Polícia Civil diz que não há investigação sobre “piscinas do tráfico” que Jornal Meia Hora diz que “teriam” sido doadas pelo tráfico 1 42

Não existe investigação sobre a procedência das “piscinas suspeitas da Maré” que ilustraram a capa do jornal carioca Meia Hora no último domingo (21.01). Ou seja, a suposição feita pelo jornal com base em uma foto antiga que ninguém sabe a autoria – de que o “tráfico teria colocado área de lazer para crianças no meio da rua na Nova Holanda” – é, além de irresponsável, sem embasamento em investigações policiais.

“Naturalmente houve apuração”, disse o editor-chefe do Meia Hora, Henrique Freitas, ao Favela em Pauta, sobre a capa do Jornal. Ele afirmou ainda que “a denúncia está sendo investigada por autoridades policiais”. Mas não é o que diz a Polícia Civil. Em nota enviada ao Favela em Pauta, o órgão diz que “os agentes da Unidade tomaram conhecimento dessa denúncia pela imprensa e partir daí, irão iniciar as investigações para saber se estas informações são fidedignas”. Isso significa que embora haja denúncia, a investigação ainda não começou.

Fato novo?

A fotografia foi publicada pela primeira vez na página Favela Nova Holanda e não é recente (é de quando?). O Favela em Pauta não localizou a autoria da foto, e parece que o Meia Hora também não, já que não dá o crédito da imagem. E nem a polícia, já que a investigação sobre o fato ainda não começou.

Os administradores da página comentaram o episódio de racismo e preconceito de classe difundido nas redes sociais. “Os jornais que publicaram este tipo de matéria poderiam pelo menos tentar se aprofundar mais sobre a determinada informação que passa ao seu público, pois é verídico que as piscinas foram compradas pelos moradores da nossa comunidade”, postaram.

Edição dominical do Meia Hora, publicada no dia 21/01/2018.

A capa gerou uma onda de críticas de moradores de favelas sobre como a imprensa tradicional retrata a vida de milhões de pessoas que vivem nestas áreas.

O morador da Nova Holanda, Dieggo Lira, contestou a manchete do jornal em um post na página Maré Vive. “Essa segunda piscina é lá de casa e não teve R$ 1 real do tráfico, esses merdas tem que superar a frustração de que um pobre não pode ter piscina. Vai ter piscina sim e se falar muito eu compro um mini tobogã”, ironizou Lira.

A capa do Jornal foi replicada em matéria online do jornal O Dia, do mesmo grupo. Diante da repercussão negativa a matéria foi editada e a o nome do repórter que assinava o texto, retirado.

Henrique Freitas foi questionado ainda sobre a falta de falas de moradores da Maré na matéria. Ele se limitou a dizer que moradores foram procurados para comentar a denúncia, mas não autorizaram suas declarações por medo de retaliação. “Na edição de hoje há uma série de declarações também colhidas nas redes sociais de moradores favoráveis às piscinas. E, da mesma maneira que foi feito na edição de domingo, suas identidades estão protegidas”, concluiu.

Apesar da dificuldade que o editor diz ter enfrentado para encontrar moradores dispostos a falar, muitos se pronunciaram nos posts do jornal e se juntaram para organziar um “Piscinaço no Meia Hora”, marcado para o próximo domingo (28), entre 11h e 18h, na Lapa, como uma forma de repúdio à capa do Meia Hora. Os manifestantes prometem montar piscinas de plástico em frente a sede do jornal.

Responsabilidade da Imprensa

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ) tem também a função de apurar denúncias quanto a erros e equívocos cometidos na prática profissional. Sobre os questionamentos sobre o Meia Hora, o SJPMRJ disse que a diretoria “entrou em contato com o jornal Meia Hora, que nega ter havido erro de apuração. Segundo a direção do veículo, a matéria foi baseada em denúncia que está sendo apurada na 21ª DP. O jornal também alega ter colocado, na matéria, depoimentos dos próprios moradores publicados nas redes sociais. Além disso, o repórter do Meia Hora não faz qualquer afirmação na reportagem, sempre utilizando o verbo no infinitivo”.

O Grupo Ejesa (Empresa Jornalística Econômico S.A.) é proprietário do jornal Meia Hora e O Dia. Conhecido por ser um tablóide policialesco, o Meia Hora tem um setor de apuração e filtra informações do O Dia. Há uns anos o jornal tinha um caderno chamado Comunidades no qual era dedicado a publicar matérias positivas sobre favelas, e que acabou durante uma crise que quase fechou o jornal. Menos de 30% do Grupo Ejesa são detidos pelo grupo português Ongoing, limite constitucional para a participação estrangeira no capital das companhias brasileiras de comunicação.

Mulheres negras marcam posição em diversos atos do 8M pelo país 0 10

O Dia Internacional de Luta das Mulheres promete um momento histórico e decisivo na democracia recente do Brasil. Dezenas de manifestações estão programadas para os dias 6, 8 e 9 de março em diversas cidades do país.

Os atos vão acontecer em praças, ocupações por moradia, na frente de sedes da defensoria pública, em praias e outros tradicionais pontos de luta popular por direitos e em defesa da democracia.

No Rio de Janeiro, a concentração será na praça da Candelária, no dia 9, próximo ao local onde a vereadora negra Marielle Franco foi assassinada em 14 de março de 2018. O ato tem como mote ‘Mulheres Contra Bolsonaro por Nossas Vidas, Democracias e Direitos, por Justiça a Marielles, Claudias e Dandaras.

“As diversas organizações e movimentos independentes de mulheres negras, lá atrás, já vinham denunciando que a pauta apresentada pelo governo [do presidente Jair] Bolsonaro, do ponto de vista tanto econômico, quanto político para a Segurança Pública, era uma pauta que exterminaria as mulheres negras. Não é a toa que deixamos muito nítido as mortes de mulheres negras na nossa consigna deste ano”, diz Luka Franca, umas das organizadoras do 8M.

Em São Paulo, o bloco da Marcha das Mulheres Negras fará parte dos protestos que também representa uma continuidade da luta do “Ele Não” iniciada em 2018. O extermínio da juventude negra e o aumento exorbitante do feminicídio de mulheres negras servem como estopim para a discussão profunda do feminismo.

“Com essa retirada de lugar de um feminismo universalizante, que é branco, que é hétero, cis-normativo, a gente vem conseguindo desconstruir e avançar dentro dos processos de mobilização”, disse Luka.

Este ano, como aconteceu em edições anteriores, as mulheres negras vão marcar uma posição política contundente nos atos.

“Alguns movimentos têm muito o que aprender com nós mulheres, porque mesmo nas nossas diferenças e diversidades buscamos, e normalmente encontramos, uma unidade. Em 2018, o 8M teve pela primeira vez as mulheres negras e indígenas na frente. Foi muito importante. A ideia é que isso se repita em 2020”, disse Juliana Gonçalves, umas das organizadoras da Marcha das Mulheres Negras em SP.

Confira a lista dos atos por todo o país:

Nordeste

08.3 – Sergipe, Aracajú, 9h, no Arco da Orla
08.3 – Alagoas, Maceió, 14h, em Frente ao Iate Clube
08.3 – Rio Grande do Norte, Natal, 8h, na praça das Flores
08.3 – Bahia, Salvador, 9h, no Cristo da Barra
08.3 – Paraíba, João Pessoa, 15h, no busto de Tambaú
08.3 – Ceará, Fortaleza, 13h, no centro do Dragão do Mar

Norte

08.3 – Tocantis, Palmas, 7h, na feira da Alreny I
08.3 – Pará, Belém, 9h, na escadinha da estação das Docas
06.3 – Roraima, Boa Vista, 9h, em frente ao INSS

Sudeste

08.3 – São Paulo, São Paulo, 14h, no Masp
08.3 – Minas Gerais, Belo Horizonte, 14h, na ocupação Pátria Livre
09.3 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 17h, na praça da Candelária
06.3 – Espírito Santo, Vitória, 15h, em frente à sede da Defensoria Pública
08.3 – Espírito Santo, Vitória, 15h, no parque Moscoso

Centro-Oeste

06.3 – Goiás, Goiânia, 15h, na Faculdade de Educação, setor Leste universitário

Sul

08.3 – Paraná, Curitiba, 9h, Parolin.

Texto / Juca Guimarães | Edição / Simone Freire | Imagem / Tiago Zenero/PNUD Brasil

Abraça o papo: apoie o Favela em Pauta

#MarçoPorMarielle começa com inauguração da Casa Marielle 0 17

Inauguração Casa Marielle

Há poucos dias do Dia Internacional da Mulher (8/3), o Instituto Marielle Franco inaugurou no dia 1/3, a Casa Marielle, no Largo de São Francisco da Prainha, na Saúde, região central do Rio. O espaço é uma iniciativa da família de Marielle Franco através de uma campanha de financiamento coletivo lançada pelo instituto. Mais de 5 mil pessoas apreciaram a abertura da casa sendo recepcionadas por um cortejo carnavalesco.

A tag #MarçoPorMarielle representa um mês de luta para cobrar por quase 2 anos sem respostas sobre porquê e quem mandou matar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes. O instituto está mapeando indivíduos e coletivos interessados em realizar ações por um país mais justo e um futuro diferente para as próximas gerações. É possível cadastrar seu coletivo clicando aqui. Em breve será lançado um mapa com todas as ações que ocorrerão em março pelo mundo inteiro.

O mês de março é de luta das mulheres e da família de Marielle, mas quem esteve presente no evento de domingo ou pôde acompanhar pela internet, viu que foi um primeiro de março recheado de amor para celebrar a memória e o legado da vereadora. A celebração recebeu diversos artistas e teve início às 15h30 e ocorreu até o fim da noite de domingo. Mesmo horário da exposição permanente do acervo pessoal e político da vereadora que está aberta à visitação.

Muitas pessoas registraram nas redes sociais momentos que transmitem a emoção e a grandeza que a Casa e o legado de Marielle representam. A exemplo disso, no tuíte abaixo dá pra sentir o momento que o cortejo chega ao Largo São Francisco da Prainha, 58, endereço da Casa Marielle na Saúde, Centro do Rio. O instituto aproveitou o momento para arrecadar alimentos para famílias atingidas pelas fortes chuvas e falta de investimento público na prevenção de enchentes na cidade.

A abertura da Casa Marielle é a primeira etapa de cinco, todas detalhadas na campanha de financiamento coletivo do Instituto Marielle Franco. A campanha ainda corre e precisa de apoio para possibilitar realizações ainda maiores, como fortalecer jovens negras, LGBTs e periféricas de todo o Brasil, através da Escola Marielles, orientando essas mulheres para lidarem com os desafios da luta por uma sociedade mais justa e menos desigual. Para doar basta acessar o site https://www.apoie.institutomariellefranco.org/.

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Texto: Renato Silva / Edição: Michel Silva / Foto: Mayara Donaria

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