P1020949 Comentários desativados em P1020949 2

O dia dos namorados de casais pretos durante a pandemia de Covid-19 0 15

Para uns, uma data comercial para aumentar as vendas de produtos e serviços. Para outros, uma oportunidade de celebrar o amor. A verdade é que boa parte dos casais aproveitam o dia dos namorados, 12 de junho, para comemorar seus relacionamentos. 

Jantar romântico em algum restaurante, aquele presente que o parceiro ou a parceira tanto sonha, ou uma viagem no final de semana. Todos esses são presentes comuns nessa data, mas, a pandemia do novo coronavírus veio de forma inesperada nos colocando em quarentena. Dessa forma, todos (ou quase todos) os planos para o dia dos namorados tiveram que ser reformulados. 

A solidão é uma realidade cruel na vida de muitos pretos e muitas pretas. Mas há também quem encontre o amor e viva uma relação mono racial( relação de dois indivíduos da mesma raça/etnia). 

Mas como será que esses casais pretos vão passar o dia 12 de junho?

O estudante de jornalismo, Renato Rodrigues (27), conheceu sua namorada, Bruna Sousa (22), estudante de design de moda, em uma rede social. Bruna conta que eles estavam assistindo uma transmissão ao vivo de um evento que deveria acontecer presencialmente, mas que devido a pandemia de Covid-19 não foi possível.  “Ele me viu nessa live e logo me seguiu, reagiu a um story que postei e eu respondi de volta. A conversa acabou se desenrolando e desde então nunca mais paramos de conversar”, completa ela. 

O relacionamento dos dois acabou de completar um mês, ou seja, começou enquanto já estávamos em quarentena. Eles confessam que durante esse tempo só se viram pessoalmente uma única vez, e tem sido um tanto quanto difícil manter uma relação que está no começo, apenas por meio virtual. “Olha, é chato no sentido que você quer estar ali com a pessoa, cheirando, conversando, brincando, fazendo coisas juntos”, explica Renato. 

Paciência, atenção e amor são as fórmulas que eles dizem usar para reinventar a relação, já que a vontade de estar juntos fisicamente é grande, mas diante do momento que vivemos, isso não é possível. “Todo dia nos falamos, conversamos de tudo, desde sobre o dia, memes e fofocas. Tentamos manter uma rotina de falar por ligação pelo menos duas a três vezes na semana, pra matar a saudade de ouvir a voz e ver o rostinho um do outro”, confessa Bruna. 

A engenheira metalúrgica, Krishna Alcântara (23), namora o produtor cultural, Rafael Oliveira (23). Os dois se conheceram em um bar, trocaram olhares e depois engataram numa conversa, que acabou não se prolongando por muito tempo. Mas, voltaram a se falar nos dias seguintes e tudo fluiu até que começaram a namorar.

“Acho que não teve um dia que não conversássemos sobre alguma coisa. E sempre foi muito interessante, falávamos sempre sobre assuntos diversos. A partir daí marcamos alguns encontros e fomos ficando cada vez mais juntos. Começamos a namorar em dezembro, pouco mais de um mês depois que nos conhecemos. Mas foi tão natural e acolhedor que não me assustou”, conta a engenheira. 

A pandemia só apresentava duas alternativas para eles: ou ficariam totalmente distantes um do outro, respeitando a quarentena, ou ficariam juntos. E em conjunto decidiram que dividir o mesmo lar seria a melhor escolha.

“Desde o início do nosso namoro tínhamos uma rotina onde ele passava alguns dias na minha casa (eu moro longe do trabalho/casa dele), depois voltava pra casa dele, enfim, essa rotina meio incerta. A quarentena não é um momento fácil, já não podemos estar junto das nossas famílias/amigos, e daí pensamos que ficar longe um do outro seria tão massificante também. Decidimos que ele ficaria comigo durante tudo isso, e também seria um “test-drive” pra uma vida juntos no pós- pandemia”, disse Krishna Alcântara.

Rafael confessa que viver 24h juntos todos os dias da semana não é fácil, independente do tipo de relação. Mas ele e Krishna criaram uma regra de resolver tudo na cama antes de dormir. “Não tem um dia que durmamos brigados. Acho que isso é a mais importante lição que aprendemos na quarentena”, completa. 

A publicitária Ágatha Ferreira (27) e Shirley (por questões profissionais prefere não revelar outras informações) se conheceram, em 2019, na casa de uma amiga em comum. O primeiro beijo aconteceu num samba, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. “De lá para cá não nos desgrudamos mais. Acho que nossa relação começou aí. As coisas foram ficando mais intensas com o tempo e nós cada vez mais próximas”, confessa a publicitária.

Shirley trabalha com grupos em vulnerabilidade, e está exposta ao vírus com frequência, afirma Ágatha. E por esse motivo elas estão há quase dois meses sem se ver. Somente em necessidades extremas (compra de remédios etc) elas tentam marcar algum compromisso próximo uma da outra. “O difícil é que é sem nenhum contato mesmo, só temos a fala, os olhares e muita chamada de vídeo durante todo esse tempo. Essa distância tem sido cruel, mas estamos sendo o mais responsável que é possível; por nós e pelos outros.” completa. 

Planos para o Dia dos Namorados?

Bruna Sousa e Renato Rodrigues planejam comemorar o dia com uma chamada de vídeo e “se amar virtualmente”. Também pretendem um encontro pessoal (mesmo não sendo o recomendado, fica o alerta), no final de semana. A intenção é assistir algumas séries e cozinhar juntos. Bruna fará uma surpresa pro namorado, e entregará uma ilustração deles, feita por ela.

Rafael e Krishna se conheceram em um bar e começaram a namorar no ano passado

O casal Rafael e Krishna, contam que já trocaram presentes antecipadamente, “ela não aguenta esperar”, entrega Rafael. Eles estão trabalhando muito durante a quarentena, e confessam que ter um momento só dos dois tem sido um pouco difícil. “Então decidimos que teremos um dia off de tudo. Vamos preparar uma janta e ver filmes.” Comenta Krishna.

Já Ágatha e Shirley também ficarão juntas através de uma chamada de vídeo. Assistirão juntas há uma transmissão ao vivo do cantor Nando Reis e da dupla AnaVitoria. “E eu vou ler para ela alguns textinhos que fiz e alguns trechos dos dois livros da autora Ryanne Leão “Tudo Nela Brilha e Queima” e “Jamais Peço Desculpas Por Me Derramar”.” 

Para os três casais, o pós pandemia vai ser o momento de estarem mais juntos. Um mês agarradinhos ou uma viagem, é o que eles querem. 

Com direito a tanque de guerra, manifestantes lotam Centro do Rio em ato antirracista 0 17

*Informações dos correspondentes Rick Trindade e Mariana Assis


Pelo segundo domingo consecutivo, o ato antirracista #VidasNegrasImportam mobilizou as redes sociais e expressou pelas ruas do país inteiro o que a comunidade preta e favelada vem gritando há bastante tempo: #ParemdenosMatar e  #VidasFaveladasImportam. 

A principal motivação para a Marcha Antirracista é se contrapor à vulnerabilidade social que os negros, pobres, favelados e periféricos são submetidos pelo Estado. O lema do movimento é “Saímos às ruas porque não queremos morrer nem de fome, nem de tiro nem de covid. Nós queremos viver”. 

No Rio de Janeiro, os manifestantes lembraram os assassinatos de Cláudia Ferreira, arrastada pela Polícia Militar em 2014,  do adolescente João Pedro,  assassinado há duas semanas dentro de casa, da vereadora Marielle Franco, cujo assassinato aconteceu em 2018 e continua sem explicações sobre quem mandou matá-la e porquê. 

Na última sexta feira (05), o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), proibiu em decisão liminar a realização de operações policiais em favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia do coronavírus. Segundo o documento, só poderia haver em “casos excepcionais”, que não foram explicitados, e previamente justificados. As operações, ainda, deveriam ter “cuidados especiais” para que a vida da população não fosse colocada em risco. Mas já na noite de sábado (06), segundo informações do jornal Voz das Comunidades, policiais militares fizeram uma incursão na localidade da Grota, no Complexo do Alemão, e teve troca de tiros.

Polícia do Exército com apoio de tanque de guerra fazem a proteção do Palácio Duque de Caxias, na Central do Brasil.
Foto: Vito Ribeiro

Os manifestantes também ecoaram gritos pedindo o fim da Polícia Militar. Como reportado na última semana pelo Favela em Pauta, a polícia do Rio de Janeiro matou  606 pessoas em 4 meses neste ano e, mesmo quando o isolamento social estava em vigor dada a pandemia de Covid-19, entre março e abril 290 foram executadas. 

Mais cedo, a Polícia Militar publicou um tweet dizendo para que as pessoas não levassem álcool líquido para nenhuma manifestação. Os frascos de álcool gel foram limitados em 50 ml, entretanto, não existe nenhum decreto que restringe a quantidade de álcool gel que cada cidadão pode transportar com si. As autoridades saúde indicam que o álcool gel é importante na prevenção da Covid-19. A PMERJ não respondeu esse questionamento na reportagem.

Foi grande o número de policiais nas ruas da capital carioca acompanhando os manifestantes. De acordo com a Polícia Militar, o reforço efetivo contou com o Batalhão de Choque, Cães e de Rondas Especiais e Controle de Multidões. A PM também não respondeu quantos policiais estavam no ato. Em uma rede social, o educador popular Jota Marques disse que:  “Revista atravessando nosso ato. Carros de choque escoltando, policiais em cordão de isolamento. Tensos, seguimos. Nenhum passo atrás!” .

Atos pelo país

Em Brasília, o ato aconteceu a partir das 9h da manhã deste domingo (7). Para o comunicador Mateus Santana, apesar de muito organizado, as pautas raciais sofreram certo abafamento por parte da maioria ali presente, ainda que houvesse muitos negros. 

Já em Salvador, o ato deu início às 14h30, fixado em frente ao shopping mais antigo da cidade. Sandra Andrade, fotógrafa e ativista, esteve presente no ato e disse que a manifestação foi completamente pacífica, e consideravelmente pequena. Assim como no Rio, o efetivo de policiais em Salvador e em Belém foi grande. 

Na capital Paraense, o ato ocorreu pela manhã, no mercado São Brás. Em respeito às medidas sanitárias, decidiu-se que seria um ato “parado”. A Pedagoga Elizabeth Brito conta que o número de policiais foi além do normal. “Em relação ao policiamento, eles fizeram barreiras em todas as encruzilhadas.  Além de muitas viaturas, tinha ônibus, camburão e até mesmo helicóptero do estado fazendo ronda. Eles não estavam permitindo nenhum grupo, mandava sempre dispersar e com isso muita gente acabou passando direto ou ficando em algum canto escondido”, afirmou.

Durante a manifestação quase 100 pessoas foram detidas, dentre elas 18 adolescentes. “Até mesmo quem estava passando na hora foi colocado no ônibus e levado para uma seccional (distante de onde estávamos). Segundo informações, ao chegarem lá, os jornalistas foram proibidos de registrar, alguns postaram que os detidos ficaram por muitas horas sem água e comida dentro do ônibus quente”, completa Elizabeth. Mas, segundo a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) todas as 97 pessoas que foram detidas hoje pela manhã e que estavam na delegacia de Polícia no bairro da Cremação, em Belém do Pará, já foram liberadas.

Na capital cearense, o ato aconteceu na Praça Portugal, na zona sul da cidade. De acordo com Yargo Gurjão, jornalista que estava presente no ato, a polícia estava no local antes da manifestação começar e agiu de maneira agressiva, prendendo alguns manifestantes que só foram liberados após a negociação de uma advogada, que recebeu como contraproposta o fim da manifestação. 

Em Manaus, o ato teve concentração às 15h30, na Zona Leste da cidade, que de acordo com a historiadora Kevellyn Jéssica ,é uma das zonas que mais possuem repressão policial. O cantor Gabriel Aruack presenciou algumas ações da polícia e afirma: “Nenhuma pessoa foi detida, a polícia não chegou a ser truculenta mas reprimiu bastante em momentos em que tentou tomar a frente do ato. Antes de iniciar o ato já havia relatos de que grandes números de viaturas estavam chegando pelo local.”  

O produtor cultural Negro Lamar, ressalta a importância do ato ter acontecido numa região onde o povo preto e indígena está presente em sua maioria. “As palavras de ordem transmitiram os apontamentos do ato que era sobre a violência policial, os assassinatos que ocorrem nas periferias e não vão para a mídia”,  destaca. O ato na capital Amazonense foi organizado com a união de coletivos negros e indígenas. 

O Favela em Pauta pediu esclarecimento à Polícia Militar do Pará referente às prisões do ato de hoje, e até a publicação desta matéria não teve retorno. 

Assine a nossa newsletter