faz com que as pessoas fiquem em casa, nos questionamos sobre a verdadeira gestão da COVID-19. Nós nos perguntamos e vemos a necessidade de aprofundar o impacto do vírus nas populações do Caribe. Qual é o impacto? A covid-19 é mais letal do que nossos governos de Estado?

A medicina tradicional: conhecimento, gestão e alternativa

A influência ou a presença da cultura camponesa é muito forte no imaginário da vida cotidiana haitiana. Os conhecimentos camponeses historicamente tiveram um papel importante no decorrer da historia, criaram formas culturais fortes e sobretudo compartilhadas, graças a eles,  inovamos formas de gestão da terra e formas de vida capazes de sobreviver à escravidão. São símbolos de resistência e emancipação que ocupam um papel central na conformação cultural de seu próprio estado-nação, desde a cerimônia de Bois Caïman em 1791, a resistência contra a ocupação militar norte-americana de 1915, o período da ditadura dos Duvalier (1957-1986), etc.

Estes mesmos conhecimentos foram aplicados para fortalecer o sistema imunológico das pessoas,  o famoso “chá de folhas” é consumido tanto por quem acredita ou não, longe de falar das combinações de folhas medicinais como um remédio, nós falamos disto como uma gestão comunitária das pessoas. O debate da eficácia ou não é o mesmo debate que enfrenta PrevengHo-Vir,  o remédio homeopático para fortalecer as defesas imunitárias em Cuba.

Diante disso, a história de resistência do Haiti e os saberes da comunidade, face à inoperância da gestão do Estado, se tornam as alternativas capazes de nos mantermos vivas e vivos para enfrentar a mais essa pandemia.

Sobre o autor e a autora:

Jean-François Philippe é formado em linguística aplicada na Universidade Estatal do Haiti. É professor de crioulo haitiano, francês e português brasileiro. Apaixonado pelo estudo da história e da função social das línguas.

Claudia I Alavez G, socióloga de formação na  Universidade de La Habana. Integrante do Coletivo Latinoafricano. Atualmente, trabalho no Haiti pesquisando a teoria social haitiana.

Imagem em destaque: Creative Commons.

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