Quanto e quais favelas receberão as promessas de ações sociais do Rio 0 38

O ministro da Defesa, Raul Jungmann anunciou em julho de 2017 que as favelas do Rio de Janeiro iriam receber uma série de ações sócio-educativas para combater o crime organizado na cidade. Seis meses depois, com dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, o Favela em Pauta mostra como será executado o pacote de propostas e soluções através do Plano Nacional de Segurança no estado.

O Rio de Janeiro é o primeiro Estado a receber as ações integradas do Plano de Segurança Nacional para combater a criminalidade. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), foi criado um Plano Emergencial com o objetivo de recuperar e fortalecer políticas públicas e equipamentos sociais do Estado e do Município em favelas vulneráveis prioritárias. Dessas discussões surgiu o Programa Emergencial de Ações Sociais para o Estado do Rio de Janeiro e seus Municípios. Segundo o MDS, o programa visa “restituir aos moradores das regiões afetadas o amplo acesso aos bens e serviços públicos da área social, de maneira a resgatar a cidadania e os vínculos sociais, familiares e comunitários.”

O programa atuará na ampliação de políticas sociais de proteção social básica e especial, atenção à saúde, oferta de atividades educacionais, formação e qualificação profissional, atividades culturais, artísticas, esportivas e de lazer. Também há previsão de atuação na proteção de direitos humanos e garantia dos direitos das mulheres.

Para administrar todas essas promessas, foi criado um Comitê- Executivo composto pelos seguintes órgãos: Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), que o coordenará; Secretaria de Governo da Presidência da República; Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão; Ministério da Educação; Ministério da Saúde; Ministério da Defesa; Ministério da Cultura; Ministério do Esporte; Ministério da Justiça e Segurança Pública e Ministério dos Direitos Humanos.

Foram totalizados R$ 157 milhões para as ações do Plano Emergencial por meio do orçamento federal de 2017. O objetivo é beneficiar cerca de 50 mil crianças e adolescentes de 6 a 17 anos de diferentes favelas no estado. Esse recurso é oriundo da abertura de créditos orçamentários de cada órgão envolvido no Comitê-Executivo. A verba será aplicada a partir dos Planos de Trabalho, de forma a garantir os meios necessários para as ações sócio-educativas.

Cada ministério terá autonomia nos repasses ao Estado e Municípios. Por exemplo, o Ministério do Desenvolvimento Social fará repasses de R$ 42 milhões por meio do Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS).

Já o Ministério da Defesa (MD) aplicará a verba de R$ 30,2 milhões diretamente por meio das Organizações Militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. O número de beneficiários do programa “Forças no Esporte” será ampliado para atender a faixa etária de 12 a 18 anos no contraturno escolar. O objetivo será reduzir a violência urbana com desenvolvimento de atividades esportivas educacionais e alimentação em organizações militares.

O Ministério do Esporte patrocinará as ações por meio de Termo de Execução Descentralizada para a Universidade Federal Fluminense e também fará repasses ao município por meio de convênios para a ampliação dos projetos pilotos “Esporte e Cidadania para Todos” e “Práticas Corporais de Lazer, Lutas e Artes Marciais”, além do programa Luta pela Cidadania.

Responsável pelo terceiro maior orçamento do Plano Emergencial, o Ministério da Educação repassará cerca de R$ 35,4 milhões por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola e oferta da Bolsa-Formação no âmbito do PRONATEC. Em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), um recurso de R$ 2,5 milhões será enviado para identificar potenciais alunos da educação básica regular das redes municipal e estadual do Rio de Janeiro (capital e região metropolitana) que estão fora da escola, para que eles sejam matriculados e voltem a frequentar as aulas.

A Secretaria Nacional de Juventude e o Ministério da Justiça e Segurança Pública não detalharam como serão feitos os repasses ao Estado e aos municípios.

O presidente da república, Michel Temer, realizou um discurso no fim do ano passado durante a cerimônia de lançamento do Programa Emergencial, no Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (CEFAN), para exaltar sua aliança política com governantes cariocas. “Eu quero também, embora tenha um discurso escrito aqui, Pezão e todos os oradores, eu estou inspirado pelas palavras daqueles que aqui discursaram. E ao discursarem, eu sempre procuro encontrar uma palavra chave para solenidade de que participo. E acho que a palavra chave aqui é integração.”, disse Temer.

O Programa Emergencial de Ações Sociais para o Rio de Janeiro tem investimento total de R$ 157 milhões. Foto: Marcos Corrêa/PR

Em entrevista a emissora CNT, o presidente da Federação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro (FAFERJ), Rossino de Castro, avalia que o programa é mais um projeto político visando as eleições de 2018. “Sempre que na época de eleição, eles vem com esse programa fraco que não resolve, é paliativo para as comunidades. E a gente não quer paliativo. A gente quer coisas concretas, a gente quer o social porque o social é um trabalho que ajuda muito a comunidade. Ajuda a combater a violência, ajuda a empregar os pais de famílias que estão dentro das comunidades a toa sem fazer nada. Mas infelizmente sem esse social a violência cresce dia a dia”, lamenta Rossino.

A prioridade do Programa Emergencial, com base nos dados do Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, são as favelas localizadas em parte da zona norte e oeste da cidade do Rio de Janeiro por possuírem os maiores índices de letalidade ligada aos episódios de violência. Com base nos diagnósticos realizados pelas equipes do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), as favelas que devem receber as ações e investimentos são: o Complexo do Lins, Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Complexo da Maré, Cidade de Deus, Complexo do Chapadão, Complexo da Pedreira e Vila Kennedy. Esses territórios são atendidos por oito Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e seis Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).

O MDS também incluiu a favela da Rocinha, na zona sul do Rio; o Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo e Baixada Fluminense, porém não soube especificar quais regiões da Baixada Fluminense seriam atendidas tendo em vista o tamanho geográfico dos municípios.

Para o sociólogo do Instituto Raízes em Movimento, Alan Brum Pinheiro, o programa emergencial aparentemente vem reforçar as ações públicas já existentes precariamente, focando em alguns espaços de favelas no Rio de Janeiro. Segundo ele, sem uma gestão pública municipal e estadual eficiente e falta de visão estratégica para pensar o mínimo de sustentabilidade pode tornar o investimento de R$ 157 milhões em uma espécie de “enxuga gelo”. “Muitas instituições e grupos, formais e informais, estão construindo alternativas micro e algumas com certo êxito. Esses investimentos deveriam agregar as iniciativas existentes, dando escala à estas, com as políticas públicas. Quem irá continuar nesses territórios após o período desse plano? Esse ano é eleitoral e os investimentos são necessários, como equacionar? Somente envolvendo uma diversidade de ações e monitoramento com controle social poderia ser capaz de alcançarmos algum êxito nessa proposta”, questiona Alan Brum.

O baixo investimento na Secretaria Nacional de Juventude – cerca de R$ 2,6 milhões – também foi criticado por Brum. “É insensato nessa proposta o menor investimento ser justamente na Secretaria Nacional de Juventudes e no projeto ‘Juventude Viva’ que tem o foco na juventude negra. Isso não ajuda a consolidar as políticas públicas voltadas para esse público especificamente”, lamenta ele.

O Favela em Pauta procurou o governo do estado a respeito de quando iria começar a aplicar a verba dos repasses e como seria aplicada. Em resposta, recomendaram procurar o Ministério das Cidades. Por telefone, a assessoria do Ministério das Cidades negou participação no Programa Emergencial de Ações Sociais para o estado do Rio de Janeiro. O governo do estado não respondeu mais nossos e-mails.

Procurada, a Casa Civil da Prefeitura do Rio de Janeiro não respondeu nossos questionamentos até o fechamento da matéria.

O valor da mentira 0 15

Mamadeira erótica, candidata a vice com camisa “Jesus é travesti”, Jean Wyllys como ministro da educação e até o tal kit gay, que inclusive foi apresentado por presidenciável em rede nacional. Estas foram algumas das notícias falsas que apareceram constantemente naquele grupo da família, da igreja e até da pelada de fim de semana. Notícias, ou apenas chamadas, tão absurdas que seriam facilmente desmentidas. Mas elas provocavam sentimentos intensos de revolta, justiça e até ódio, justamente quando os cargos mais importantes do país seriam decididos e no meio de uma prolongada crise política.  

Definitivamente, as eleições de 2018 marcaram um momento de mudança no processo eleitoral brasileiro. Mas não se trata da eleição de estreantes em cargos executivos, nem mesmo da mudança radical de ideologia política, mas da importância da TV para o resultado nas eleições. Jair Bolsonaro, presidente eleito pelo PSL, foi quem menos teve tempo de TV em horário eleitoral, só 8 segundos por bloco, somados à 11 inserções de 30 segundos nos comerciais. Números muito inferiores aos de Geraldo Alckmin (PSDB), o cabeça da lista, que contou com 5 minutos e 32 segundos por bloco, somados à 434 inserções de mesma duração. E qual seria o fator decisivo para mudança tão repentina? 

Uma análise de dados realizada pelo The Guardian no fim de outubro de 2019, trouxe dados que atestam o favorecimento ao discurso de extrema direita nas eleições 2018. De acordo com a publicação, 42% dos textos apontados como sendo da direita continham informações consideradas falsas pelos verificadores de fatos. Enquanto menos de 3% de notícias do grupo oposto continham falsidades. Nessa análise foram observadas 11.957 mensagens compartilhadas em 296 grupos de WhatsApp durante o período eleitoral brasileiro. 


Antes disso, o executivo do aplicativo de mensagens WhatsApp, Ben Supple, declarou em participação no festival Gabo, na Colômbia que a empresa tem ciência do domínio de grupos poderosos nas eleições. “Sabemos que nas eleições do ano passado havia empresas que enviavam mensagens em grande número, querendo violar nossas regras de serviço e alcançar um público maior, estamos muito conscientes dessa ameaça”, acrescentou Supple, que é responsável pelo tema eleições da organização.

Ben Supple em participação no Festival Gabo de jornalismo, na Colômbia. Foto: reprodução YouTube.

Mais recentemente, no dia 19 de novembro, o site The Intercept publicou um texto investigativo com o relato de um ex-blogueiro sobre uma espécie de assessoria prestada pela Google Brasil em sua sede no Itaim Bibi, bairro “nobre” de São Paulo, para que um grupo de seis blogueiros de maioria mineira tivessem maior engajamento e sucesso financeiro em seus sites e nas redes sociais através de um melhor direcionamento dos conteúdos para um público cada vez mais segmentado e o pior: sem preocupação alguma com a verdade e a ética jornalística às vésperas das eleições.

Cópia de e-mail cedido ao The Intercept Brasil por um ex-blogueiro atendido pela Google Brasil.


Há quem diga que essa mudança de cenário nas eleições se deve única e exclusivamente ao avanço da tecnologia, mas o que foi apresentado pelos jornalistas Rodrigo Ghedin, Tatiana Dias e Paulo Victor Ribeiro na matéria Grana por Cliques, do The Intercept Brasil, põe dúvidas à esta afirmação.

De acordo com a publicação, a primeira reunião organizada em julho de 2016, na sede da empresa em São Paulo, terminou por causar a mesma sensação em todos os presentes, de que o caminho para ganhar muito dinheiro através da ferramenta de anúncios AdSense seria uma agenda contra o PT e a presidente da República, Dilma Rousseff. Aparentemente isso funcionou bem. A fonte relata que um dos blogs chegou a faturar R$ 25 mil apenas um mês depois desse primeiro encontro.

Boleto de pagamento cedido por ex-blogueiro ao site The Intercept Brasil.

Entre os exemplos citados pelo ex-blogueiro ao TIB, estão sites como Diário do Brasil, Jornal do País, Notícias Brasil Online e Pensa Brasil, ainda no ar, além de Brasil Verde Amarelo e The News Brazil, hoje desativados. 

Alguns destes que ainda seguem ativos, agora seguem agendas bolsonaristas, ainda veiculando anúncios na ferramenta AdSense que figuram ao lado de notícias como “General do Exército cogita ‘intervenção cirúrgica’ no país” e “Uma rede de televisão não pode citar o nome do presidente em um caso de morte e não ser punida”.

 Google e AdSense

Questionado sobre o caso, o Google afirmou que não deu orientações a respeito de palavras-chave, mas apenas à otimização do AdSense. O programa de anúncios, lançado em 2003, gerou mais de US$ 15 bilhões para a empresa só neste ano. Ele funciona permitindo ao dono de um site alugar espaço em suas publicações para que o Google venda anúncios. Os lucros, gerados por cliques, são divididos entre o dono do site e o Google. Dessa forma, gerar uma audiência e engajamento não é benefício só do blogueiro, mas também um dos inúmeros negócios do Google, um gigante da internet.

Uma das provas de que nem o avanço tecnológico, e tampouco o acaso, são responsáveis por mudanças drásticas na política e na opinião pública está no relato do ex-blogueiro não identificado pela equipe do TIB, quando diz que através do benefício do AdSense, sua renda se multiplicou em poucos meses. Saindo de um lucro de R$ 4,3 mil em maio de 2016, para ganhar R$ 25,7 mil em agosto do mesmo ano, mês decisivo para o impeachment de Dilma Roussef, já que o Senado aprovava o afastamento da petista e Michel Temer assumia finalmente a presidência da República.

Mas quem se beneficia e quem sai prejudicado nessa história?

Pois bem, tomando como base uma das notícias citadas acima, o site Diário do Brasil publica um título alarmante, onde um General do Exército estaria sinalizando uma possível intervenção militar no Brasil. Isso tem o poder de inflamar uma parte da sociedade que consome irrestritamente este conteúdo de qualidade e procedência questionável.

Ao abrir o link, você vai se deparar com a assinatura de um oficial da reserva, ou seja, ele não exerce e nem nunca exerceu a função de porta-voz, não responde pelas Forças Armadas, se trata do General da Reserva do Exército Brasileiro Luiz Eduardo Rocha Paiva, que construiu sua carreira militar entre gabinetes em funções administrativas e como instrutor em escolas e centros de estudos militares, seu único destaque em atuação operacional foi em 1998 em operação de pacificação em um conflito envolvendo fazendeiros e o MST no Paraná.

Desde 2007, quando se tornou militar de reserva, se dedica a escrever artigos sobre temas políticos e estratégicos, segundo diz seu perfil no Eblog do Exército Brasileiro.

Tudo isso vai te fazer enxergar que não há informação alguma no texto publicado pelo Diário do Brasil. Ele não traz fatos, nem novos elementos políticos, apenas a opinião de um militar da reserva sobre política. Mas o veículo utiliza o treinamento oferecido pelo Google Brasil para espalhar cada vez mais a desinformação alarmista que empodera radicais e assusta os pacifistas mais desavisados. Dessa forma contribuindo para que as redes de mentiras aumentem e dêem mais destaque aos discursos mais extremos.


Já sabemos quem obteve benefício, mas agora pare e pense por alguns segundos, como isso tudo influenciou nas favelas? Talvez a “política externa” seja assunto chato, mas até quem não gosta do tema sabe que o quilo da carne já passa dos trinta reais. O Estado nunca foi mocinho na favela, mas agora inovou, também taxa desempregados, declara guerra à educação, libera agrotóxicos e muito mais. Atinge até quem nunca se preocupou com política e de repente passou a defender com todas as forças um grupo político que atacava tudo que “está aí”, o pouco que havia de políticas públicas, todo tipo de ativismo e pensamento crítico. A pergunta que fica é: valeu a pena compartilhar notícias falsas?

Em três meses, mídia impressa do Rio publicou 80 capas negativas sobre favelas 5 100

Colagem de jornais impressos lidos na análise

Ninguém compra mais jornal impresso porque só tem notícia ruim. Essa declaração assertiva faz sentido se levarmos em consideração sobre como os jornais impressos abordam as favelas do Rio de Janeiro em suas capas.

Nos meses de março, abril e maio de 2019, fiz uma análise da cobertura jornalística das redações cariocas sobre as favelas para verificar se falam positivamente ou negativamente sobre as favelas do Rio. Eu, como profissional da comunicação, sempre busco ter cuidado ao publicar informações. Quem vai ler? Quem vai ser atingido? O que pode acontecer com as pessoas abordadas na notícia? Isso é interesse público ou interesse do público? 

92 dias após ler – cuidadosamente – os jornais impressos O Dia, Extra, O Globo e Meia Hora constatei que quem vê capa não vê coração. As favelas e seus moradores são retratados de forma sensacionalista por esses jornais e produtos televisivos há décadas. 

Os profissionais da imprensa nas redações cultivaram uma passividade de não questionar o que dizem as notas oficiais, deixando de lado as testemunhas. O editor, baseado em sua subjetividade, determina o que entra ou não na reportagem. E assim, em pleno ano 2019, ainda se veem manchetes taxando moradores de favelas como suspeitos ou criminosos, mesmo que inocentes, e jovens da Zona Sul como universitários, mesmo que culpados.

Uma pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), feita em 2007, com repórteres e editores dos principais veículos de comunicação no país mostra que não mudou muita coisa até hoje. “A maioria dos profissionais ouvidos reconhece que os seus veículos têm grande responsabilidade na caracterização dos territórios populares como espaços exclusivos da violência. Ao mesmo tempo, admite que a população dessas comunidades raramente conta com a cobertura de assuntos não relacionados ao tráfico de drogas e à criminalidade”, aponta a pesquisa.

Na análise dos jornais impressos, vi que a cultura, o esporte, a economia e as dificuldades cotidianas enfrentadas pelos moradores de favelas aparecem muito pouco, especialmente quando se considera o imenso número de reportagens e notas sobre operações policiais, tiroteios, execuções.

Em 92 dias, os jornais pesquisados publicaram quatro notícias positivas em capa, enquanto notícias negativas ocuparam 80 capas. Houve dias em que os jornais não abordaram assuntos relacionados às favelas em capas.

O jornal Extra, do grupo Globo, foi o que mais deu de capas negativas. Não à toa: o veículo de comunicação criou uma “editoria de guerra”, em 2017, para tratar da violência no Rio. A maioria das capas negativas foi referente à violência armada, varejistas de drogas e milicianos. O desabamento de dois prédios na favela da Muzema também ganhou espaço devido à proporção da tragédia em que 24 pessoas morreram. Na editoria de esportes, o jornal optou por dar destaque a diretoria do Clube de Regatas do Flamengo que vetou a expressão “Festa na favela” por ser algo associado à violência.

No mês de abril, o jornal Extra publicou 14 capas negativas, sendo que, 6 delas foram de forma sucessiva entre os dias 11 e 16 de abril. As capas destacaram a cobrança por meio de carnê feita por milicianos na Praça Seca, zona oeste do Rio; moradores da favela de Manguinhos, na zona norte, que foram atingidos por tiros de um sniper, além da tragédia na favela da Muzema, também na zona oeste da cidade.

A violência no Rio de Janeiro como mercadoria jornalística legitima o pensamento de “CPF cancelado”. Um fato negativo sobre favela sempre é vendável, pois os leitores normatizam a violência. 

Em um ensaio publicado no Nexo, o diretor da Ford Foundation, Átila Roque, sintetiza esta análise que fiz nos últimos meses. “A geografia segregada das cidades, a impunidade que prevalece em homicídios cometidos por policiais e a política de segurança focada na guerra e no enfrentamento armado do tráfico suspendem na prática o estado de direito e instalam o estado de exceção em certas áreas das cidades, sinalizando com uma autorização tácita para a execução dos “elementos suspeitos”. Uma seletividade perversa que torna alguns sujeitos matáveis, sem que sintamos qualquer horror ou responsabilidade em relação a isso”, explica Átila Roque.

O estudo desenvolvido nos últimos meses serve de exemplo para mostrar como a falta de diversidade nas redações cariocas influenciam na produção de conteúdo sobre favelas. Nos últimos anos, as discussões sobre diversidade nas redações ganhou mais espaço.

As capas negativas são frutos de jornalistas com uma visão homogênea que não têm vivência local e provocam uma pauperização nas reportagens por falta de um olhar interno e mais realista. É tempo de mudar.

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