América Latina: As periferias da Guatemala frente à desigualdade, conservadorismo e pandemia 0 177

Desde que chegou a pandemia ao nosso continente, temos ressaltado que tantos grupos de comunicadores e ativistas periféricos das cinco regiões do Brasil trabalharam e trabalham de diversas formas, buscando na solidariedade e união de esforços um meio de levar para seus territórios ações práticas sobre como lidar com a covid-19 e ainda tentar mitigar os efeitos econômicos causados pelo isolamento social. Mas pensar que essa realidade é vivida apenas no Brasil pode ser um equívoco. É necessário “olhar para os lados” e identificar o quão similar é a luta periférica e popular que acontece em tantos pontos da América Latina, como na Guatemala, durante uma crise mundial que lança holofotes e torna cada vez mais nítida a desigualdade imposta pelo modelo de sociedade vendido à altos custos em nosso continente por séculos.

E se olhar para a história da Guatemala, é possível notar que as semelhanças não param tão rápido. O país passou por um processo chamado por muitos de golpe de estado no ano de 1954 que desencadeou em uma guerra civil. Um processo muito apoiado pelo discurso de guerra ao comunismo, exportado pelos Estados Unidos para diversos países durante a Guerra Fria. O que já seria muito comum se você relembrar a história recente brasileira. 

No entanto, desde 1954 até hoje, o comediante e ex-presidente, Jimmy Morales foi o único não militar ocupando a presidência no país centro-americano. Em 2020, Morales foi sucedido pelo ex-bombeiro, ex-diretor do Sistema Penitenciário da Guatemala e político conservador, Alejandro Giammatei que venceu as eleições de 2019 com discurso favorável à pena de morte em combate às gangues, oferecendo a estes grupos tratamento de terroristas.

O portal de notícias guatemalteco Soy502 dedicou ao presidente eleito uma produção que conta sua trajetória que passa de funcionário público a presidiário, com um histórico envolvendo a morte de 7 detentos no presídio de Pavón em 2006. O site destaca que após a repercussão, Giammatei passou a ser aclamado pela parcela conservadora da população. Apoio que o motivou seguir tentando seguidas vezes chegar à presidência até a eleição de 2019. O presidente guatemalteco é apontado como impulsivo e dono de um temperamento “vulcânico”. Histórias familiares, não?

Desigualdade Social na Guatemala

Para dar o tom do tamanho da origem conservadora que reflete sobre a desigualdade social na Guatemala e tratar fatos e informações de forma mais humana, o Favela em Pauta conversou com o jornalista Nelton Rivera. Nelton é integrante do portal Prensa Comunitaria, que aborda temas como jornalismo comunitário, indígena, artístico e sobre feminismos. Sobre a situação das periferias frente à ação do Estado e situação vivida em 2020, o jornalista ressalta que é importante relembrar a história do país. “A Guatemala hoje tem níveis bastante elevados de pobreza miséria. Principalmente nas periferias da capital, Cidade da Guatemala, que concentram grande parte da população devido à migração forçada pela repressão do Estado, no período da ditadura entre 1954 e 1996”.


Sobre os níveis elevados de pobreza mencionados, um dos que mostram o tamanho da desigualdade social no país é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) compilado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2017. O estudo traz a Guatemala na posição 127 – classificada em 0,650 -, índice considerado de médio desenvolvimento. No mesmo ranking, o Brasil faz parte do grupo considerado de alto desenvolvimento – com 0,759 -, na posição de número 79.

De acordo com a plataforma Países IBGE, a Guatemala tem hoje cerca de 17,5 milhões de habitantes, dos quais pelo menos 48% vivem em regiões rurais. Além de ser um país onde quase a metade vive em grandes áreas periféricas distantes dos centros urbanos, grande parte da população urbana vive em áreas de risco próximo às encostas de rios, em condições completamente inadequadas de moradia e acesso a direitos.

No Relatório do Desenvolvimento Humano publicado em 2019 publicado sobre o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a ONU trata a relação entre a desigualdade social e a violência como o círculo vicioso mais cruel nos países com índice de desenvolvimento humano mais baixos. “São cometidos mais homicídios nos países com uma maior desigualdade, em todas as categorias de desenvolvimento humano. A desigualdade de explica quase um terço da variação global das taxas de homicídio”, afirma a organização no documento.

De igual modo, Rivera trata de ressaltar a desigualdade na capital do país quando afirma que nas periferias lida com baixo investimento em questões sociais básicas como água potável, infraestrutura, saneamento, tratamento de esgoto, pavimentação e iluminação pública. Enquanto a maior parte do investimento está voltada para a administração das principais áreas de classe alta e média, ou onde o turismo é a maior atividade econômica e também onde estão as grandes redes hoteleiras da Guatemala.

 “Nos últimos 15 ou 20 anos, pelo menos, imperou uma oligarquia cuja imagem mais representativa era o ex-presidente Álvaro Arzú, quem assinou os Acordos de Paz em 96, mas depois se tornou um líder, ou cacique a nível municipal, e teve o controle (da política local) até sua morte há alguns anos. No departamento da Guatemala, como em muitas cidades e especialmente nas áreas urbanas, existem graves problemas devido à falta de acesso à água potável e estas autoridades intervieram muito pouco para resolver esses problemas, que são bastante graves”.

Em outubro de 2015 um deslizamento de terra deixou cerca de 600 pessoas desaparecidas depois que 125 residência foram soterradas em Santa Catarina Pinula, periferia do Departamento da Guatemala. Foto: Conred – Guatemala.

Outro problema grave para o país está na prevenção aos desastres naturais, já que a maioria população da periférica dos centros urbanos vive nas encostas de rios, locais de alto risco e nenhum investimento público, como lembra o jornalista. “É justamente nas encostas dos rios onde se encontram os assentamentos. Eles vivem em áreas de alto risco de deslizamentos de terra. A Guatemala é um país que sofre muito com isso, também é um país muito sísmico, mas tem muito a ver com a localização dos assentamentos, que é de alto risco. E isso anda de mãos dadas com o a falta de iluminação pública, a falta de infraestrutura”.

Oligarquia Conservadora

Na Guatemala o fim da ditadura é ainda mais recente. O país teve acordo de paz assinado em 1996, mas não rompeu com o sistema político que funciona por baixo da estrutura presidencial local. Sobre o que chama de oligarquia guatemalteca, o jornalista Nelton Rivera trata o país como um Estado cooptado por uma elite econômica bastante atrasada e reacionária. Uma oligarquia que continua a manter o controle político do Estado, mas também um capital emergente que esteve ligado aos militares, que com ela negociaram durante a guerra. “Agora são os que têm comunhão entre o capital emergente, o capital tradicional, a oligarquia, o setor empresarial, os novos ricos do crime organizado e a maior presença do narcotráfico em funções de governos departamentais, prefeitos municipais, financiamento de partidos políticos, deputados no Congresso da República e até na Diretoria do Congresso da República do ano passado”, afirma Rivera.

Para encontrar relações entre o narcotráfico e a política na Guatemala não é necessário voltar muito no tempo. Às vésperas das eleições de 2019, o prefeito e candidato à reeleição da cidade guatemalteca de Nueva Concepción, Otoniel Lima, 58, teve a candidatura revogada pelo Tribunal Supremo Eleitoral do país 6 meses após ser acusado de envolvimento no tráfico de drogas e lavagem de dinheiro para cartéis que enviam drogas para os Estados Unidos. O site Notimérica publicou uma matéria em junho de 2019, chamada “Tráfico de drogas e política, a conexão que mancha as eleições na Guatemala”. O texto traz a situação do prefeito e de outras que denotam o tamanho dessa ligação entre política e narcotráfico no país.

Pandemia nas Periferias Guatemaltecas

Segundo dados oficiais, a Guatemala apresentou pouco mais de 109 mil casos e 3.752 mortes causadas pela covid-19. Número contestado pelo jornalismo da Prensa Comunitária, que fala em 198 mil casos e número igual de mortes pela doença. No país, o problema é a forma como o governo local tratou a pandemia, não disponibilizando recursos para aumentar a testagem diária no país. 

Além da testagem o governo realizou ainda a troca do Ministro da Saúde, Hugo Monroy e mais quatro vice-ministros em junho deste ano. A razão para a troca  era de “renovação da equipe” à frente da Saúde por conta de “exaustão física e mental”, segundo afirmou o presidente Giammattei em vídeo transmitido pelo Governo. No entanto, a repercussão dá o tom de saída forçada por críticas direcionadas à resposta do governo à pandemia sob a gestão de Monroy à frente da pasta da saúde.

Para as periferias, a situação teve nuances diferentes no enfrentamento à pandemia, como relata Nelton Rivera. Na Guatemala o tratamento de 15 dias em hospitais privados do país custa o equivalente a 360 mil reais. “É um dos países da América Latina onde os medicamentos são quatro vezes mais caros que os mercados de outros países. Um caso de covid em um hospital privado na Guatemala pode custar 500 mil quetzais. Só pelo atendimento de mais ou menos 15 dias que estão dando aos pacientes. E existem pacientes que podem demorar muito mais para se recuperar”.

Além disso, o jornalista ressalta que o Governo do país deixou as prefeituras e a população à própria sorte. Dessa forma, o que impediu um agravamento da crise foi a atuação de alguns prefeitos e principalmente de lideranças indígenas, ancestrais e lideranças comunitárias, que através da organização popular permitiu que a população tomasse medidas de prevenção e contenção do contágio de covid-19. “Aqui na saúde comunitária dos povos indígenas, a saúde ancestral tem desempenhado um papel fundamental para parteiras, promotoras de saúde indígena, guias espirituais, guias que têm conhecimentos de medicina natural desde diferentes plantas foram aquelas que desempenharam um papel de linha de frente durante a pandemia”.

Município da Guatemala alerta população sobre Covid-19 | Foto: Johan Ordonez / AFP / CP

Para a mídia independente e comunitária, no caso do portal Prensa Comunitaria, Rivera conta que o trabalho se deu inicialmente através de muita pesquisa sobre o vírus, o uso de recursos públicos e a atividade dos hospitais públicos a nível nacional para relatar o que aconteceu e ainda acontece durante a crise. “Temos trabalhado muito para podermos refletir o que está acontecendo em todos os territórios em nível nacional, mas também principalmente onde está o sistema público de saúde, principalmente na capital”.

Diante desse cenário, o exercício da mídia independente e comunitária em solo guatemalteco se torna cada vez mais importante, ainda que perigosa na mesma proporção. Muitos jornalistas correm risco por simplesmente realizarem seu trabalho em áreas periféricas dominadas por interesses de grandes empresas, como afirma Rivera. “Ameaças, intimidação de ataques físicos ou assassinatos de radialistas comunitários ou jornalistas comunitários e indígenas. A presença de empresas nos territórios, portanto, tem atraído a implementação de mega projetos baseados no uso da violência e da corrupção para funcionar e, portanto, o trabalho dos jornalistas é mantido sob constante cerco, em permanente violação de direitos e sob o risco de qualquer coisa”.

Contudo, Nelton Rivera considera que há um avanço na comunicação independente, na pandemia as pessoas estão entendendo que elas mesmas podem ser quem conduz a comunicação alternativa. “Somos um instrumento, em muitos territórios é o povo, são os movimentos, as autoridades comunitárias que decidem fazer a comunicação. Assim, eles decidem investigar, documentar e relatar. Assim acontecem troca de experiências e também a tomada de decisões e a mobilização a partir de tudo o que gira em torno da comunicação alternativa. As pessoas se veem refletidas como atores principais no jornalismo. E fazer uma disputa das narrativas hegemônicas que o jornalismo tradicional teve por séculos. E na Guatemala esse é um dos maiores desafios”.

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