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No centro do poder político, em Brasília, Mulheres Indígenas de todos os biomas se reúnem para demarcar suas existências e reivindicar o direito ao território ancestral

As mulheres indígenas estão em marcha há 523 anos. E é em defesa da ancestralidade, das raízes que aqui se firmam muito antes do Brasil ser Brasil que a Marcha das Mulheres Indígenas nasce. O surgimento oficial foi em 2021. As mulhere buscam pelo respeito à existência e aos seus direitos.

As mulheres indígenas de vários povos se encontram do dia 11 a 13 de setembro, em Brasília (DF), no Complexo Cultural Funarte, para a terceira edição, com o tema “Mulheres Biomas em Defesa da Biodiversidade pelas Raízes Ancestrais”. 

Fortalecer o debate sobre o direito ao território, tendo como foco as mulheres indígenas, se torna necessário frente à ameaça do Marco Temporal – tese que limita as demarcações de Terras Indígenas no Brasil até a data-limite de 1988 –, que retornará a julgamento no próximo dia 20 de setembro.

A mobilização conta com mesas de conversa, desfiles e momentos culturais e é organizada pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), visando reunir mais de cinco mil mulheres. A marcha se organiza em prol de potencializar a agenda política indígena, fortalecer o corpo território das indígenas e colocar em pauta os desafios que assolam a vida dessas mulheres.

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Foto em destaque: Leonardo Milano/Jornalistas-Livres.

“Não estamos marchando apenas por nós mesmas, mas pelas inúmeras mulheres indígenas que foram silenciadas e marginalizadas ao longo da história. Nossa mensagem é clara: é hora de encerrar o ciclo de discriminação e reivindicar nosso lugar de direito na sociedade”, afirma a Anmiga em seu chamado para a Marcha.

“A luta pela mãe terra é a mãe de todas as lutas!”

Segundo dados do Instituto Igarapé, entre 2000 e 2020, houve um aumento de 167% nos números de feminicídio de mulheres indígenas. Só no Mato Grosso do Sul, estado com a maior população indígena do país, localizado no bioma Cerrado, os casos de violência contra a mulher indígena cresceram 495% em um período de seis anos

Há, ainda conforme o estudo, indícios de subnotificação nos casos: entraves como a distância entre as comunidades e delegacias, a língua (17,5% dos indígenas do Brasil não falam português) e a discriminação impedem frequentemente mulheres de registraram denúncias. Segundo dados da ONU, uma a cada três mulheres indígenas sofrem com violência sexual ao longo da vida. 

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Mobilização durante a II Marcha das Mulheres Indígenas no ano de 2021 (Foto: Leonardo Milano/ Jornalistas Livres).

Leia também: Originárias do Cerrado: pelo direito de ser e estar no território

Mesmo sendo as que se encontram em maior vulnerabilidade e violação de direitos fundamentais, as mulheres indígenas ainda são linha de frente quando o assunto é proteger a biodiversidade dos territórios. São elas as que mais ficam na terra, as que melhor se atentam às mudanças climáticas e as que sentem essas alterações no seu cotidiano cultural: de busca por alimento e de cura com as plantas medicinais. 

“Exigimos acesso a cuidados de saúde de qualidade, educação e oportunidades econômicas. Lutamos pela proteção da terra e recursos naturais, que vêm sendo explorados por muito tempo. Defendemos o fim da violência contra as mulheres indígenas, um problema generalizado que tem atormentado nossas comunidades há gerações.”

Violar a terra é violar o corpo-território das mulheres indígenas. Em um mundo em que 5% da população é indígena, são elas e eles quem preservam 80% da biodiversidade do planeta. 

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Cartaz oficial da mobilização. Reprodução ANMIGA.

Confira a programação completa da Marcha III Marcha das Mulheres Indígenas.

Foto em destaque: Mobilização durante a II Marcha das Mulheres Indígenas em setembro de 2021 (Foto: Alass Derivas/ Cobertura Colaborativa).

Edição: Igor Soarez.

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