Originárias do Cerrado: pelo direito de ser e estar no território 0

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Mulheres originárias afirmam que a terra é parente, o território é morada dos ancestrais, destruir o Cerrado é matar o vínculo com o sagrado.

Proteger o Cerrado é proteger os direitos dos povos do Cerrado. São cerca de 216 terras indígenas e 83 povos diferentes que ocupam esse bioma, e formam a última barreira contra a devastação total. Como guardiãs, as mulheres indígenas, originárias, do Cerrado nos ensinam que o território é sagrado, é coletivo e é morada dos ancestrais. Proteger a terra-território é proteger um parente, é proteger a vida de quem esteve, está e virá.

São 521 anos de guerra contra os projetos de morte. O profundo conhecimento sobre essa terra vem muito antes do Brasil ser Brasil. Atualmente, porém, precisam reivindicar com a própria vida o direito de viver, existir e praticar suas culturas. O enfrentamento contra atuações jurídicas como a PL 191/2020, PEC 215/2000, PL 490/2007 e PL 191/2020, ameaçam não só os territórios indígenas e sua garantia de saúde, quanto afetam diretamente os recursos naturais utilizados por toda a população brasileira, interferindo na qualidade da água, na poluição dos solos por mineradoras, agronegócio e desmatamento.

Segundo o relatório de Conflitos no Campo, divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), a cada três famílias envolvidas em conflito por terra, uma é indígena, isto é, são quase 50 mil. Em relação à quantidade de ocorrências de conflitos por terra, 244 eram de indígenas, 19,5% do total que ficaram expostos as seguintes violências: 320 famílias foram expulsas (30,7% do total); 930 despejadas (9%); e 26.621 tiveram seus territórios ou casas invadidos (67%).

“Nós, Mulheres Indígenas, também somos a Terra, pois a Terra se faz em nós”, enuncia o Manifesto das Primeiras Brasileiras – As originárias da terra: a mãe do Brasil é indígena. “Pela força do canto, nos conectamos por todos os cantos, onde se fazem presente os encantos, que são nossas ancestrais. A Terra é irmã, é filha, é tia, é mãe, é avó, é útero, é alimento, é a cura do mundo”.

Para se ter um futuro, é preciso desconstruir histórias inventadas 

“Manter o Cerrado em pé é não só nossa sobrevivência, quanto também a sobrevivência do não indígena”, conta. “O Cerrado é o bioma que é menor para cima e maior para baixo. Se você vê um pé de pequi dando 2 metros, então ele tem 4 metros para baixo. Essas árvores não só seguram, guardam, captam e reservam a água, como também protege o solo de degradação, de erosão, assoreamento dos rios, porque ela vai segurar essa terra e evitar que ela desça para o rio”, descreve a professora Liderjane Kaxixó sobre os ensinamentos às crianças originárias na aldeia localizada no centro-oeste de Minas Gerais, Cerrado Mineiro, comunidade Martinho Campos. 

A  educação que ocorre no território Kaxixó contempla a cultura, o uso do território, as tradições, o cuidado com a terra, as rezas para proteção de alergias e animais peçonhentos, e o conhecimento das plantas. Com isso, desde de pequena, a criança Kaxixó passa a compreender o seu povo e respeitar os seres do Cerrado. “Tem que desconstruir histórias. Porque a mãe embala a criança falando que o lobo é mau, sendo que ele é nosso amigo, são nossos aliados, sem eles a gente não tem sobrevivência”, afirma Liderjane que também é Guerreira da Tradição, que na concepção não-indígena é nomeada como fitoterapeuta. 

“Hoje estou como professora de Uso do Território, que usa tudo o que está dentro do território. Então, tem que ensinar do infantil ao nono ano sobre frutas, sementes, quais são os animais, quais são as ervas medicinais, quais são as venenosas, qual a madeira para tirar o pau para o arco e flecha”. A professora ainda indica, segundo levantamento da comunidade, que existem mais de 200 espécies de frutas diferentes só na região, uma diversidade que só é possível pela manutenção da mata nativa do Cerrado.

A professora ensina que as plantas e os animais são nossos amigos e precisam ser respeitados. Foto: Ludmila Almeida.

Segundo a Liderjane a destruição do bioma, fere a terra e empobrece o solo, e essa diferença é visível na parte do território que está na mão do fazendeiro. Este ao apenas retirar tudo, retirar as matrizes – árvores mães, antigas, com semente boa -, expulsa os animais e deixa o espaço “pelado”, sem vida e sem sustentabilidade, diz a professora que teme receber uma terra improdutiva, pois estão em processo de demarcação territorial. Por isso, uma das estratégias que utilizam é, quando for trabalhar na terra do fazendeiro – onde retiram alguma renda -, não reproduzir o mesmo tratamento descuidado para que se tenha, no futuro, um espaço territorial útil. Assim, não retirar as matrizes, cortar uma e deixar outra árvore, possibilita a continuidade da fauna e flora na região.

O respeito aos animais semeadores, como o Tatu, a Paca, a Capivara, o Lobo e a Seriema, também é impedir o desequilíbrio ambiental. “A Seriema come cobra, como também se alimenta de sementinhas e ao defecar ali no solo acaba não só gerando esterco, como também fertiliza novas plantas”, descreve. “Se você tem uma cobra que só alimenta de sapo, aí você vai mata o sapo, você acaba matando a cobra de fome. Ou mata a cobra, o sapo entra no seu terreiro e vira um descontrole. Se você mata o sapo e mata a cobra, você tem um descontrole de pernilongo e de vários outros bichos que seriam comidos pelo sapo”, enfatiza sobre o quanto um gesto faz diferença em todo o ecossistema.

Batismo no fogo e a celebração dos presentes do Cerrado

Além das festas de São Pedro, Santo Antônio, São Francisco de Assis, padroeiro da região, todo ano durante a festa de São João o povo Kaxixó realiza o tradicional batismo do fogo. Esse ritual visa a proteção do corpo, pois é uma comunidade que utiliza o fogo para muitas atividades e o risco de crianças se queimarem, em uma fogueira, no fogão a lenha ou em uma tocha que ilumina, é alto. Liderjane, uma das responsáveis por esse ritual, narra que o batismo ocorre pela evocação e rezas aos encantados e aos santos de devoção, dando voltas em torno da fogueira, marcando com cinzas o sinal da cruz na testa da criança e pronunciando palavras que selam o ato. 

A Festa do Pequi é outra tradição que celebra a riqueza do intitulado “ouro do Cerrado”, o pequi. “A gente faz brigadeiro de pequi, brigadeiro, licor, doce de cortar, doce de colher, arroz doce, arroz com galinha, arroz com pequi, uma infinidade”, conta sobre a versatilidade do fruto que é vasta e perpassa o âmbito da alimentação, do cuidado ao corpo e do retorno à natureza. “Faz sabão, óleo para pele, sem contar que ele é bom para saúde, porque a gente acaba indo na mata e a gente experimenta, com isso, sentimentos diferentes”, pontua a professora que ainda diz que o pequi, ao atrair animais, devido a seu cheiro inconfundível, propicia a circulação de nutrientes pelo solo ao seu redor. 

“Para ter o grande tem que ter os pequenos. As pessoas lá na cidade precisam ter o agricultor no Cerrado, o coletor de semente para fazer um óleo, para passar um creme na pele, um batom na boca. Precisa do pequeno extrativista, aquele que fica lá no mato agachado o dia inteiro pegando a sementinha”, diz.

A educação Kaxixó tem a aldeia como a sala de aula, o aprendizado vai além do convencional e visa a criação de seres humanos que respeitam a natureza como parente, como quem pode dar conselhos e ensinar. Essa sabedoria é passada de geração a geração junto aos festejos, rituais, cultivo da terra, pelo caminhar nas matas e pelo respeito a todos os seres mais velhos. 

Crianças se divertem no rio da comunidade. Foto:Arquivo Pessoal.

“Se não está dando certo hoje para você, tira a chinela e vai para debaixo de uma árvore bem grande. Porque a árvore grande tem força, ela tem vida, ela tem história, ela já viu muita coisa, já sentiu muita coisa, já passou por ventos e tempestades”, relata sobre uma conversa com os alunos e da importância de descarregar as más energias junto à árvore matriz que, pela sua experiência de resistência no mundo, pode ajudar a pessoa a se reencontrar consigo mesmo.

“Caminhar no Cerrado é alimentar a alma”.

Liderjane Kaxixó. 

Sociedade matrilinear nos sertões

No Cerrado de Mato Grosso, Território Indígena Meruri do povo Boe-Bororo, vivem a professora Adelina Ikuietaga e sua mãe, a anciã Leonida Maria Akire Kurireudo. Para elas o Cerrado é protetor da aldeia, os protegem de ventos fortes, os ajudam a respirar, fornece sombra, água, por isso, tentam de tudo para preservá-lo e “tentam segurar” o bioma, cuidando de suas cabeceiras e de suas matas. A Anciã começa contando sobre o quando as lavouras geram problemas para o povo, especialmente, em relação a doenças que chegam pela contaminação da água. “Para nós, o território é sagrado”, diz Adelina, que continua, “o Cerrado é importante para manter nossa sobrevivência e a nossa cultura”.

O povo Boe-Bororó se organiza culturalmente de maneira matrilinear, em que a família materna é a responsável por passar o nome, sobrenome e as tradições para os filhos. “Nossa cultura é matrilinear e não é patriarcal também não. É igual, é no meio”, explica Adelina. “O pai e a mãe tem o mesmo poder, nenhum manda mais, tudo é junto e conversado. O homem não faz nada sem consultar sua esposa e a esposa não faz nada sem consultar o esposo”. De acordo com a professora, na comunidade as mulheres são respeitadas, quando uma fala todo mundo pára para ouvir. 

O ritual de nomeação é feito para toda a aldeia. Os parentes da mãe são quem decidem o nome, que sempre tem um significado, e o grita à comunidade. Mas, toda a organização desse primeiro ritual da criança, os enfeites, os adornos, são dados pelos familiares do pai. Em relação aos casamentos, quem decide são as mulheres, as mães são responsáveis pela realização do ritual do matrimônio que segue uma orientação estrutural. Nessa organização social, o povo Boe-Bororo é constituído pelas metades norte e sul, “TugoArege” e “Ecerae”, e esses são divididos cada um com quatro subclãs. Um membro de um clã só poderá constituir uma família casando-se com um membro do clã da outra metade. 

Anciã Leonida preparando uma palmeira para cobrir uma casa. Foto: Júlia Barbosa.

“Quando nós estávamos aqui no Brasil sozinhos, tudo era nosso, a nossa natureza era nossa, tínhamos tudo em abundância”, relata Adelina.

Com o objetivo de fortalecer a cultura, a Associação das Mulheres Aredu (mulher) realiza trabalhos comunitários como revitalizar as nascentes, as cabeceiras que estão secando e a plantação de hortas junto aos jovens. O cuidado com a saúde mental, também é feito, principalmente, agora com a pandemia, porque somente as pessoas acima de 18 foram imunizadas na aldeia, as crianças e adolescentes ainda não, e isso gera preocupação para as mães.

“Uma mulher indigena tem que ser forte, verdadeira, tem que fazer artesanato, fazer esteira, pegar lenha, pegar frutas, pegar mel e fazer as coisas de que uma mulher originária faz dentro de nossa cultura”, relata Leonida Akire Kurireudo que também é restauradora do Centro de Cultura Boe. A Anciã conta que o centro é importante para a documentação sobre o povo Boe, sobre os Bakaros – histórias de origem das coisas, orientações de conduta, o sagrado que permeia o cotidiano -, a memória e os adornos originais que são utilizados nos rituais. 

“Terra significa vida. Antes a gente não precisava estar comprando produtos com agrotóxicos, tínhamos tudo, tiravamos tudo da terra. Hoje não”, lembra Adelina. “Nós estamos numa ilha, nossas reservas são ilhas isoladas no meio de algodão, de soja, de trigo. Nossos rios já vem de fora, passam dentro da reserva, já poluídos. Não temos mais toda aquela riqueza em que podia viver só da terra. Hoje temos que procurar outros meios para sobreviver, não porque nós queremos, mas sim porque nós estamos sendo obrigados a isso”.

“Viver é um ato de rebeldia e resistência”

A invasão e venda das terras do centro-oeste teve como um de seus resultados vários aldeamentos forçados, promovidos pela coroa portuguesa, no início do século XVIII. Um desses formou a aldeia carretão, um espaço que reuniu, de forma violenta, povos indigenas, de vários locais do Estado, como os Kayapó, Karajá, Xavante, além de negros e brancos, dentro de um território controlado pelo poder europeu de língua portuguesa. Descendente desse processo, após o aldeamento ser disperso, duas mulheres, uma descendente do povo Kayapó e outra do povo Xavante, se casam com homens negros e começam a constituir o povo indigena Tapuia do Carretão.

Localizados no norte de Goiás, Cerrado central, o povo Tapuia mostra que o ato de permanecer vivos está aliado à manutenção de seus saberes e estes se encontram em reciprocidade para com a terra. “A gente precisa tirar, mas também precisa devolver. Porque tudo que está à nossa volta, a gente precisa. É uma troca e quando não há essa troca, há o desequilíbrio”, diz Eunice Tapuia, mulher indígena da aldeia carretão, mãe e doutoranda em Direitos Humanos pela Universidade Federal de Goiás (UFG). “O Cerrado é completo. Ao mesmo tempo que ele é acolhedor, por ser a nossa casa, nossa mãe, de onde vem o nosso sustento, os nossos remédios, ele também é a morada dos espíritos, dos nossos irmãos, é a morada dos nossos ancestrais”.

Herdeira de uma das matriarcas, Eunice a tem como referência para continuar os ensinamentos e busca pela vida digna ao povo Tapuia. Ela conta que Maria Raimunda, sua tetravó, ao tentar proteger o território de invasões de grileiros, teve a vida retirada. Hoje ela e outras mulheres são lembradas como guerreiras por defender não só a terra, mas a vida e as futuras gerações. No entanto, a pesquisadora questiona: “mas será que elas quiseram ser guerreiras ou elas foram forçadas a ser guerreiras?”, diz a respeito do quanto a luta pela sobrevivência da comunidade empurram as mulheres a sempre serem fortes, sem ter a autonomia de apenas viver a própria vida com tranquilidade.

Eunice se espelha nas mais velhas para continuar na luta. Foto: Arquivo Pessoal.

“Ser mulher indígena é ser aquela que tinha tudo para para baixar a cabeça e optou por continuar com ela erguida, porque sabia que ela é força e que precisa continuar levantada, por que as outras precisam vir”, afirma a pesquisadora. Ela ainda ressalta que é preciso contar toda a história, pois todas as vezes que se fala em vitória, decisão, parece que apenas o homem fez aquilo, mas ele nunca está sozinho, sempre tem mulheres fortes ao lado e que se não fosse elas o resultado seria outro.

“Viver é um ato de rebeldia, de resistência. Então, a gente precisa contar nossa história, para isso, a gente luta de formas diferentes”, pontua Eunice Tapuia sobre o quanto, durante a história, a população indigena foi atacada, e mesmo assim continuam de pé. Nesse percurso, a terra foi uma das grandes protetoras e sustento. Saber ouvir a terra, conversar com ela para saber a hora certa de plantar e colher, gera cura, alimento e continuidade da vida. “Ela é uma boa mãe, ela cuida, ela protege, ela ensina a ser calma, ensina a revidar quando necessário. A terra não fala, ela mostra. Quando você faz certo, ela te agradece com abundância, com generosidade, quando você faz errado, ela te castiga. Então, ensina mostrando. Ela e nós somos um”.

“Somos muitas, somos múltiplas, somos mil-lheres, cacicas, parteiras, benzedeiras, pajés, agricultoras, professoras, advogadas, enfermeiras e médicas nas múltiplas ciências do Território e da universidade. Somos antropólogas, deputadas e psicólogas. Somos muitas transitando do chão da aldeia para o chão do mundo”.

Manifesto das Primeiras Brasileiras – As originárias da terra: a mãe do Brasil é indígena.

Arte em destaque: Júlia Barbosa | Edição: Renato Silva.

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