O valor da mentira 0 16

Mamadeira erótica, candidata a vice com camisa “Jesus é travesti”, Jean Wyllys como ministro da educação e até o tal kit gay, que inclusive foi apresentado por presidenciável em rede nacional. Estas foram algumas das notícias falsas que apareceram constantemente naquele grupo da família, da igreja e até da pelada de fim de semana. Notícias, ou apenas chamadas, tão absurdas que seriam facilmente desmentidas. Mas elas provocavam sentimentos intensos de revolta, justiça e até ódio, justamente quando os cargos mais importantes do país seriam decididos e no meio de uma prolongada crise política.  

Definitivamente, as eleições de 2018 marcaram um momento de mudança no processo eleitoral brasileiro. Mas não se trata da eleição de estreantes em cargos executivos, nem mesmo da mudança radical de ideologia política, mas da importância da TV para o resultado nas eleições. Jair Bolsonaro, presidente eleito pelo PSL, foi quem menos teve tempo de TV em horário eleitoral, só 8 segundos por bloco, somados à 11 inserções de 30 segundos nos comerciais. Números muito inferiores aos de Geraldo Alckmin (PSDB), o cabeça da lista, que contou com 5 minutos e 32 segundos por bloco, somados à 434 inserções de mesma duração. E qual seria o fator decisivo para mudança tão repentina? 

Uma análise de dados realizada pelo The Guardian no fim de outubro de 2019, trouxe dados que atestam o favorecimento ao discurso de extrema direita nas eleições 2018. De acordo com a publicação, 42% dos textos apontados como sendo da direita continham informações consideradas falsas pelos verificadores de fatos. Enquanto menos de 3% de notícias do grupo oposto continham falsidades. Nessa análise foram observadas 11.957 mensagens compartilhadas em 296 grupos de WhatsApp durante o período eleitoral brasileiro. 


Antes disso, o executivo do aplicativo de mensagens WhatsApp, Ben Supple, declarou em participação no festival Gabo, na Colômbia que a empresa tem ciência do domínio de grupos poderosos nas eleições. “Sabemos que nas eleições do ano passado havia empresas que enviavam mensagens em grande número, querendo violar nossas regras de serviço e alcançar um público maior, estamos muito conscientes dessa ameaça”, acrescentou Supple, que é responsável pelo tema eleições da organização.

Ben Supple em participação no Festival Gabo de jornalismo, na Colômbia. Foto: reprodução YouTube.

Mais recentemente, no dia 19 de novembro, o site The Intercept publicou um texto investigativo com o relato de um ex-blogueiro sobre uma espécie de assessoria prestada pela Google Brasil em sua sede no Itaim Bibi, bairro “nobre” de São Paulo, para que um grupo de seis blogueiros de maioria mineira tivessem maior engajamento e sucesso financeiro em seus sites e nas redes sociais através de um melhor direcionamento dos conteúdos para um público cada vez mais segmentado e o pior: sem preocupação alguma com a verdade e a ética jornalística às vésperas das eleições.

Cópia de e-mail cedido ao The Intercept Brasil por um ex-blogueiro atendido pela Google Brasil.


Há quem diga que essa mudança de cenário nas eleições se deve única e exclusivamente ao avanço da tecnologia, mas o que foi apresentado pelos jornalistas Rodrigo Ghedin, Tatiana Dias e Paulo Victor Ribeiro na matéria Grana por Cliques, do The Intercept Brasil, põe dúvidas à esta afirmação.

De acordo com a publicação, a primeira reunião organizada em julho de 2016, na sede da empresa em São Paulo, terminou por causar a mesma sensação em todos os presentes, de que o caminho para ganhar muito dinheiro através da ferramenta de anúncios AdSense seria uma agenda contra o PT e a presidente da República, Dilma Rousseff. Aparentemente isso funcionou bem. A fonte relata que um dos blogs chegou a faturar R$ 25 mil apenas um mês depois desse primeiro encontro.

Boleto de pagamento cedido por ex-blogueiro ao site The Intercept Brasil.

Entre os exemplos citados pelo ex-blogueiro ao TIB, estão sites como Diário do Brasil, Jornal do País, Notícias Brasil Online e Pensa Brasil, ainda no ar, além de Brasil Verde Amarelo e The News Brazil, hoje desativados. 

Alguns destes que ainda seguem ativos, agora seguem agendas bolsonaristas, ainda veiculando anúncios na ferramenta AdSense que figuram ao lado de notícias como “General do Exército cogita ‘intervenção cirúrgica’ no país” e “Uma rede de televisão não pode citar o nome do presidente em um caso de morte e não ser punida”.

 Google e AdSense

Questionado sobre o caso, o Google afirmou que não deu orientações a respeito de palavras-chave, mas apenas à otimização do AdSense. O programa de anúncios, lançado em 2003, gerou mais de US$ 15 bilhões para a empresa só neste ano. Ele funciona permitindo ao dono de um site alugar espaço em suas publicações para que o Google venda anúncios. Os lucros, gerados por cliques, são divididos entre o dono do site e o Google. Dessa forma, gerar uma audiência e engajamento não é benefício só do blogueiro, mas também um dos inúmeros negócios do Google, um gigante da internet.

Uma das provas de que nem o avanço tecnológico, e tampouco o acaso, são responsáveis por mudanças drásticas na política e na opinião pública está no relato do ex-blogueiro não identificado pela equipe do TIB, quando diz que através do benefício do AdSense, sua renda se multiplicou em poucos meses. Saindo de um lucro de R$ 4,3 mil em maio de 2016, para ganhar R$ 25,7 mil em agosto do mesmo ano, mês decisivo para o impeachment de Dilma Roussef, já que o Senado aprovava o afastamento da petista e Michel Temer assumia finalmente a presidência da República.

Mas quem se beneficia e quem sai prejudicado nessa história?

Pois bem, tomando como base uma das notícias citadas acima, o site Diário do Brasil publica um título alarmante, onde um General do Exército estaria sinalizando uma possível intervenção militar no Brasil. Isso tem o poder de inflamar uma parte da sociedade que consome irrestritamente este conteúdo de qualidade e procedência questionável.

Ao abrir o link, você vai se deparar com a assinatura de um oficial da reserva, ou seja, ele não exerce e nem nunca exerceu a função de porta-voz, não responde pelas Forças Armadas, se trata do General da Reserva do Exército Brasileiro Luiz Eduardo Rocha Paiva, que construiu sua carreira militar entre gabinetes em funções administrativas e como instrutor em escolas e centros de estudos militares, seu único destaque em atuação operacional foi em 1998 em operação de pacificação em um conflito envolvendo fazendeiros e o MST no Paraná.

Desde 2007, quando se tornou militar de reserva, se dedica a escrever artigos sobre temas políticos e estratégicos, segundo diz seu perfil no Eblog do Exército Brasileiro.

Tudo isso vai te fazer enxergar que não há informação alguma no texto publicado pelo Diário do Brasil. Ele não traz fatos, nem novos elementos políticos, apenas a opinião de um militar da reserva sobre política. Mas o veículo utiliza o treinamento oferecido pelo Google Brasil para espalhar cada vez mais a desinformação alarmista que empodera radicais e assusta os pacifistas mais desavisados. Dessa forma contribuindo para que as redes de mentiras aumentem e dêem mais destaque aos discursos mais extremos.


Já sabemos quem obteve benefício, mas agora pare e pense por alguns segundos, como isso tudo influenciou nas favelas? Talvez a “política externa” seja assunto chato, mas até quem não gosta do tema sabe que o quilo da carne já passa dos trinta reais. O Estado nunca foi mocinho na favela, mas agora inovou, também taxa desempregados, declara guerra à educação, libera agrotóxicos e muito mais. Atinge até quem nunca se preocupou com política e de repente passou a defender com todas as forças um grupo político que atacava tudo que “está aí”, o pouco que havia de políticas públicas, todo tipo de ativismo e pensamento crítico. A pergunta que fica é: valeu a pena compartilhar notícias falsas?

Coletivos da Zona Oeste do Rio organizam vaquinha online para ajudar famílias de periferias 0 56

A União Coletiva pela Zona Oeste atua nos bairros de Sepetiba, Paciência e Santa Cruz distribuindo cestas básicas

Um grupo formado por 16 coletivos criou a União Coletiva pela Zona Oeste, que atende os bairros de Sepetiba, Paciência e Santa Cruz. Juntos, esses territórios  correspondem a 40% da população da região Metropolitana do Rio de Janeiro. Mais de 2.200 cestas já foram distribuídas desde o início da quarentena, em março, como uma das medidas para frear os impactos causados pela covid-19.

Segundo Day Medeiros, 31, idealizadora da rede, o intuito que motivou a formação da União foi porque, separados, os coletivos muito possivelmente não teriam condições de mobilização suficiente para suprir as demandas. “A gente sabe que esse eixo Santa Cruz, Sepetiba e Paciência é super invisibilizado, e que normalmente as coisas que chegam nas favelas do RJ demoram muito para chegar aqui, quando chegam. Aí eu disse: cara, vamos fazer porque não vai chegar, se não for a gente não vai ser ninguém.”

Os coletivos que compõem a União Coletiva pela Zona Oeste são: As Mariamas, Maria Trindade, Piracema, ONG Criar e Transformar, Cultura Zona Oeste, Espaço Cultural A Era do Rádio,  Projeto Esperança para Uma Criança de Vila Paciência, Plataforma Casa, Centro Cultural Çape- Typa, E.Coletivo, Pepuc de Vila Paciência, Movimento Territórios Diversos, Mulheres de Pedra, Nós e CIjoga, Costurart. 

Até antes da pandemia nenhum deles trabalhava diretamente com assistência social; todos pautavam atividades culturais e de educação nos locais em que atuam. Aproveitaram, no entanto, o cadastro dos participantes, mapearam quem estaria precisando de ajuda e encontraram 3.300 famílias em situação de vulnerabilidade social. 

O principal objetivo da União é acompanhar as famílias que recebem as cestas e fazer reposição. O grupo entende que é necessário dar assistência continuada, garantindo, ao menos, a alimentação das pessoas. De acordo com a Day, 90% dos atendidos são trabalhadores informais, que consequentemente tiveram queda no rendimento dado à pandemia. 

As cestas são distribuídas pelos  integrantes da União e obedece à principal decisão tomada pelo time: não fazer aglomeração. Assim, é distribuído uma senha com horário em algum ponto de encontro ou as cestas são entregues diretamente na casa de quem a solicitou. Day Medeiros aponta que, muitas vezes, as pessoas se esquecem que é importante fazer doações também pensando nos gastos com locomoção e itens de segurança da equipe.

A professora de Artes está atualmente desempregada assim como todos os voluntários da campanha. Não há como contribuir a partir de fundos próprios porque não existe. Ela conta que, apesar da situação dramática e de não saber como fará para pagar as contas no fim do mês, fica ligeiramente feliz por ajudar, mas critica os colegas que dizem compreender sua realidade. “Uma coisa é você trabalhar sendo assalariado e estar com mil coisa na cabeça, outra coisa é você estar com mil coisas na cabeça e não ter dinheiro para pagar a internet do celular.”

A idealizadora da União lamenta, não ter caixa suficiente para junho.  Em abril, a União conseguiu um financiamento pela Benfeitoria, mas o dinheiro que restou não compra 20 cestas e a demanda dos territórios é grande. Um dos principais desafios se dá porque os coletivos não têm regulamentação, dificultando a inscrição em editais filantrópicos. 

Para doar, basta fazer uma doação no site Vaka.me/961641 ou entrar em contato com as páginas no Facebook e Instagram da União.

*Foto destaque de União Coletiva pela Zona Oeste

Enem e Periferia: as dificuldades de avançar nos estudos durante a pandemia do novo coronavírus 0 155

*Reportagem colaborativa de Rick Trindade e Mariana Assis

Para muitos jovens periféricos ou de favela, ingressar em uma universidade é uma chance de ocupar novos lugares, mas para alguns ainda é visto como um lugar difícil de ser alcançado. A maioria desses jovens vem de uma realidade na qual a educação de qualidade nem sempre se faz presente, e depois de enfrentarem dificuldades no Ensino Médio, ou até mesmo aqueles que estão longe de uma sala de aula há muito tempo, enxergam nos cursinhos pré-vestibulares comunitários um caminho para a realização de seus sonhos. E em tempo de quarentena, alguns planos precisaram ser alterados ou adiados.  

Em 31 de dezembro de 2019, foi identificado em Wuhan, na China, o primeiro caso de infestação pelo novo coronavírus. O vírus começou a se disseminar pelo mundo em escalada, atingindo países do continente asiático e europeu. A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a doença, em março deste ano, como pandemia. A primeira morte no país ocorreu no mesmo mês, em São Paulo. Desde então, o número de casos e mortes só vem aumentando.

Um levantamento feito pelo G1 junto às secretarias municipais e estaduais de saúde, afirma que nesta  segunda (1º), já foram registradas quase 30 mil mortes e mais de meio milhão de casos confirmados. O Brasil já é o segundo maior país do mundo em número de casos da doença, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, que registra nesta segunda (1º), 1.787.680 casos e 104.396 mortes, de acordo com a atualização de hoje do CDC (Centro para o Controle e Prevenção de Doenças americano). 

Assim que o calendário do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2020 foi divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) em março, e já enfrentando os desafios impostos pela Covid-19, entidades da sociedade civil começaram a se articular pedindo o adiamento das datas apresentadas (prova impressa nos dias 1º e 8 de novembro; digital, 11 e 18 de outubro). 

Organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), dezenas de mobilizações contra à data ganharam protagonismo nas redes sociais, alcançando grande expressão no dia 15 de maio quando houve um tuitaço. Além disso, os grupos entraram com ações na justiça e fizeram um abaixo assinado, que já contabiliza mais de 350 mil assinaturas, o  Adia Enem

Uma das principais argumentações era de que a manutenção da prova indicaria um desrespeito por parte do Ministério da Educação, visto que nem todos os alunos teriam condições de continuar os estudos. Dados do infográfico Desigualdade feito pela Casa Fluminense apontam que, dos 5,5 milhões de candidatos que realizaram o Enem em 2018, menos da metade tinha computador em casa. Quando esta parcela é recortada aos candidatos de escolas públicas e sem computador, a diferença atinge quase 90%.  Segundo dados levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca mais de 45 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à internet. 

Os pré-vestibulares comunitários em tempos de pandemia

Logo quando o isolamento social foi implantado, a direção do cursinho popular da Rede Emancipa, em Belém, no Pará, Estado que, segundo a Secretaria Municipal de Saúde do Pará, já somatiza mais de 40 mil casos do novo coronavírus, e 3 mil mortes, suspendeu as atividades presenciais e adotou, após pesquisa interna, aulas via WhatsApp. O aplicativo de mensagens foi a plataforma indicada como a que possivelmente melhor atenderia aos alunos. 

Para Hamilton Nogueira, 33, professor do cursinho esse novo método tem sido uma experiência nova para a maioria dos professores, poucos já haviam dado aula dessa forma. A “novidade” causou impacto, e por questão de hábito, até agora ele não se adaptou com o modelo de ensino online. “A maioria dos professores estão acostumados com aquele vínculo mais próximo, aquele vínculo afetivo, então quando você muda isso drasticamente, principalmente pra quem não tem essa experiência, pela distância, você sente sim um estranhamento”, diz ele. 

Os alunos também sentiram o impacto negativo das aulas via WhatsApp, a maioria ainda não conseguiu se adaptar. “O nosso público vem de uma realidade social às vezes com muitos problemas familiares. É muito difícil a concentração, sem falar na questão do material, então nós temos que sempre estar pensando estratégias todos os dias pra poder motivá-los”, afirma o professor, que dá aulas de Literatura e Redação.

Clarissa Andrade, 26, é aluna do cursinho, ela destaca que nesta nova realidade, não ter essa relação próxima acentua os desafios na preparação para o vestibular. Agora, estudando em casa, precisa ter disciplina redobrada e lidar com as eventuais interrupções, já que divide a casa em que mora com outras nove pessoas. Mas as dificuldades não se encerram aí. 

A renda principal de sua família provém de trabalhos informais alterados neste contexto pandêmico. De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do primeiro trimestre deste ano, o desemprego atingiu 12,8 milhões de pessoas, cerca de 900 mil a mais se comparada ao mesmo período do ano passado. O auxílio emergencial  no valor de R$ 600 ajuda, mas não deixa de provocar receios quanto ao futuro. Clarissa comenta que o emocional é inevitavelmente abalado, o que dificulta a rotina de estudos. 

Assim como boa parte de seus colegas de classe, Clarissa já terminou o Ensino Médio há mais de dez anos e sente que as trocas que a sala de aula proporcionam não só enriquecem como também dão força para continuar. Antes da pandemia, a sala de Clarissa tinha 108 alunos;  depois que as aulas foram para o WhatsApp, pouco mais de seis interagem frequentemente no grupo. “Nós tivemos uma evasão muito grande justamente por nem todos nós termos acesso à internet. Então, isso dificultou muito”, conta ela que deseja cursar Medicina.

Enquanto o Emancipa, em Belém, decidiu continuar suas atividades, isso não foi possível para o Vila Isabel Vestibulares (VIVE), localizado no Morro dos Macacos, Zona Norte do Rio de Janeiro. O projeto funciona há mais de 20 anos e o valor arrecadado, a partir de mensalidades simbólicas, é revertido em compra de materiais aos alunos e para as atividades extraclasse, como passeios culturais e visitas à universidades.  

Amanda de Oliveira, 25, professora de Biologia, afirma que desde quando foi estabelecida a quarentena, as aulas tiveram que ser interrompidas. Houve um questionamento por parte de alguns alunos se as aulas continuariam de forma online. Discutido em reunião e levado para professores e alunos, eles chegaram a conclusão de que, de forma geral, os alunos não conseguiriam acompanhar as aulas online, já que nem todos possuem computador em casa ou uma internet de qualidade para baixar vídeos ou assistir aulas ao vivo.

“O que a gente  faz hoje, é tentar prestar de alguma forma uma assistência, então a gente tá aberto a comunicação com eles, de vez em quando um aluno ou outro aluno diz no grupo que está com dúvida em alguma coisa ai o professor vai lá, ajuda e explica, às vezes eles pedem alguns materiais, a gente envia, tudo a partir das demandas deles”, explicou Amanda. 

30 ou 60 dias, é o ideal? 

Para a professora Amanda, o ensino à distância só é possível desde que os alunos tenham os dispositivos necessários para acessar o conteúdo. Com a pandemia, tudo fica ainda mais difícil, afetando a saúde mental e física de quem não terá a oportunidade de manter os estudos. ”Pensar em que esses alunos deveriam estar estudando é descontextualizar a realidade deles , a realidade física, a realidade de onde moram, a realidade política”, pontua.

De acordo com Iago Montalvão, Presidente UNE, o não adiamento das provas poderia representar um impedimento aos alunos de baixa renda e a juventude favelada, preta, indígena e quilombola de acessarem esse espaço. ”Com o Enem mantido na data e sem as aulas, esses estudantes não têm as mesmas condições de estudar em casa, então estaria promovendo uma elitização do acesso à universidade”, complementa. 

Após forte pressão, o Senado Federal aprovou, no dia 19 de maio, o projeto de lei   1.277/2020 que prevê “a prorrogação automática de prazos para provas, exames e demais atividade para acesso ao ensino superior em caso de reconhecimento de estado de calamidade pelo Congresso Nacional ou de comprometimento do regular funcionamento das instituições de ensino do país”. A PL segue para votação na Câmara dos Deputados. Entretanto, no dia seguinte, O INEP divulgou nota em que anuncia que o Enem será adiado entre 30 a 60 dias, a ser decidido por meio de enquete no Página do Participante, em junho. 

Professores e alunos dos pré-vestibulares aqui citados viram o adiamento como uma conquista, mas julgam que 30 ou 60 dias ainda não é um cenário ideal, se a realidade em que vivem for levada em conta. Acreditam que a vitória no Senado tenha sido importante, mas que a pauta pelo um adiamento mais extenso continua. O preparo virtual não contempla todos os estudantes que vão prestar o Enem e, por isso, é necessário uma data que leve as diferenças de acesso em conta.

Para Brenda Barcellos, 22, moradora do morro da Serrinha e estudante do VIVE, o Enem não é uma prova que distribui conhecimento por igualdade. A jovem teme que o adiamento da data não seja suficiente. “Mostra uma clara materialização que há na educação no Brasil, porque os conhecimentos que são cobrados nas provas não são distribuídos de maneira igualitária no Ensino Médio público”, destaca Brenda que não teve aulas de química, física e geografia na escola.

Brenda, no entanto, é otimista. Conta que é preciso olhar para a história e se encorajar a partir da luta dos ancestrais. “Isso vai passar, nós vamos conseguir acessar esses espaços seja em 2021 ou 2022, porque toda a nossa história é pautada em resistência, em sangue. Em 400 anos de escravidão não seria fácil de reverter isso agora, não desistimos até agora, então não vai ser esse governo que vai fazer a gente desistir”. 

Questionamos os motivos pelos quais o INEP adiou as datas das provas e inscrições, por que essas datas não acompanham o calendário escolar e se tem havido conversas com organizações estudantis. Como resposta, o INEP limitou-se a dizer:  “As informações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 estão sendo divulgadas no portal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).”

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