Não seremos pauta, nós pautamos a nossa existência! 0 29

O lugar que se ocupa na história pode fazer toda a diferença no final do filme.

Imagine uma cena clássica do telejornal de meio-dia. A polícia subiu a favela durante mais uma operação para conter o tráfico de drogas na região. A imprensa, protegida pela polícia, por seus coletes e suas câmeras, segue na responsabilidade de compartilhar as informações sobre a operação que adentrou a favela e, do estúdio, um comentarista traz informações relevantes e tenta contextualizar a operação.

Congelamos essa cena e é fácil visualizar a imagem de dois policiais agachados, fuzil apontado para dentro da favela, pessoas andando ao fundo. A cena constrange. A vida acontece na favela. A câmera do jornalista filma tudo isso, por cima do ombro dos policiais.

A favela sempre esteve em pauta, e a posição da câmera, de fora para dentro, limita-se a registrar o olhar de quem entra. Mas quem olha a favela nem sempre enxerga suas complexidades e valores. Pela presença da polícia, ou pela ausência de toda e qualquer outra presença do Estado na favela, a violência institucional é cotidiana. Enquanto muitos acreditavam em uma democracia plena no Brasil, quando a democracia ainda não caminhava em “vertigem”, um amigo acordava às 6 horas com um policial arrombando a porta de sua casa, sem nenhum mandado, sem nenhuma justificativa.

A “versão oficial” da notícia é sempre de que a polícia sobe o morro para “proteger o cidadão”, até que surgem inúmeras comunicações, vídeos e provas que desmontam essa narrativa, evidenciando a corrupção policial, violações de direitos e execuções extrajudiciais. Vídeos que saem de dentro para fora da favela e evidenciam uma realidade que, algumas vezes, contraria a versão do telejornal de meio-dia. Os grandes veículos de comunicação, apesar de conterem diferenças políticas e comerciais, trabalham em equipe, construindo e reproduzindo uma “versão oficial” da notícia – que geralmente contempla a perspectiva de empresários e políticos e criminaliza movimentos sociais, insurgências, o povo e sua condição de pobreza.

As organizações e os projetos sociais em ebulição nas últimas décadas exerceram um papel fundamental na construção das bases de formação para os movimentos de contranarrativas que passaram a surgir. As mídias comunitárias e alternativas que nascem nas favelas buscam fazer uma comunicação que não apenas olha para aquele território, mas também o enxerga em suas complexidades e valores porque conhece suas regras e dinâmicas, e a popularização do acesso à internet ajuda na disseminação desse conteúdo que extrapola o “controle editorial” presente nas redações.

As matérias produzidas por jornalistas que moram nas favelas tomam repercussão quando replicadas, muitas vezes gratuitamente e sem créditos, por um grande jornal ou veículo de mídia hegemônico. Esse ambiente reduziu aqueles que poderiam trazer certa diversidade e perspectiva para a cobertura jornalística desses espaços a meros personagens, fontes de informação.

Construir essa percepção foi fundamental para que, em 2017, eu cocriasse o portal Favela em Pauta, trabalhando com o conceito de “jornalismo profissional” nos temas relacionados às favelas cariocas e trazendo um olhar de dentro delas. De maneira geral, analisamos que os grandes veículos de comunicação controlam a narrativa e direcionam o olhar para a comunicação dos temas, pessoas e territórios favelados, quase sempre pautados pela falta. Além disso, constrói-se uma narrativa da necessidade de “contrapartida” quando pautamos a importância de nossa participação em eventos, debates e congressos, como se fosse demérito ser jornalista e morar na favela.

Ironicamente, buscamos construir estratégias para ultrapassar os desafios impostos por empresas, organizações e pessoas que, muitas vezes, trabalham pela redução da desigualdade social, mas reproduzem opressões estruturalmente impostas, para gerações que desafiam essa estrutura desigual e alcançam acesso aos espaços considerados de poder, intelectualidade e mais. É quase como se precisássemos justificar nossa presença nesses espaços.

Há dois anos, organizei um grupo de WhatsApp que reúne trinta jornalistas e/ou estudantes de Jornalismo de diferentes favelas do Rio de Janeiro, Baixada Fluminense e Belo Horizonte. Assim como eu, eles representam a primeira geração de universitários de suas famílias. A primeira experiência foi organizar um curso de jornalismo de dados com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), com conteúdo criado especificamente para o perfil do grupo. O mesmo curso foi replicado em outras três cidades. O maior desafio foi o tempo. Sem dinheiro e com poucas referências, essa articulação demorou quase um ano para se materializar. Aprendemos que os desafios são muitos e que precisamos encontrar outras fontes de financiamento para sustentabilizar as ações que construímos aqui. Desde então, realizamos diversas atividades de formação para jornalistas favelados com o objetivo de ampliar repertórios e leituras de mundo a partir desse crescimento coletivo.

Nós nos apropriamos das ferramentas disponíveis para conseguir realizar estudos on-line e produção de diferentes conteúdos de maneira participativa e colaborativa – dessa forma, até quem não participa diretamente da produção textual, audiovisual ou estratégica é alcançado pelo processo criativo que fica registrado no chat –, e, assim, fortalecemos nossa incidência em rede. Com nosso próprio celular, construímos todas as etapas de produção de uma reportagem e acreditamos que o conjunto de ferramentas, construídas coletivamente, pode gerar resultados expressivos para a transformação que estamos trabalhando para construir, principalmente por meio da produção do repertório necessário e do entendimento de que nós, jornalistas favelados, podemos produzir conteúdos como os verdadeiros sujeitos da notícia. A própria percepção de nossa vida e trajetória contribui para a transformação social e a redução da desigualdade porque constrói caminhos de possibilidades para outros, como nós, ocuparem os mesmos espaços, e ainda maiores.

O jornalismo brasileiro, que sempre pertenceu às elites, vai precisar aprender a lidar com a geração de pobres que vai contar suas próprias histórias. Não é à toa que a história do Brasil parece ser contada da perspectiva de quem olha de fora, e, apesar de não fazer nenhum sentido, seguimos reproduzindo essas quase parábolas como verdades absolutas. A autora Lilia Moritz Schwarcz, em Sobre o autoritarismo brasileiro, conta o esforço de construir uma história digna para um Brasil que, ainda em formação, carregava tantos dilemas complexos em trajetória.

A própria história do descobrimento e colonização é contada da perspectiva de quem, do barco, anuncia “Terra à vista”, e nunca da perspectiva de quem vivia no paraíso e teve sua cultura, território e dinâmicas de sobrevivência destruídos e corrompidos. A história da escravidão é contada a partir da construção de uma heroína branca, a princesa salvadora e rica que, com benevolência e superioridade, assina um papel que liberta os cativos. As histórias de resistência e luta de nossos ancestrais escravizados e indígenas são colocadas no lugar da rebeldia, da loucura, dos fujões, ou nem sequer são contadas.

Um país que carrega em sua história o peso de reduzir a humanidade, tratando como propriedade seres humanos de pele preta, descendentes de reis e rainhas, é o mesmo que transforma em “sujeitos matáveis” aqueles que têm a condição de pobreza imposta pela desigualdade social e pelo racismo estrutural.

Que mais pobres e pretos narrem suas próprias histórias. Não seremos pauta, nós pautamos a nossa existência! Favela em Pauta.

Imagem destaque: Vitor Ribeiro/Witness Brasil.

Enem e Periferia: as dificuldades de avançar nos estudos durante a pandemia do novo coronavírus 0 65

*Reportagem colaborativa de Rick Trindade e Mariana Assis

Para muitos jovens periféricos ou de favela, ingressar em uma universidade é uma chance de ocupar novos lugares, mas para alguns ainda é visto como um lugar difícil de ser alcançado. A maioria desses jovens vem de uma realidade na qual a educação de qualidade nem sempre se faz presente, e depois de enfrentarem dificuldades no Ensino Médio, ou até mesmo aqueles que estão longe de uma sala de aula há muito tempo, enxergam nos cursinhos pré-vestibulares comunitários um caminho para a realização de seus sonhos. E em tempo de quarentena, alguns planos precisaram ser alterados ou adiados.  

Em 31 de dezembro de 2019, foi identificado em Wuhan, na China, o primeiro caso de infestação pelo novo coronavírus. O vírus começou a se disseminar pelo mundo em escalada, atingindo países do continente asiático e europeu. A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a doença, em março deste ano, como pandemia. A primeira morte no país ocorreu no mesmo mês, em São Paulo. Desde então, o número de casos e mortes só vem aumentando.

Um levantamento feito pelo G1 junto às secretarias municipais e estaduais de saúde, afirma que nesta  segunda (1º), já foram registradas quase 30 mil mortes e mais de meio milhão de casos confirmados. O Brasil já é o segundo maior país do mundo em número de casos da doença, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, que registra nesta segunda (1º), 1.787.680 casos e 104.396 mortes, de acordo com a atualização de hoje do CDC (Centro para o Controle e Prevenção de Doenças americano). 

Assim que o calendário do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2020 foi divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) em março, e já enfrentando os desafios impostos pela Covid-19, entidades da sociedade civil começaram a se articular pedindo o adiamento das datas apresentadas (prova impressa nos dias 1º e 8 de novembro; digital, 11 e 18 de outubro). 

Organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), dezenas de mobilizações contra à data ganharam protagonismo nas redes sociais, alcançando grande expressão no dia 15 de maio quando houve um tuitaço. Além disso, os grupos entraram com ações na justiça e fizeram um abaixo assinado, que já contabiliza mais de 350 mil assinaturas, o  Adia Enem

Uma das principais argumentações era de que a manutenção da prova indicaria um desrespeito por parte do Ministério da Educação, visto que nem todos os alunos teriam condições de continuar os estudos. Dados do infográfico Desigualdade feito pela Casa Fluminense apontam que, dos 5,5 milhões de candidatos que realizaram o Enem em 2018, menos da metade tinha computador em casa. Quando esta parcela é recortada aos candidatos de escolas públicas e sem computador, a diferença atinge quase 90%.  Segundo dados levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca mais de 45 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à internet. 

Os pré-vestibulares comunitários em tempos de pandemia

Logo quando o isolamento social foi implantado, a direção do cursinho popular da Rede Emancipa, em Belém, no Pará, Estado que, segundo a Secretaria Municipal de Saúde do Pará, já somatiza mais de 40 mil casos do novo coronavírus, e 3 mil mortes, suspendeu as atividades presenciais e adotou, após pesquisa interna, aulas via WhatsApp. O aplicativo de mensagens foi a plataforma indicada como a que possivelmente melhor atenderia aos alunos. 

Para Hamilton Nogueira, 33, professor do cursinho esse novo método tem sido uma experiência nova para a maioria dos professores, poucos já haviam dado aula dessa forma. A “novidade” causou impacto, e por questão de hábito, até agora ele não se adaptou com o modelo de ensino online. “A maioria dos professores estão acostumados com aquele vínculo mais próximo, aquele vínculo afetivo, então quando você muda isso drasticamente, principalmente pra quem não tem essa experiência, pela distância, você sente sim um estranhamento”, diz ele. 

Os alunos também sentiram o impacto negativo das aulas via WhatsApp, a maioria ainda não conseguiu se adaptar. “O nosso público vem de uma realidade social às vezes com muitos problemas familiares. É muito difícil a concentração, sem falar na questão do material, então nós temos que sempre estar pensando estratégias todos os dias pra poder motivá-los”, afirma o professor, que dá aulas de Literatura e Redação.

Clarissa Andrade, 26, é aluna do cursinho, ela destaca que nesta nova realidade, não ter essa relação próxima acentua os desafios na preparação para o vestibular. Agora, estudando em casa, precisa ter disciplina redobrada e lidar com as eventuais interrupções, já que divide a casa em que mora com outras nove pessoas. Mas as dificuldades não se encerram aí. 

A renda principal de sua família provém de trabalhos informais alterados neste contexto pandêmico. De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do primeiro trimestre deste ano, o desemprego atingiu 12,8 milhões de pessoas, cerca de 900 mil a mais se comparada ao mesmo período do ano passado. O auxílio emergencial  no valor de R$ 600 ajuda, mas não deixa de provocar receios quanto ao futuro. Clarissa comenta que o emocional é inevitavelmente abalado, o que dificulta a rotina de estudos. 

Assim como boa parte de seus colegas de classe, Clarissa já terminou o Ensino Médio há mais de dez anos e sente que as trocas que a sala de aula proporcionam não só enriquecem como também dão força para continuar. Antes da pandemia, a sala de Clarissa tinha 108 alunos;  depois que as aulas foram para o WhatsApp, pouco mais de seis interagem frequentemente no grupo. “Nós tivemos uma evasão muito grande justamente por nem todos nós termos acesso à internet. Então, isso dificultou muito”, conta ela que deseja cursar Medicina.

Enquanto o Emancipa, em Belém, decidiu continuar suas atividades, isso não foi possível para o Vila Isabel Vestibulares (VIVE), localizado no Morro dos Macacos, Zona Norte do Rio de Janeiro. O projeto funciona há mais de 20 anos e o valor arrecadado, a partir de mensalidades simbólicas, é revertido em compra de materiais aos alunos e para as atividades extraclasse, como passeios culturais e visitas à universidades.  

Amanda de Oliveira, 25, professora de Biologia, afirma que desde quando foi estabelecida a quarentena, as aulas tiveram que ser interrompidas. Houve um questionamento por parte de alguns alunos se as aulas continuariam de forma online. Discutido em reunião e levado para professores e alunos, eles chegaram a conclusão de que, de forma geral, os alunos não conseguiriam acompanhar as aulas online, já que nem todos possuem computador em casa ou uma internet de qualidade para baixar vídeos ou assistir aulas ao vivo.

“O que a gente  faz hoje, é tentar prestar de alguma forma uma assistência, então a gente tá aberto a comunicação com eles, de vez em quando um aluno ou outro aluno diz no grupo que está com dúvida em alguma coisa ai o professor vai lá, ajuda e explica, às vezes eles pedem alguns materiais, a gente envia, tudo a partir das demandas deles”, explicou Amanda. 

30 ou 60 dias, é o ideal? 

Para a professora Amanda, o ensino à distância só é possível desde que os alunos tenham os dispositivos necessários para acessar o conteúdo. Com a pandemia, tudo fica ainda mais difícil, afetando a saúde mental e física de quem não terá a oportunidade de manter os estudos. ”Pensar em que esses alunos deveriam estar estudando é descontextualizar a realidade deles , a realidade física, a realidade de onde moram, a realidade política”, pontua.

De acordo com Iago Montalvão, Presidente UNE, o não adiamento das provas poderia representar um impedimento aos alunos de baixa renda e a juventude favelada, preta, indígena e quilombola de acessarem esse espaço. ”Com o Enem mantido na data e sem as aulas, esses estudantes não têm as mesmas condições de estudar em casa, então estaria promovendo uma elitização do acesso à universidade”, complementa. 

Após forte pressão, o Senado Federal aprovou, no dia 19 de maio, o projeto de lei   1.277/2020 que prevê “a prorrogação automática de prazos para provas, exames e demais atividade para acesso ao ensino superior em caso de reconhecimento de estado de calamidade pelo Congresso Nacional ou de comprometimento do regular funcionamento das instituições de ensino do país”. A PL segue para votação na Câmara dos Deputados. Entretanto, no dia seguinte, O INEP divulgou nota em que anuncia que o Enem será adiado entre 30 a 60 dias, a ser decidido por meio de enquete no Página do Participante, em junho. 

Professores e alunos dos pré-vestibulares aqui citados viram o adiamento como uma conquista, mas julgam que 30 ou 60 dias ainda não é um cenário ideal, se a realidade em que vivem for levada em conta. Acreditam que a vitória no Senado tenha sido importante, mas que a pauta pelo um adiamento mais extenso continua. O preparo virtual não contempla todos os estudantes que vão prestar o Enem e, por isso, é necessário uma data que leve as diferenças de acesso em conta.

Para Brenda Barcellos, 22, moradora do morro da Serrinha e estudante do VIVE, o Enem não é uma prova que distribui conhecimento por igualdade. A jovem teme que o adiamento da data não seja suficiente. “Mostra uma clara materialização que há na educação no Brasil, porque os conhecimentos que são cobrados nas provas não são distribuídos de maneira igualitária no Ensino Médio público”, destaca Brenda que não teve aulas de química, física e geografia na escola.

Brenda, no entanto, é otimista. Conta que é preciso olhar para a história e se encorajar a partir da luta dos ancestrais. “Isso vai passar, nós vamos conseguir acessar esses espaços seja em 2021 ou 2022, porque toda a nossa história é pautada em resistência, em sangue. Em 400 anos de escravidão não seria fácil de reverter isso agora, não desistimos até agora, então não vai ser esse governo que vai fazer a gente desistir”. 

Questionamos os motivos pelos quais o INEP adiou as datas das provas e inscrições, por que essas datas não acompanham o calendário escolar e se tem havido conversas com organizações estudantis. Como resposta, o INEP limitou-se a dizer:  “As informações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 estão sendo divulgadas no portal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).”

O que você precisa saber sobre o ato #VidasNegrasImportam 2 28

O ato #VidasNegrasImportam, organizado pelo Movimento de Favelas do Rio de Janeiro, realizado no domingo (31/5) não é só mais uma manifestação. É o estopim para que as favelas não sejam mais alvos de operações policiais sem fundamento.

Os dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública traz preocupações que são antigas para quem nasceu e vive nas favelas do Rio de Janeiro. Em abril de 2020, a polícia matou 43% a mais do que em abril do ano passado, de acordo com análise feita pelo Observatório da Segurança.

No município de São Gonçalo, região onde o menino João Pedro, de 14 anos, foi assassinado durante uma operação conjunta da Polícia Federal e Civil, concentra 48,13% das mortes.

Já na área do 41°BPM, responsável por 15 bairros na zona norte do Rio, e onde o jovem Iago Cesar, de 21 anos, foi morto um dia antes de João Pedro, foi responsável por 58% das mortes ocorridas na área do batalhão.

Manifestantes seguram cartazes com frases sobre a realidade nas favelas. Fotos: Rithyele Dantas

Além de se preocuparem com possíveis invasões de policiais em suas casas, os moradores também precisam ficar atentos pelo que vem pelo ar. Segundo o laboratório de dados sobre violência armada no Rio de Janeiro e Recife, Fogo Cruzado, somente em 2019, houve 23 operações policiais com helicópteros sendo usados como plataformas de tiros. Ao todo, 37 pessoas foram baleadas nessas situações: destas, 27 morreram.

A manifestação é em protesto pelas pessoas assassinadas só neste período de pandemia da Covid-19. No estado do Rio de Janeiro, a polícia matou 606 pessoas em 4 meses deste ano, sendo 290 em março e abril, durante o isolamento social ordenado pelo poder público. 43% a mais do que no mesmo período do ano passado. Além disso, no dia 30 de maio, mais um jovem, Matheus Oliveira, de 23 anos, foi assassinado pela polícia nos acessos ao Morro do Borel, na zona norte do Rio.

Segundo um amigo de Matheus, eles estavam em uma moto voltando pra casa quando foram abordados por policiais que estavam na rua e se assustaram, atirando contra os dois. Matheus foi atingido na cabeça e faleceu no local. Ele trabalhava como barbeiro, motorista de aplicativo e era mototaxista. Não tinha operação policial na hora dos disparos.

Morrer por Covid-19 ou tiro de fuzil

Segundo os organizadores do ato, nem mesmo na maior crise sanitária do novo século que diversos países estão sofrendo com o novo coronavírus, as polícias do Rio deixaram de matar a juventude negra e pobre das favelas e periferias. As recomendações em todo o mundo é resguardar as vidas, mas a regra não serve para governos que já têm em suas estruturas práticas racistas e genocidas.

Na última semana, um caso que ocorreu nos EUA ganhou repercussão internacional. “Eu não consigo respirar!” foram as últimas palavras que George Floyd teve forças para dizer, enquanto um policial branco pisava sob o seu pescoço contra o asfalto. O episódio, que os negros de todo o mundo conhecem, ocorreu durante uma abordagem policial no Estado de Minnesota, nos Estados Unidos. Imagens dessa triste cena viralizaram nas redes sociais e despertaram ondas de protestos em diversas regiões do mundo.

“Aqui no Brasil, a população negra vive sob o jugo do braço armado do Estado, que age de forma genocida, atuando com uma política de morte contra os negros e favelados. No Rio, essa política fica bem explícita quando vemos o Estado entrando com o seu poderio bélico nas favelas, e não com serviços e direitos básicos”, explicam os organizadores do ato em uma carta.

Exemplo disso são as ações de solidariedade aos mais vulneráveis durante a pandemia do coronavírus, que foram frequentemente interrompidas por operações policiais. O Estado não entrou com alimentos e sim, com a morte, deixando corpos no chão.

#VidasNegrasImportam surgiu porque é necessário dar um basta a essa política que tira vidas. A principal exigência é o fim das operações policiais nas favelas para que possam freiar o genocídio negro e o fim da militarização da vida.

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