A realidade em cada flow: como o hip-hop se alinha aos ensinos da vida 2

Sou Matheus Braga dos Santos, tenho 25 anos e faço licenciatura em Geografia. A música entrou na minha vida quando era mais novo e ouvia meus DVD’S de HIP-HOP Video Traxx VOL 2. Meus pais, que são negros, ouviam muito James Brown, música no estilo good times, além de Elis Regina e Seu Jorge. Cresci com toda essa influência em casa, no Complexo de Costa Barros, Pavuna, Rio de Janeiro, e nunca me esqueço do dia em que a minha mãe colocou James Brown em seu CD player e começou a dançar na sala. 

Conforme fui crescendo, também fui aprendendo os significado das músicas, mas ainda não entendia muito bem do que se falava. Ao ouvir artistas que produziam músicas que proclamavam sobre a ancestralidade,  comecei a me auto aceitar como negro, além de entender a minha posição social. A música que me ajudou a alcançar o empoderamento foi “Ain’t Got”, da Nina Simone e, através dela, NWA e alguns outros artistas comecei a ficar interessado em saber mais sobre o assunto. Hoje, curso licenciatura plena em geografia na Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, um campus pertencente a Universidade Do Estado Do Rio De Janeiro (UERJ), e estudo a utilização do rap para compreensão da realidade e do espaço geográfico em que habitamos.

A linha do mapa e as estrofes que completam a rima 

No andamento das pesquisas, fui lembrado de uma aula que tive no ensino médio, cujo tema do mesmo era racismo. O professor colocou a musica do Racionais MC,  “Negro Drama”, e, através dela, fui percebendo que, além de me identificar com o verso, a letra também retratava o dia a dia outras pessoas negras que moram em áreas periféricas, seja em favelas ou na baixada fluminense.  

“Desde o início por ouro e prata

Olha quem morre, então veja você quem mata

Recebe o mérito, a farda que pratica o mal

Me ver pobre, preso ou morto já é cultural”

“Negro drama” conta sobre o que um jovem negro vivencia todos os dias. Ao ouvir esse trecho, lembrei das vezes em que fui parado e dizia que morava em comunidade, o que só piorava a situação, já que só era liberado ao apresentar a carteirinha da faculdade. A letra dessa música despertou incômodo e, ao mesmo tempo, reflexão: e se fosse mais um negro que estivesse voltando do trabalho, do seu corre, seria mais um a virar  estatísca? 

Mais do que o reconhecimento com a letra, outro ponto a ser levantado é como os Racionais MC abordam sobre a falta de investimento em segurança pública, em especial nas favelas, e o preconceito que as pessoas que moram em comunidade sofrem – muitas já são reconhecidas como sinônimo de um perigo para sociedade.

Acredito que a música possa ser uma formadora de opinião, como também pode ser utilizada como metodologia de ensino. Através de “Negro drama”, tive como associar a  concepção geográfica do espaço em que habito com a vivência que possuo. Os conceitos de espaço, território e política públicas podem ser mais fáceis de serem compreendidas com a associação de músicas que são popularizadas com uma boa aula e didática que facilite a compreensão dos alunos, desde funks que demonstrem o que rola em cada comunidade, até flows que denunciem os contrapontos de cada lugar.

O “flow” que os alunos não perderiam nas aulas 

Dentre tantas formas que a música pode ser utilizada na metodologia de ensino, o uso em avaliações é a que eu mais defendo. Dessa forma, podemos desconstruir o método em que  a forma de avaliação é aplicada e, ao reformulá-la, é possível envolver métodos de criação, como: a cada fim do bimestre, o aluno deve criar uma música como forma de avaliação, ou realizar uma paródia e até mesmo fazer um rap de composição autoral, desde que o conteúdo seja sobre o conteúdo que abordado em sala. Outra forma em que a música pode estar presente, é utilizá-la como um complemento para as aulas sobre território, espaço geográfico e questões sociais. 

A música é democrática, ou seja, todos podem se expressar, dizer o que pensa e sobre o que nota. O que cada pessoa vê ao seu redor, faz parte do enquadramento da geografia na territorialidade do indivíduo e os problemas que ele enfrenta – desde o mais pobre, até aquele que tem uma condição de vida mais “razoável”. 

Através da música, sinto que sou capaz de mudar a realidade ao expor na música e geografia os problemas da comunidade onde eu moro e o que vivo todos os dias na minha trajetória. Além de ser aluno de licenciatura, também participo de Slam e faço poesias. Uns dos versos de minha autoria que digo:

“a minha realidade corre entre uma bala perdida e uma caneta

Ambas podem te ferir, mas por qual você quer ser atingido

Com um tiro de realidade, ou um tiro de bala perdida

Mas, fazer o que, essa é a minha realidade,

Em que os de terno batem palma ao ver mais um sangue no chão.”

Através de uma rima criada, posso tentar mudar ações contínuas na minha área. Por isso acredito que, com a música, ela pode ser utilizada como “arma de mudança” do cotidiano de onde vivo.

Imagem destacada: Heloisa Ballarini / Secom/ Prefeitura Municipal de São Paulo

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