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Política

Com direito a tanque de guerra, manifestantes lotam Centro do Rio em ato antirracista

Redação

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no dia

*Informações dos correspondentes Rick Trindade e Mariana Assis


Pelo segundo domingo consecutivo, o ato antirracista #VidasNegrasImportam mobilizou as redes sociais e expressou pelas ruas do país inteiro o que a comunidade preta e favelada vem gritando há bastante tempo: #ParemdenosMatar e  #VidasFaveladasImportam. 

A principal motivação para a Marcha Antirracista é se contrapor à vulnerabilidade social que os negros, pobres, favelados e periféricos são submetidos pelo Estado. O lema do movimento é “Saímos às ruas porque não queremos morrer nem de fome, nem de tiro nem de covid. Nós queremos viver”. 

No Rio de Janeiro, os manifestantes lembraram os assassinatos de Cláudia Ferreira, arrastada pela Polícia Militar em 2014,  do adolescente João Pedro,  assassinado há duas semanas dentro de casa, da vereadora Marielle Franco, cujo assassinato aconteceu em 2018 e continua sem explicações sobre quem mandou matá-la e porquê. 

Na última sexta feira (05), o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), proibiu em decisão liminar a realização de operações policiais em favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia do coronavírus. Segundo o documento, só poderia haver em “casos excepcionais”, que não foram explicitados, e previamente justificados. As operações, ainda, deveriam ter “cuidados especiais” para que a vida da população não fosse colocada em risco. Mas já na noite de sábado (06), segundo informações do jornal Voz das Comunidades, policiais militares fizeram uma incursão na localidade da Grota, no Complexo do Alemão, e teve troca de tiros.

Polícia do Exército com apoio de tanque de guerra fazem a proteção do Palácio Duque de Caxias, na Central do Brasil.
Foto: Vito Ribeiro

Os manifestantes também ecoaram gritos pedindo o fim da Polícia Militar. Como reportado na última semana pelo Favela em Pauta, a polícia do Rio de Janeiro matou  606 pessoas em 4 meses neste ano e, mesmo quando o isolamento social estava em vigor dada a pandemia de Covid-19, entre março e abril 290 foram executadas. 

Mais cedo, a Polícia Militar publicou um tweet dizendo para que as pessoas não levassem álcool líquido para nenhuma manifestação. Os frascos de álcool gel foram limitados em 50 ml, entretanto, não existe nenhum decreto que restringe a quantidade de álcool gel que cada cidadão pode transportar com si. As autoridades saúde indicam que o álcool gel é importante na prevenção da Covid-19. A PMERJ não respondeu esse questionamento na reportagem.

Foi grande o número de policiais nas ruas da capital carioca acompanhando os manifestantes. De acordo com a Polícia Militar, o reforço efetivo contou com o Batalhão de Choque, Cães e de Rondas Especiais e Controle de Multidões. A PM também não respondeu quantos policiais estavam no ato. Em uma rede social, o educador popular Jota Marques disse que:  “Revista atravessando nosso ato. Carros de choque escoltando, policiais em cordão de isolamento. Tensos, seguimos. Nenhum passo atrás!” .

Atos pelo país

Em Brasília, o ato aconteceu a partir das 9h da manhã deste domingo (7). Para o comunicador Mateus Santana, apesar de muito organizado, as pautas raciais sofreram certo abafamento por parte da maioria ali presente, ainda que houvesse muitos negros. 

Já em Salvador, o ato deu início às 14h30, fixado em frente ao shopping mais antigo da cidade. Sandra Andrade, fotógrafa e ativista, esteve presente no ato e disse que a manifestação foi completamente pacífica, e consideravelmente pequena. Assim como no Rio, o efetivo de policiais em Salvador e em Belém foi grande. 

Na capital Paraense, o ato ocorreu pela manhã, no mercado São Brás. Em respeito às medidas sanitárias, decidiu-se que seria um ato “parado”. A Pedagoga Elizabeth Brito conta que o número de policiais foi além do normal. “Em relação ao policiamento, eles fizeram barreiras em todas as encruzilhadas.  Além de muitas viaturas, tinha ônibus, camburão e até mesmo helicóptero do estado fazendo ronda. Eles não estavam permitindo nenhum grupo, mandava sempre dispersar e com isso muita gente acabou passando direto ou ficando em algum canto escondido”, afirmou.

Durante a manifestação quase 100 pessoas foram detidas, dentre elas 18 adolescentes. “Até mesmo quem estava passando na hora foi colocado no ônibus e levado para uma seccional (distante de onde estávamos). Segundo informações, ao chegarem lá, os jornalistas foram proibidos de registrar, alguns postaram que os detidos ficaram por muitas horas sem água e comida dentro do ônibus quente”, completa Elizabeth. Mas, segundo a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) todas as 97 pessoas que foram detidas hoje pela manhã e que estavam na delegacia de Polícia no bairro da Cremação, em Belém do Pará, já foram liberadas.

Na capital cearense, o ato aconteceu na Praça Portugal, na zona sul da cidade. De acordo com Yargo Gurjão, jornalista que estava presente no ato, a polícia estava no local antes da manifestação começar e agiu de maneira agressiva, prendendo alguns manifestantes que só foram liberados após a negociação de uma advogada, que recebeu como contraproposta o fim da manifestação. 

Em Manaus, o ato teve concentração às 15h30, na Zona Leste da cidade, que de acordo com a historiadora Kevellyn Jéssica ,é uma das zonas que mais possuem repressão policial. O cantor Gabriel Aruack presenciou algumas ações da polícia e afirma: “Nenhuma pessoa foi detida, a polícia não chegou a ser truculenta mas reprimiu bastante em momentos em que tentou tomar a frente do ato. Antes de iniciar o ato já havia relatos de que grandes números de viaturas estavam chegando pelo local.”  

O produtor cultural Negro Lamar, ressalta a importância do ato ter acontecido numa região onde o povo preto e indígena está presente em sua maioria. “As palavras de ordem transmitiram os apontamentos do ato que era sobre a violência policial, os assassinatos que ocorrem nas periferias e não vão para a mídia”,  destaca. O ato na capital Amazonense foi organizado com a união de coletivos negros e indígenas. 

O Favela em Pauta pediu esclarecimento à Polícia Militar do Pará referente às prisões do ato de hoje, e até a publicação desta matéria não teve retorno. 

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