No Rio, pobres e favelados são os mais afetados por altas temperaturas 7 84

Em um dia de calor exorbitante no Rio de Janeiro, possivelmente você vai encontrar um vídeo circulando na web de alguém tentando fritar um ovo em alguma rua na região periférica da cidade. Ou vai ouvir alguém dizer de forma irônica: “O maçarico tá ligado!”, em alusão a sensação térmica. Qualquer sombra embaixo de uma árvore é um oásis. Nos ônibus, vale de tudo para tentar se refrescar: água, picolé, sacolé e até um mini ventilador que funciona com pilhas palitos.

No dia 25 de fevereiro de 2020, o sistema Alerta Rio, da Prefeitura do Rio de Janeiro, registrou uma temperatura de 37,7°C, às 12h30, na estação meteorológica em Santa Cruz, zona oeste da cidade. Minutos antes, a sensação térmica foi de 55,4°C, o maior recorde de calor no ano. Antes, o maior registro tinha sido de 54,8°C, no dia 11 de janeiro, também na estação Santa Cruz.

Temperaturas e sensações térmicas são uma marca do verão carioca, mas também podem ser afetadas pelas mudanças climáticas, ocasionadas pela queima de combustíveis fósseis, o descarte de lixo e o desmatamento, o que gera  grande quantidade de gases que causam o efeito estufa, fenômeno que torna o planeta mais quente. Em 2019, por exemplo, durante a primavera, as máximas mensais registradas pelo sistema Alerta Rio chegaram a marcas que pareceriam características do verão. Foram 41,6ºC em setembro (Irajá, zona norte), 39,9ºC em outubro (Guaratiba, zona oeste e Irajá, zona norte) e 41,8ºC em novembro (Santa Cruz, zona oeste). 

Os termômetros cariocas podem estar acompanhando a tendência do aumento da temperatura global, fenômeno que merece estudos detalhados. De acordo com a Agência Oceânica e Atmosférica Americana (NOAA), janeiro de 2020 foi considerado o período mais quente da história. Já a Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirma que a última década (2010-2019) registrou as mais altas temperaturas já obtidas. Desde os anos 80, cada década é mais quente que a anterior por causa dos níveis recordes de gases de efeito estufa que retêm o calor na atmosfera. O secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, avalia que na trajetória atual, o mundo caminha para um aumento de temperatura e espera por extremos climáticos nas próximas décadas.

Sentindo na pele

A estudante de Cinema Amanda Domingues, de 22 anos, mora em Bangu, na zona oeste da cidade. No dia em que a cidade registrou a maior sensação térmica do ano no bairro vizinho de Santa Cruz, ela manteve o ar condicionado ligado desde a tarde até a manhã do dia seguinte. “Como não posso deixar ligado o dia inteiro, as vezes eu vou caminhar no shopping e aproveitar o ar condicionado. Em casa, fico o dia inteiro com ventilador ligado e tomo vários banhos com água gelada ao longo do dia, apesar que tem hora que a água fica quente por causa do calor”, conta Amanda Domingues ao lembrar que para ir até a praia mais próxima de casa, na Barra da Tijuca, é necessário pegar até 4 ônibus.

O contato com a natureza é feito na Cachoeira do Mendanha, em Campo Grande e Cachoeira da Taquara, em Duque de Caxias, muito visitadas por moradores dessas regiões. Um levantamento feito em 2009 pela companhia de limpeza da cidade, a COMLURB, contabilizou 28.773 árvores em Bangu. Em 2015, o Plano Diretor de Arborização Urbana da cidade, apontou que faltava plantar mais de 23 mil árvores na região. Entre o período de 2007 a 2013, a Fundação Parques e Jardins do Rio de Janeiro realizou o plantio de 3.329 mudas no bairro.

Atualmente, a região ainda aparece como um dos bairros com menores percentuais de áreas verdes do município. A Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU) recomenda o plantio de pelo menos uma árvore por habitante, para que as pessoas possam ter bem-estar, lazer, isolamento acústico, entre outros benefícios.  Bangu tem 215 mil habitantes, o que representa aproximadamente uma relação de 7 pessoas por árvore. A quantidade de árvores deveria ser pelo menos 6 vezes maior.

Crianças se refrescam no bairro de São Cristóvão, para amenizar, a onda de calor que atinge o clima no Rio de Janeiro. Foto Fernando Frazão/Agência Brasil

A vegetação é um importante controlador da temperatura e da sua sensação. Para fazer a fotossíntese, as plantas capturam calor. Nesse processo, a água capturada pelas raízes das plantas evapora e isso diminui a temperatura ambiente. As árvores também fazem o sombreamento de locais que concentram muito calor e aquecem as superfícies, como as ruas de asfalto e as calçadas de cimento. Onde há sombras, as superfícies liberam menos calor de volta para o ambiente. 

Não à toa, as mínimas registradas pelo Alerta Rio são quase sempre no Alto da Boa Vista, região da cidade extremamente arborizada, onde fica a floresta da Tijuca, além do fator “altitude” que também contribui para o decréscimo da temperatura. 

A analista comercial Tatiana Marques, 46 anos, optou há 2 anos por morar no Jardim Botânico, na zona sul, por ser um lugar calmo e arborizado. O bairro tem dois pontos turísticos bastante arborizados da cidade: o Parque Lage e o Jardim Botânico. Somente em relação às árvores da área visitável do Jardim Botânico, são 7.761 espécimes, sendo, aproximadamente, 14 árvores por metro quadrado. Uma média de 2 pessoas por árvore no bairro levando em consideração apenas a área visitável do Jardim Botânico. Embora ela não sinta o calor excessivo no bairro, ela comprou dois ventiladores para amenizar o calor. “Aqui é bem diferente se compararmos com Copacabana, por exemplo, eu trabalho lá e sinto muito a diferença de temperaturas por ser totalmente abafado pelos prédios altos”, explica Tatiana Marques. 

As diferenças são nítidas ao percorrer os bairros de Bangu e do Jardim Botânico. O bairro do Jardim Botânico, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, contém um dos melhores IDH municipal, atingindo 0,959; enquanto Bangu, na zona oeste, obteve 0,742, em análise feita pelo Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil. De acordo com o IBGE, 18 mil pessoas vivem com renda média familiar no Jardim Botânico de R$ 6.098. Em Bangu, esse valor cai para R$ 653, cerca de 89% menor do que no Jardim Botânico. Ali vivem aproximadamente 95 mil pessoas, cinco vezes mais que no Jardim Botânico.

Uma via principal arborizada, a Rua Jardim Botânico, se estende por todo o bairro, fazendo a ligação com outros bairros vizinhos e de acesso à zona oeste da cidade. Diferente de Bangu, a maioria das moradias no Jardim Botânico são apartamentos em prédios que variam de três a dez andares, com exceção da região do Horto, que concentra casas mais antigas, datadas de 1800. Ao caminhar pelo  bairro, percebe-se que muitos moradores aproveitam as varandas para cultivarem plantas. Os condomínios buscam preservar as árvores que existem próximo aos portões. De acordo com a Prefeitura do Rio, o número de imóveis residenciais chegou a 7 mil em 2018, dez vezes a menos do que registrado em Bangu, com 70 mil imóveis residenciais.

Mapa termal, também conhecido como Temperatura da Superfície Continental

Em 2018, as temperaturas médias locais dos bairros dos entrevistados teve uma diferença de 11,3°C. No Jardim Botânico, a temperatura média local no ano foi 28,1°C, enquanto em Bangu, atingiu 39,4°C. Os mapas termais anteriores a 2018 podem ser vistos no Climatologia. (ver imagem abaixo de 2018)

Crédito da imagem de satélite: Climatologia/Dep. Geografia – UFRuralRJ

Cerca de 21 favelas estão distribuídas por Bangu, mas só 4 aparecem no Sistema de Assentamento de Baixa Renda (SABREN). Nesses espaços, as habitações têm baixa capacidade de dissipar energia  porque são confeccionadas com materiais de baixa resistência térmica, como analisou o pesquisador Andrews Lucena, do departamento de Geografia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em sua tese de Doutorado e outras publicações. Outras características como a falta de acabamento externo da casa e de ventilação agravam o estresse térmico. O pesquisador analisa que “é importante que as obras de infraestrutura e urbanização nos bairros periféricos, e favelas, contemplem a arborização como uma estratégia de mitigação ao estresse térmico”. 

Em uma cidade desigual como o Rio de Janeiro, as pessoas com melhores condições financeiras têm mais alternativas para o enfrentamento do calor e os efeitos são diferentes. É o que pensa Andréia Coutinho, coordenadora de comunicação do Instituto Clima e Sociedade e mestre em Relações Étnico-raciais, ao apontar que o combate ao calor também é uma questão de privilégio. “As políticas precisam ser vistas sob a ótica ambiental, econômica e social. Climatização adequada é uma medida de adaptação e resiliência. O conforto térmico ajuda a melhorar rendimento escolar, reduz picos de doenças, etc. O programa Minha Casa Minha Vida, por exemplo, tem muitas construções claustrofóbicas, com péssimas condições de ventilação, materiais que tornam as casas verdadeiras estufas”, analisa Coutinho.

Nos dias com altas temperaturas, o estresse térmico afeta Amanda Domingues de tal modo que provoca cansaço sem ela ter feito nada. “Esse calor extremo dá uma agonia porque você toma banho, fica na frente do ventilador, bebe muita água e não dá vontade de fazer nada. Me sinto sugada pelo calor. Ainda bem que estou de férias porque quando eu vou pra faculdade preciso pegar quatro transportes. É horrível porque o transporte no Rio de Janeiro não tem climatização”, lamenta ela. Em 2019, a Prefeitura do Rio autorizou o reajuste de passagem nos ônibus municipais de R$ 3,95 para R$ 4,05 sob acordo de que as empresas teriam de equipar ar condicionado em todos os carros até setembro de 2020. O Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio de Janeiro informou que já cumpriu a meta de 80% de coletivos climatizados na frota da cidade, entretanto, a climatização integral dos ônibus só será feita após o reajuste anual da tarifa.

“As políticas precisam ser vistas sob a ótica ambiental, econômica e social. Climatização adequada é uma medida de adaptação e resiliência.”

Andréia Coutinho, coordenadora de comunicação do Instituto Clima e Sociedade e mestre em Relações Étnico-raciais

O calor intenso também gera o aumento de doenças respiratórias, como sinusite, amigdalite, gripes em geral, asma e até pneumonia. A temperatura média do corpo é em torno de 36,5°C. Podem ocorrer riscos de morte caso a temperatura do corpo ultrapasse 42°C. As altas temperaturas podem ter consequências mais graves que as mais frias.. A intensidade do calor também provoca desidratação em crianças e idosos, que são a população mais vulnerável, segundo o Ministério da Saúde. Aumenta também o consumo de água e energia elétrica, devido ao uso do ar-condicionado, o que pode sobrecarregar a rede elétrica e ocasionar queda de energia por uso excessivo. A família de Amanda gasta R$ 800 por mês com a conta de energia por causa do uso contínuo de ar condicionado e R$ 200 com a conta de água. Isso representa 13% da renda familiar dela.

Já no caso de Tatiana, que mora no Jardim Botânico, as temperaturas amenas contribuem para o bem-estar dela. Portadora de rinite, ela descobriu a doença recentemente após perceber que o problema acontecia com a mudança de temperaturas na cidade. Ela optou por se tratar em casa por meios próprios ao invés de ir ao médico. Ela mora em uma rua que fica há 10 minutos de uma trilha no Parque Nacional da Tijuca. No verão, a conta de energia da analista comercial custa 3 vezes mais do que o comum em outras épocas do ano.

O Rio nas próximas décadas

As projeções das mudanças climáticas já vêm sendo analisadas desde 1996 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Os dados apontam para cenários que poderão acontecer através de diferentes níveis de concentração de gás carbônico, um dos causadores do efeito estufa. Estima-se que a temperatura máxima diária será de 35,5°C entre 2011 e 2040, subindo para 37°C de 2041 a 2070 e atingindo 38,6°C a partir de 2071. Os pesquisadores afirmam que as ondas de calor vão durar mais tempo. As ondas de calor acontecem no período de alguns dias com temperaturas máximas superiores à média usual para a época.

Cidade de inspiração para os governantes cariocas, Medellín, na Colômbia, vem adotando estratégias para regular as altas temperaturas. As autoridades da cidade colombiana transformaram 18 ruas e 12 hidrovias em corredores verdes, o que permitiu reduzir o acúmulo de calor na infraestrutura urbana. Essa experiência deve ser aplicada no Rio de Janeiro em 2020. Segundo o coordenador-geral do Escritório de Planejamento, Daniel Mancebo, a prefeitura está mapeando as coberturas arbóreas da cidade e identificando as áreas que possuem menores e maiores sombreamento para decidir onde serão implantados os corredores verdes no Rio. A Pavuna é um dos bairros identificados como prioritário na criação de corredores verdes. “Nós temos um estudo bem detalhado que mostra essas áreas e estamos classificando as áreas mais prioritárias para criarmos as ilhas de frescor urbano que é um conceito que outras cidades vem trabalhando para reduzir as sensações de calor”, explica Daniel Mancebo.

Para chegar nos territórios mais vulneráveis, como favelas e periferias, a prefeitura decidiu ouvir a comunidade escolar. De acordo com a Secretaria Municipal de Educação, existem 1.540 unidades escolares em funcionamento, atendendo mais de 620 mil alunos. “Nós estamos fazendo um grande esforço de ir a esses territórios de todo o município e ouvir a comunidade escolar. Os responsáveis vão discutir esses assuntos relacionados a sustentabilidade, ao desenvolvimento sustentável, ao planejamento da cidade para colocar as contribuições. Então, nesse sentido, nós não estamos tendo muitas dificuldades. Pelo contrário, é uma oportunidade que temos de ouvir diferentes áreas da cidade”, conta Daniel Mancebo.

Outro modo de tentar trazer a população para discutir o planejamento da cidade foi a criação da plataforma Participa.Rio, onde os cidadãos podem dar sugestões para a construção do Plano de Desenvolvimento Sustentável do município. O plano reúne compromissos e documentos estabelecidos nos últimos 20 anos para a construção do futuro do município, alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas.

*Edição de texto por Jéssica Mota (Énois). Infográfico por Michel Silva. Fotos: Hector Santos e Fernando Frazão

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Enem e Periferia: as dificuldades de avançar nos estudos durante a pandemia do novo coronavírus 0 152

*Reportagem colaborativa de Rick Trindade e Mariana Assis

Para muitos jovens periféricos ou de favela, ingressar em uma universidade é uma chance de ocupar novos lugares, mas para alguns ainda é visto como um lugar difícil de ser alcançado. A maioria desses jovens vem de uma realidade na qual a educação de qualidade nem sempre se faz presente, e depois de enfrentarem dificuldades no Ensino Médio, ou até mesmo aqueles que estão longe de uma sala de aula há muito tempo, enxergam nos cursinhos pré-vestibulares comunitários um caminho para a realização de seus sonhos. E em tempo de quarentena, alguns planos precisaram ser alterados ou adiados.  

Em 31 de dezembro de 2019, foi identificado em Wuhan, na China, o primeiro caso de infestação pelo novo coronavírus. O vírus começou a se disseminar pelo mundo em escalada, atingindo países do continente asiático e europeu. A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a doença, em março deste ano, como pandemia. A primeira morte no país ocorreu no mesmo mês, em São Paulo. Desde então, o número de casos e mortes só vem aumentando.

Um levantamento feito pelo G1 junto às secretarias municipais e estaduais de saúde, afirma que nesta  segunda (1º), já foram registradas quase 30 mil mortes e mais de meio milhão de casos confirmados. O Brasil já é o segundo maior país do mundo em número de casos da doença, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, que registra nesta segunda (1º), 1.787.680 casos e 104.396 mortes, de acordo com a atualização de hoje do CDC (Centro para o Controle e Prevenção de Doenças americano). 

Assim que o calendário do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2020 foi divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) em março, e já enfrentando os desafios impostos pela Covid-19, entidades da sociedade civil começaram a se articular pedindo o adiamento das datas apresentadas (prova impressa nos dias 1º e 8 de novembro; digital, 11 e 18 de outubro). 

Organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), dezenas de mobilizações contra à data ganharam protagonismo nas redes sociais, alcançando grande expressão no dia 15 de maio quando houve um tuitaço. Além disso, os grupos entraram com ações na justiça e fizeram um abaixo assinado, que já contabiliza mais de 350 mil assinaturas, o  Adia Enem

Uma das principais argumentações era de que a manutenção da prova indicaria um desrespeito por parte do Ministério da Educação, visto que nem todos os alunos teriam condições de continuar os estudos. Dados do infográfico Desigualdade feito pela Casa Fluminense apontam que, dos 5,5 milhões de candidatos que realizaram o Enem em 2018, menos da metade tinha computador em casa. Quando esta parcela é recortada aos candidatos de escolas públicas e sem computador, a diferença atinge quase 90%.  Segundo dados levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca mais de 45 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à internet. 

Os pré-vestibulares comunitários em tempos de pandemia

Logo quando o isolamento social foi implantado, a direção do cursinho popular da Rede Emancipa, em Belém, no Pará, Estado que, segundo a Secretaria Municipal de Saúde do Pará, já somatiza mais de 40 mil casos do novo coronavírus, e 3 mil mortes, suspendeu as atividades presenciais e adotou, após pesquisa interna, aulas via WhatsApp. O aplicativo de mensagens foi a plataforma indicada como a que possivelmente melhor atenderia aos alunos. 

Para Hamilton Nogueira, 33, professor do cursinho esse novo método tem sido uma experiência nova para a maioria dos professores, poucos já haviam dado aula dessa forma. A “novidade” causou impacto, e por questão de hábito, até agora ele não se adaptou com o modelo de ensino online. “A maioria dos professores estão acostumados com aquele vínculo mais próximo, aquele vínculo afetivo, então quando você muda isso drasticamente, principalmente pra quem não tem essa experiência, pela distância, você sente sim um estranhamento”, diz ele. 

Os alunos também sentiram o impacto negativo das aulas via WhatsApp, a maioria ainda não conseguiu se adaptar. “O nosso público vem de uma realidade social às vezes com muitos problemas familiares. É muito difícil a concentração, sem falar na questão do material, então nós temos que sempre estar pensando estratégias todos os dias pra poder motivá-los”, afirma o professor, que dá aulas de Literatura e Redação.

Clarissa Andrade, 26, é aluna do cursinho, ela destaca que nesta nova realidade, não ter essa relação próxima acentua os desafios na preparação para o vestibular. Agora, estudando em casa, precisa ter disciplina redobrada e lidar com as eventuais interrupções, já que divide a casa em que mora com outras nove pessoas. Mas as dificuldades não se encerram aí. 

A renda principal de sua família provém de trabalhos informais alterados neste contexto pandêmico. De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do primeiro trimestre deste ano, o desemprego atingiu 12,8 milhões de pessoas, cerca de 900 mil a mais se comparada ao mesmo período do ano passado. O auxílio emergencial  no valor de R$ 600 ajuda, mas não deixa de provocar receios quanto ao futuro. Clarissa comenta que o emocional é inevitavelmente abalado, o que dificulta a rotina de estudos. 

Assim como boa parte de seus colegas de classe, Clarissa já terminou o Ensino Médio há mais de dez anos e sente que as trocas que a sala de aula proporcionam não só enriquecem como também dão força para continuar. Antes da pandemia, a sala de Clarissa tinha 108 alunos;  depois que as aulas foram para o WhatsApp, pouco mais de seis interagem frequentemente no grupo. “Nós tivemos uma evasão muito grande justamente por nem todos nós termos acesso à internet. Então, isso dificultou muito”, conta ela que deseja cursar Medicina.

Enquanto o Emancipa, em Belém, decidiu continuar suas atividades, isso não foi possível para o Vila Isabel Vestibulares (VIVE), localizado no Morro dos Macacos, Zona Norte do Rio de Janeiro. O projeto funciona há mais de 20 anos e o valor arrecadado, a partir de mensalidades simbólicas, é revertido em compra de materiais aos alunos e para as atividades extraclasse, como passeios culturais e visitas à universidades.  

Amanda de Oliveira, 25, professora de Biologia, afirma que desde quando foi estabelecida a quarentena, as aulas tiveram que ser interrompidas. Houve um questionamento por parte de alguns alunos se as aulas continuariam de forma online. Discutido em reunião e levado para professores e alunos, eles chegaram a conclusão de que, de forma geral, os alunos não conseguiriam acompanhar as aulas online, já que nem todos possuem computador em casa ou uma internet de qualidade para baixar vídeos ou assistir aulas ao vivo.

“O que a gente  faz hoje, é tentar prestar de alguma forma uma assistência, então a gente tá aberto a comunicação com eles, de vez em quando um aluno ou outro aluno diz no grupo que está com dúvida em alguma coisa ai o professor vai lá, ajuda e explica, às vezes eles pedem alguns materiais, a gente envia, tudo a partir das demandas deles”, explicou Amanda. 

30 ou 60 dias, é o ideal? 

Para a professora Amanda, o ensino à distância só é possível desde que os alunos tenham os dispositivos necessários para acessar o conteúdo. Com a pandemia, tudo fica ainda mais difícil, afetando a saúde mental e física de quem não terá a oportunidade de manter os estudos. ”Pensar em que esses alunos deveriam estar estudando é descontextualizar a realidade deles , a realidade física, a realidade de onde moram, a realidade política”, pontua.

De acordo com Iago Montalvão, Presidente UNE, o não adiamento das provas poderia representar um impedimento aos alunos de baixa renda e a juventude favelada, preta, indígena e quilombola de acessarem esse espaço. ”Com o Enem mantido na data e sem as aulas, esses estudantes não têm as mesmas condições de estudar em casa, então estaria promovendo uma elitização do acesso à universidade”, complementa. 

Após forte pressão, o Senado Federal aprovou, no dia 19 de maio, o projeto de lei   1.277/2020 que prevê “a prorrogação automática de prazos para provas, exames e demais atividade para acesso ao ensino superior em caso de reconhecimento de estado de calamidade pelo Congresso Nacional ou de comprometimento do regular funcionamento das instituições de ensino do país”. A PL segue para votação na Câmara dos Deputados. Entretanto, no dia seguinte, O INEP divulgou nota em que anuncia que o Enem será adiado entre 30 a 60 dias, a ser decidido por meio de enquete no Página do Participante, em junho. 

Professores e alunos dos pré-vestibulares aqui citados viram o adiamento como uma conquista, mas julgam que 30 ou 60 dias ainda não é um cenário ideal, se a realidade em que vivem for levada em conta. Acreditam que a vitória no Senado tenha sido importante, mas que a pauta pelo um adiamento mais extenso continua. O preparo virtual não contempla todos os estudantes que vão prestar o Enem e, por isso, é necessário uma data que leve as diferenças de acesso em conta.

Para Brenda Barcellos, 22, moradora do morro da Serrinha e estudante do VIVE, o Enem não é uma prova que distribui conhecimento por igualdade. A jovem teme que o adiamento da data não seja suficiente. “Mostra uma clara materialização que há na educação no Brasil, porque os conhecimentos que são cobrados nas provas não são distribuídos de maneira igualitária no Ensino Médio público”, destaca Brenda que não teve aulas de química, física e geografia na escola.

Brenda, no entanto, é otimista. Conta que é preciso olhar para a história e se encorajar a partir da luta dos ancestrais. “Isso vai passar, nós vamos conseguir acessar esses espaços seja em 2021 ou 2022, porque toda a nossa história é pautada em resistência, em sangue. Em 400 anos de escravidão não seria fácil de reverter isso agora, não desistimos até agora, então não vai ser esse governo que vai fazer a gente desistir”. 

Questionamos os motivos pelos quais o INEP adiou as datas das provas e inscrições, por que essas datas não acompanham o calendário escolar e se tem havido conversas com organizações estudantis. Como resposta, o INEP limitou-se a dizer:  “As informações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 estão sendo divulgadas no portal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).”

O que você precisa saber sobre o ato #VidasNegrasImportam 2 66

O ato #VidasNegrasImportam, organizado pelo Movimento de Favelas do Rio de Janeiro, realizado no domingo (31/5) não é só mais uma manifestação. É o estopim para que as favelas não sejam mais alvos de operações policiais sem fundamento.

Os dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública traz preocupações que são antigas para quem nasceu e vive nas favelas do Rio de Janeiro. Em abril de 2020, a polícia matou 43% a mais do que em abril do ano passado, de acordo com análise feita pelo Observatório da Segurança.

No município de São Gonçalo, região onde o menino João Pedro, de 14 anos, foi assassinado durante uma operação conjunta da Polícia Federal e Civil, concentra 48,13% das mortes.

Já na área do 41°BPM, responsável por 15 bairros na zona norte do Rio, e onde o jovem Iago Cesar, de 21 anos, foi morto um dia antes de João Pedro, foi responsável por 58% das mortes ocorridas na área do batalhão.

Manifestantes seguram cartazes com frases sobre a realidade nas favelas. Fotos: Rithyele Dantas

Além de se preocuparem com possíveis invasões de policiais em suas casas, os moradores também precisam ficar atentos pelo que vem pelo ar. Segundo o laboratório de dados sobre violência armada no Rio de Janeiro e Recife, Fogo Cruzado, somente em 2019, houve 23 operações policiais com helicópteros sendo usados como plataformas de tiros. Ao todo, 37 pessoas foram baleadas nessas situações: destas, 27 morreram.

A manifestação é em protesto pelas pessoas assassinadas só neste período de pandemia da Covid-19. No estado do Rio de Janeiro, a polícia matou 606 pessoas em 4 meses deste ano, sendo 290 em março e abril, durante o isolamento social ordenado pelo poder público. 43% a mais do que no mesmo período do ano passado. Além disso, no dia 30 de maio, mais um jovem, Matheus Oliveira, de 23 anos, foi assassinado pela polícia nos acessos ao Morro do Borel, na zona norte do Rio.

Segundo um amigo de Matheus, eles estavam em uma moto voltando pra casa quando foram abordados por policiais que estavam na rua e se assustaram, atirando contra os dois. Matheus foi atingido na cabeça e faleceu no local. Ele trabalhava como barbeiro, motorista de aplicativo e era mototaxista. Não tinha operação policial na hora dos disparos.

Morrer por Covid-19 ou tiro de fuzil

Segundo os organizadores do ato, nem mesmo na maior crise sanitária do novo século que diversos países estão sofrendo com o novo coronavírus, as polícias do Rio deixaram de matar a juventude negra e pobre das favelas e periferias. As recomendações em todo o mundo é resguardar as vidas, mas a regra não serve para governos que já têm em suas estruturas práticas racistas e genocidas.

Na última semana, um caso que ocorreu nos EUA ganhou repercussão internacional. “Eu não consigo respirar!” foram as últimas palavras que George Floyd teve forças para dizer, enquanto um policial branco pisava sob o seu pescoço contra o asfalto. O episódio, que os negros de todo o mundo conhecem, ocorreu durante uma abordagem policial no Estado de Minnesota, nos Estados Unidos. Imagens dessa triste cena viralizaram nas redes sociais e despertaram ondas de protestos em diversas regiões do mundo.

“Aqui no Brasil, a população negra vive sob o jugo do braço armado do Estado, que age de forma genocida, atuando com uma política de morte contra os negros e favelados. No Rio, essa política fica bem explícita quando vemos o Estado entrando com o seu poderio bélico nas favelas, e não com serviços e direitos básicos”, explicam os organizadores do ato em uma carta.

Exemplo disso são as ações de solidariedade aos mais vulneráveis durante a pandemia do coronavírus, que foram frequentemente interrompidas por operações policiais. O Estado não entrou com alimentos e sim, com a morte, deixando corpos no chão.

#VidasNegrasImportam surgiu porque é necessário dar um basta a essa política que tira vidas. A principal exigência é o fim das operações policiais nas favelas para que possam freiar o genocídio negro e o fim da militarização da vida.

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