O que a página “Suburbano da Depressão” têm a nos ensinar sobre higienismo 0 42

Em Agosto de 2017 completou 5 anos desde a primeira postagem da página “Suburbano da Depressão”, no Facebook. 270 mil curtidas depois, desde a primeira tentativa de humor ácido e debochado, me fizeram questionar ainda mais os motivos históricos de uma cidade partida. Como historiador e escritor, nascido no subúrbio da Leopoldina, Zona Norte da cidade, e hoje morador de Santa Cruz, na Zona Oeste, percebi as divergências neste deslocamento de um extremo a outro. Um Rio de Janeiro de prioridades diversas me foi apresentado na necessidade de deslocamento entre os principais pontos de poder, cultura e economia.

No artigo de conclusão de curso é intitulado “Pobres digos: famílias populares versus Higienismo no Rio de Janeiro da Velha República (1889-1906)”, analiso como as transformações do espaço urbano não se limitaram somente ao “bota à abaixo” de Pereira Passos, mas buscou, também, remodelar as relações sociais nesta nova cidade que emergia após o golpe de Estado que proclamou a República no Brasil.

O que, então, conecta uma página de humor aos estudos das transformações sociais e espaciais de uma cidade como o Rio?

Em 1889 o Rio passou ao status de Distrito Federal, quando foi proclamada a República. A cidade sofria uma crise habitacional com o declínio do café no Vale do Paraíba. Toda mão de obra, então, se descola para a capital, que a partir de 1870 não comporta o fluxo de migrantes e imigrantes: entra em ação um plano sanitarista o qual buscava dar cabo dos males à saúde da população – a bem da verdade, principalmente da parcela mais privilegiada. Era o “higienismo”, movimento sanitário importado da França que buscava padronizar a moradia das classes populares.

O objetivo era proporcionar uma disciplina de corpos, já que esse boom habitacional favorecia o crescimento irregular de hospedarias e cortiços, locais combatidos a ferro e fogo pelas autoridades públicas, tidas como antros de perdição e degeneração das classes populares. Maior exemplo dessa guerra foi a demolição do cortiço “Cabeça de Porco”, na Rua Barão de São Félix, em 1893, a mando do então prefeito Barata Ribeiro. Aos moradores foi permitido vasculhar os escombros para que fizessem de suas sobras os primeiros barracos próximos à Central.

Mapa do Centro do Rio, em 1910. (Disponível em http://imaginerio.org/)

O debate sempre foi o mesmo, desde o século XIX: a falta de políticas públicas direcionadas às classes mais pobres da sociedade carioca. A Revolta da Vacina, em 1904, foi o resultado das arbitrariedades das autoridades municipais. Pereira Passos, prefeito de 1902 a 1906, entrou para a História como aquele que colocou abaixo uma velha cidade para dar um perfil moderno ao Rio. O maior símbolo desta política é a Avenida Central – hoje Avenida Rio Branco –, suas vitrines e seus imóveis de arquiteturas luxuosas, passarela para a classe burguesa que emergia naquelas últimas décadas do século XIX e na primeira do século XX.

O higienismo não se limitou em manter a limpeza dos corpos e do espaço público: foi, também, a limpeza do todo social pelos olhares das elites. A pobreza foi tratada como problema de saúde e ganhou até níveis de aceitação: os “pobres dignos” eram aqueles que conseguiam manter suas famílias unidas, seguindo os padrões pretendidos, mas, ainda assim, suscetíveis aos vícios das ruas; os “vadios” e “vagabundos” eram os males a serem combatidos. As famílias extensas foram alvejadas pelos requerimentos e só eram aceitos os modelos de família nuclear (pai, mãe e filhos). Os movimentos das classes operárias eram vigiados de perto pelo poder público e iniciativas privadas, e menção de revolta era contida com brutalidade. Aqueles que não se encaixavam nos padrões burgueses eram marginalizados.

 

Apesar dos investimentos do poder público, sabemos que não funcionou como planejado. Os subúrbios e favelas surgiram daí como reduto dos indesejáveis nos locais que eram modelados para receberem as novas elites brasileiras. Fruto de uma resistência ativa e culturalmente rica, estes espaços guardam o que o carioca guardou de melhor deste legado de improvisos: a solidariedade. As vizinhanças tornam-se parte de uma grande família. Este senso de solidariedade distancia, até hoje, a população pobre das autoridades municipais, cujo objetivo eleitoral que surge de 4 em 4 anos espalha promessas como moeda de compra de votos.

Cinco anos após a primeira postagem na página continuo afirmando que o carioca suburbano e favelado precisa conhecer sua história. As redes sociais proporcionaram voz àqueles que sempre foram postos à margem dos interesses da grande mídia e do poder público. Mostramos que aqui há, sim, produção política, social, cultural e econômica baseada em muita solidariedade e em uma grande rede de vivências. Declinamos a cada dia as grandes narrativas que teimam em mostrar nosso lugar apenas como áreas perigosas e sem nada a oferecer.

Temos tudo isso e mais um pouco. Somos a alma do Rio.

Em três meses, mídia impressa do Rio publicou 80 capas negativas sobre favelas 5 100

Colagem de jornais impressos lidos na análise

Ninguém compra mais jornal impresso porque só tem notícia ruim. Essa declaração assertiva faz sentido se levarmos em consideração sobre como os jornais impressos abordam as favelas do Rio de Janeiro em suas capas.

Nos meses de março, abril e maio de 2019, fiz uma análise da cobertura jornalística das redações cariocas sobre as favelas para verificar se falam positivamente ou negativamente sobre as favelas do Rio. Eu, como profissional da comunicação, sempre busco ter cuidado ao publicar informações. Quem vai ler? Quem vai ser atingido? O que pode acontecer com as pessoas abordadas na notícia? Isso é interesse público ou interesse do público? 

92 dias após ler – cuidadosamente – os jornais impressos O Dia, Extra, O Globo e Meia Hora constatei que quem vê capa não vê coração. As favelas e seus moradores são retratados de forma sensacionalista por esses jornais e produtos televisivos há décadas. 

Os profissionais da imprensa nas redações cultivaram uma passividade de não questionar o que dizem as notas oficiais, deixando de lado as testemunhas. O editor, baseado em sua subjetividade, determina o que entra ou não na reportagem. E assim, em pleno ano 2019, ainda se veem manchetes taxando moradores de favelas como suspeitos ou criminosos, mesmo que inocentes, e jovens da Zona Sul como universitários, mesmo que culpados.

Uma pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), feita em 2007, com repórteres e editores dos principais veículos de comunicação no país mostra que não mudou muita coisa até hoje. “A maioria dos profissionais ouvidos reconhece que os seus veículos têm grande responsabilidade na caracterização dos territórios populares como espaços exclusivos da violência. Ao mesmo tempo, admite que a população dessas comunidades raramente conta com a cobertura de assuntos não relacionados ao tráfico de drogas e à criminalidade”, aponta a pesquisa.

Na análise dos jornais impressos, vi que a cultura, o esporte, a economia e as dificuldades cotidianas enfrentadas pelos moradores de favelas aparecem muito pouco, especialmente quando se considera o imenso número de reportagens e notas sobre operações policiais, tiroteios, execuções.

Em 92 dias, os jornais pesquisados publicaram quatro notícias positivas em capa, enquanto notícias negativas ocuparam 80 capas. Houve dias em que os jornais não abordaram assuntos relacionados às favelas em capas.

O jornal Extra, do grupo Globo, foi o que mais deu de capas negativas. Não à toa: o veículo de comunicação criou uma “editoria de guerra”, em 2017, para tratar da violência no Rio. A maioria das capas negativas foi referente à violência armada, varejistas de drogas e milicianos. O desabamento de dois prédios na favela da Muzema também ganhou espaço devido à proporção da tragédia em que 24 pessoas morreram. Na editoria de esportes, o jornal optou por dar destaque a diretoria do Clube de Regatas do Flamengo que vetou a expressão “Festa na favela” por ser algo associado à violência.

No mês de abril, o jornal Extra publicou 14 capas negativas, sendo que, 6 delas foram de forma sucessiva entre os dias 11 e 16 de abril. As capas destacaram a cobrança por meio de carnê feita por milicianos na Praça Seca, zona oeste do Rio; moradores da favela de Manguinhos, na zona norte, que foram atingidos por tiros de um sniper, além da tragédia na favela da Muzema, também na zona oeste da cidade.

A violência no Rio de Janeiro como mercadoria jornalística legitima o pensamento de “CPF cancelado”. Um fato negativo sobre favela sempre é vendável, pois os leitores normatizam a violência. 

Em um ensaio publicado no Nexo, o diretor da Ford Foundation, Átila Roque, sintetiza esta análise que fiz nos últimos meses. “A geografia segregada das cidades, a impunidade que prevalece em homicídios cometidos por policiais e a política de segurança focada na guerra e no enfrentamento armado do tráfico suspendem na prática o estado de direito e instalam o estado de exceção em certas áreas das cidades, sinalizando com uma autorização tácita para a execução dos “elementos suspeitos”. Uma seletividade perversa que torna alguns sujeitos matáveis, sem que sintamos qualquer horror ou responsabilidade em relação a isso”, explica Átila Roque.

O estudo desenvolvido nos últimos meses serve de exemplo para mostrar como a falta de diversidade nas redações cariocas influenciam na produção de conteúdo sobre favelas. Nos últimos anos, as discussões sobre diversidade nas redações ganhou mais espaço.

As capas negativas são frutos de jornalistas com uma visão homogênea que não têm vivência local e provocam uma pauperização nas reportagens por falta de um olhar interno e mais realista. É tempo de mudar.

Romário Regis: “Pensa numa AK-47. Agora pensa numa AK-47 numa favela” 0 25

Pensa numa Ak-47.

Agora pensa numa Ak-47 numa favela.

Uma Ak-47 custa 60 mil reais. R$60.000,00.

O Brasil não fabrica Ak-47, mas mesmo as armas fabricadas no Brasil não podem ser compradas numa loja de conveniência.

ou seja,

Pra uma arma chegar numa favela, é preciso uma caminhada bem longa de muitos envolvidos, participantes e sócios. Não se compra um Fuzil ou uma Pistola na OLX.

Para uma AK-47 chegar numa favela, ela precisa ser importada ilegalmente. Precisa ter alguém que traga num transporte aéreo ou pelo mar e sabemos bem que a Favela não domina o mercado náutico e nem aéreo Brasileiro.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que alguém da polícia federal ganhe um dinheiro para as cargas entrarem na fronteira brasileira e circule pelas estradas do País para chegar em Estados como Rio de Janeiro e São Paulo.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que as polícias estaduais dos Estados que essa carga passe ganhem algum dinheiro.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que alguma parte do Governo do Estado seja conivente com a chegada de armas numa favela.

Pronto. Chegou a AK-47 e jovens que não possuem nenhuma instrução estão armados com uma arma super potente. Levam a culpa por toda uma cadeia produtiva de tráfico de armas que eles nem devem compreender.

E vai além.

Quando tem uma troca de tiro na favela ou na rua, a culpa não é apenas de quem está com a arma na mão, mas sim de TODA A CADEIA PRODUTIVA que fez a arma chegar na mão daquela pessoa. É tanto culpa de quem dá o tiro até a culpa de quem transporta a munição pelo mar ou aceita o arrego na Blitz numa dessas Br’s ai pelo Brasil.

E não tem só o “bandido atirador” não.

Tem Deputado.
Tem Governador.
Tem a Empresa de Armas.

Tem um monte de gente que “não deve ser citado”.

Um tiro é uma Genki Dama de gente envolvida. Seja você a favor do Estatuto do Desarmamento ou não, seja você a favor de Bandido Bom é bandido Morto ou não, é preciso saber que.

UMA
ARMA
NA
RUA
TEM
DEZENAS
DE
ENVOLVIDOS

Se bandido bom é bandido morto, sua lista precisa aumentar inclusive para os donos das empresas fabricantes de armas que lucram milhares de dólares e reais com essas armas vendidas informalmente.

O policial é o menor responsável dessa cadeia produtiva assim como o bandido que troca tiros de havaianas na favela não sabe de 5% daquilo que está envolvido.

Os culpados são outros e a gente insiste em resumir tudo na Wagner Montesrização de o único culpado é quem atira.

Geral é culpado. Entre quem dá o tiro e quem fabrica a arma, existe tanta gente envolvida que nem The Walking Dead daria conta de criar tanto personagem

Assine a nossa newsletter