“Ser indígena no Brasil é pertencer à história que não é contada”, afirma a educadora Txahá Braz 0 163

Ser indígena no Brasil é pertencer à história que não é contada

Guardiães das florestas, os povos indígenas no Brasil denunciam a guerra travada cotidianamente pela existência de sua história e pela permanência no território.

Há 520 anos a história contada nos livros didáticos nos diz apenas uma versão sobre a “descoberta” do Brasil. Muito antes de 1500, esse país, antes denominado de Pindorama, já era habitado por povos indígenas, ou também denominados de originários da terra, naquela época eram cerca de 3 milhões de pessoas, de acordo com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Povos que já se organizavam em termos culturais e políticos junto à proteção da natureza, mas que hoje lutam, em meio a uma guerra social, para reivindicar o seu modo de viver.

A estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para o censo a ser aplicado em 2021, aponta a existência de 7.103 localidades indígenas – desse total, apenas 632 são terras oficialmente delimitadas – distribuídas em 827 municípios. Pelo Censo de 2010, são mais de 305 povos indígenas que somam mais de 900 mil pessoas. Destes, em torno de 325 mil vivem em cidades e quase 573 em áreas rurais, o que corresponde aproximadamente a 0,47% da população total do país.

A pandemia da covid-19 ressaltou o panorama histórico que impacta as comunidades indígenas, um genocídio ocasionado pela negligência das autoridades e pela ineficacia das políticas públicas que não chegam a essas pessoas. Atualmente, são cerca de 52 mil casos de Covid-19 e mais de mil mortes pela doença, conforme a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

O Brasil rejeita sua própria história

O país, frente à diversidade dos povos originários, exerce, dentre outras, uma contradição histórica que fortalece a morte de quem é visto como diferente. Ao mesmo tempo que as várias culturas indígenas são alvos de guerra, tendo sua percepção de mundo atacada, por outro lado o país que se apresenta nacionalmente como sendo um povo, se mostra internacionalmente como palco de celebração da diversidade. 

Essa fachada bipolar, reproduzida na literatura brasileira pelo indigenismo e evidenciada, de forma estereotipada, no “dia do índio”, reforça o ser indígena tanto como um “personagem da selvageria” quanto um “herói nacional com padrões europeus”, mas o impede de ser uma pessoa que tem sua cosmologia, sua visão de mundo, e direitos culturais respeitados.

Para o estudante Kadu Xucuru, morador de Recife e pertencente ao povo Xukuru do Ororubá, a população indígena resiste expandindo sua história e não aceitando a ideia de que são todos iguais. “Diversidade e indígenas é um sinônimo pra mim. Quando falamos de um país com uma multiplicidade de povos, tradições, fenótipos e línguas, é preciso lembrar que estamos em um território multiétnico, e cada nação tem seu modelo de organização social”.

Existe um processo de apagamento das línguas faladas pelos povos indígenas no Brasil. Quase 90% dessas línguas foram extintas, das 1.500 que se moviam antes da colonização, hoje restam apenas 181 e nenhuma delas é considerada língua oficial do país, conforme aponta a pesquisa elaborada em 2016 pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

Mestranda em Matemática, Txahá Braz.
Foto: Quequeu Viana Meireles

Na região sudeste, Txahá Alves Braz, do povo Pataxó, complementa: “Diversidade indígena é a forma que cada povo tem, é as diferenças culturais que existem. Cada povo com sua própria característica, sua língua, sua cultura, seus cantos e danças, sua medicina e seu conhecimento é a diversidade que existe entre povos”. 

“Toda monocultura mata. Nenhuma sociedade com monocultura sobrevive”

As ameaças, despejos, expulsões por grileiros e proprietários de terras, e as mortes de lideranças indígenas batem recordes com o atual governo. “Somos uma coisa só, nós e a terra, nossa espiritualidade gira em torno dela, por isso é tão importante para o avanço colonial cortar essa nossa ligação”, diz Kadu, indígena que vive na região nordeste.

A ideia de plantio monocultural gera cercas, mercantiliza a terra como objeto a ser violentado, desrespeita o tempo do cultivo e a natureza enquanto morada. Assim também acontece com a monocultura da história do Brasil, que cerca outras formas de contar a mesma história. De forma que impede os povos originários de também ter a possibilidade de dizer o seu ponto de vista quando se depararam com aqueles colonizadores europeus que chegaram imundos, com mal cheiro e famintos no litoral de Pindorama.

“Toda monocultura mata. Nenhuma sociedade com monocultura sobrevive. A diversidade cura. A diversidade alimenta”, afirma a professora Célia Xakriabá, “para mim, quem tem território, tem lugar para onde voltar. Quem tem lugar para onde voltar, tem colo e tem cura”, afirma a respeito da importância do território enquanto manutenção da diversidade.

O sagrado como força da comunidade indígena

“O dia do Rei do Ororubá (dia de reis) e a Festa de Mãe Tamain (Nossa Senhora das Montanhas) são os rituais mais importantes, onde o povo se renova de força e coragem para dar continuidade a manutenção da cultura, da essência do ser Xukuru. Alguns elementos também são bem próprios do nosso povo, como o jumpago, arma originária Xukuru, utilizada em rituais, e a Barretina, cocar feito da palha do coco catolé (também usado pelos Pankararu). Além do trabalho com a Jurema, uma das principais tradições da nossa cosmovisão”, conta Kadu do  povo Xukuru do Ororubá.

Artista Kadu Xukuru.
Foto: Lis Marina Oliveira

Os povos originários ensinam que o silêncio, o ouvir a natureza, ouvir quem veio antes de nós, o atentar à ancestralidade são ações espirituais e cada povo vive isso de uma forma. “A espiritualidade é uma parte essencial a ser cuidada e uma forma de não deixar o corpo desfalecer. Já a natureza fortalece o espírito, nos dá esperança e nos oferece proteção. É a paz que precisamos para notar os detalhes que é a nossa vida nas mãos do nosso Criador”, diz a professora Géssica Nunes, pertencente à etnia Guarani Nhandewa, que vive na região sul do Brasil.

O direito a ser criança indígena

A diversidade cultural ao não ser respeitada pelas instituições pode ditar regras que interferem aniquilando o saber indígena até mesmo com as crianças, um período da vida que também sofre com a violência da sociedade monocultural.

“Para nós indígenas, temos nossas crianças como esperança de manter nossa cultura viva. Por isso, ensinamos nossas tradições desde criança e preparamos elas para o futuro. Ao meu ver falta um olhar mais humanizado para nossas crianças, ou se quer é assegurado o direito ao afeto e ao cuidado”, conta Rosa Kambeba, administradora e servidora pública que vive na região Centro-oeste do Brasil.

A pedagoga Vanessa Karajá afirma que as crianças dos povos originários precisam ser melhor atendidas e ouvidas a partir de suas vivências. “Muitas crianças tentam esconder os abusos sofridos, por vergonha e por medo de exposição de suas famílias. Infelizmente, ainda vivemos uma cultura do silenciamento onde a vítima, na maioria das vezes, se culpa pelos fatos ocorridos”, aponta a professora Vanessa que também vive na região Centro-oeste do Brasil.

O respeito à natureza e a importância do território são aspectos inerentes aos saberes originários.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em 2018, a Organização das Nações Unidas  (ONU) recebeu denúncias sobre casos de crianças indígenas que estavam sendo retiradas de suas famílias, a maioria vinda do povo Guarani e Kaiowá, da região de Dourados, Mato Grosso do Sul. O Le Monde Diplomatique Brasil retratou a situação no documentário Negligência de quem?

As crianças também são vítimas das consequências causadas pelos conflitos de terra no Brasil. Pois as famílias, ao serem expulsas de um local, precisam reconstruir suas casas e vidas sem o amparo das políticas públicas. A ideia de desatenção às crianças é julgada apenas pela ótica do Estado através do Conselho Tutelar, sem o diálogo com os povos indígenas e seu contexto cultural.

“Muitos indígenas possuem mais de três filhos e isso dificulta na criação, pois cada vez mais estamos mais dependentes do Estado e de políticas públicas. A fome e dificuldades financeiras estão presentes em muitas comunidades. Muitos indígenas, como minha família, estão reivindicando a demarcação de suas terras ancestrais, o processo de demarcação é longo e a ocupação faz com que as crianças fiquem expostas ao sol, chuva e violência”, relata Vanessa.

“Ser indígena no Brasil é ser resistente e resistência. É resistir a todos os tipos de retrocesso que acontecem. Ser indígena no Brasil é pertencer a verdadeira história que não é contada”, finaliza Txahá, do povo Pataxo.

Matéria realizada pelas repórteres: Ariel Bentes, Dandara Franco e Ludmila Almeida.

Edição: Renato Silva.

*Imagem em destaque: Arquivo Elza Fiuza/Agência Brasil

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