Uma carta aberta sobre ser uma pessoa preta que produz conteúdo para a internet 0 86

Primeiro, eu sempre gosto de lembrar que um corpo negro é um corpo negro, em qualquer lugar. Fugir de ataques racistas é impossível, ainda mais na internet. Quanto mais você se destaca, mais aumenta a possibilidade desses ataques ocorrerem. Ao mesmo tempo algumas pessoas acham que você está em uma posição onde só coisas boas acontecem, mas não é bem assim. Não adianta os números de seguidores nas redes sociais, formação, posição social, se você é preto ou preta, isso sempre vai vir primeiro, porque a gente está falando de uma sociedade racista. 

Eu comecei a produzir conteúdo pra internet no  fim de 2017. Tinha perdido meu pai, estava perto de me formar e queria praticar tudo que havia aprendido na universidade, mais que isso, quis acreditar que uma pessoa igual a mim poderia estar em frente às câmeras. Eu não tinha muitas referências, na  universidade eu não era visto como uma futura promessa (e nós sabemos quais pessoas eram).

Decidi iniciar pelo Youtube, mas quando a gente fala sobre padrão de beleza, não podemos esquecer que as plataformas digitais também seguem esse modelo de padrão. Crescer em uma rede social que primeiro avalia sua imagem, sendo uma pessoa preta, não é tão fácil e rápido assim. Muitas vezes o crescimento nesses espaços não acontece. 

Quando comecei a produzir conteúdo eu não imaginei que pudesse alcançar tantas pessoas. Não achei que tinha capacidade pra isso. Conforme fui ganhando mais seguidores e seguidoras, o retorno ao meu trabalho também foi aumentando, e por um certo período a gente cai nesse lugar de conforto, de receber boas mensagens de quem se agrada com o nosso conteúdo, mas o outro lado não demora a aparecer…

Aos poucos os ataques foram surgindo. Os primeiros fazem com que a gente fique sem um norte, vem como uma paulada. Ao longo do tempo eles vão se tornando mais comuns. Recentemente, em uma publicação que eu fiz recebi o seguinte comentário: “Você deveria ter vergonha de existir”.

Não é só uma questão de crueldade, é o racismo que faz com que não sejamos vistos como humanos. Porque pra eles (branquitude) seria um favor se não existíssemos. 

Na internet também há violências. Simbólicas ou agressivas. Diretas ou indiretas. A possibilidade da criação de perfis fakes traz para essas pessoas uma sensação de segurança, e aí elas se sentem livres para dizer o que querem.

Ter um perfil verificado ou ter certa visibilidade não me blinda desses ataques cruéis. Às vezes é o que fazem de mim um alvo preferencial desses ataques. E por muitas vezes isso tudo cansa. 

Não é mais sobre a qualidade do meu trabalho, ou se gostam ou não dele. É sobre o racismo, tentar, a partir dessas pessoas, que eu sinta vontade de desistir, sobretudo da vida. É ter que lidar com a realidade de ser odiado simplesmente por existir. E ser uma pessoa preta e gorda, é ser o que essa sociedade mais odeia. É quase que imperdoável. E aí as pessoas sentem ainda mais liberdade em ser covardes e cruéis. 

A melhor forma para lidar com tudo isso? Eu realmente queria ter uma receita pra passar. Mas não há. Tudo depende muito de como eu estou no dia, de como esses ataques vão ecoar em mim. Tem dias que ignoro e sigo. Tem dias que os comentários ficam martelando na minha cabeça, me levando a quase um sentimento de culpa. 

Tudo o que eu quero é viver sem sentir que só por existir, isso já incomoda muita gente. Viver sem ter medo de futuros ataques violentos na internet. Mas aí eu lembro do que disse no começo desse texto, “um corpo negro é um corpo negro, em qualquer lugar”. Levando em conta a realidade dessa sociedade, talvez viver 100% livre de qualquer ataque agressivo, racista e gordofóbico não seja possível, ainda que eu esteja inserido em bolhas, que por muitas vezes me traz uma sensação de segurança.

Então o que eu te peço é: não reproduza o que eles fazem, não roube a minha humanidade. Quando pensar em mandar um conteúdo sensível para uma outra pessoa, pergunte primeiro se ela está bem, e se está confortável para ver ou ler o que você quer enviar. Tente sempre diversificar as pessoas que você segue. É importante que sigamos pessoas pretas, gordas, com deficiência. Quantas dessas pessoas são referências pra você? Não me olhe como alguém que está livre de qualquer violência, eu não estou. 

Eu não sou um perfil verificado numa rede social. Eu sou um ser humano.

O que você precisa saber sobre o ato #VidasNegrasImportam 2 29

O ato #VidasNegrasImportam, organizado pelo Movimento de Favelas do Rio de Janeiro, realizado no domingo (31/5) não é só mais uma manifestação. É o estopim para que as favelas não sejam mais alvos de operações policiais sem fundamento.

Os dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública traz preocupações que são antigas para quem nasceu e vive nas favelas do Rio de Janeiro. Em abril de 2020, a polícia matou 43% a mais do que em abril do ano passado, de acordo com análise feita pelo Observatório da Segurança.

No município de São Gonçalo, região onde o menino João Pedro, de 14 anos, foi assassinado durante uma operação conjunta da Polícia Federal e Civil, concentra 48,13% das mortes.

Já na área do 41°BPM, responsável por 15 bairros na zona norte do Rio, e onde o jovem Iago Cesar, de 21 anos, foi morto um dia antes de João Pedro, foi responsável por 58% das mortes ocorridas na área do batalhão.

Manifestantes seguram cartazes com frases sobre a realidade nas favelas. Fotos: Rithyele Dantas

Além de se preocuparem com possíveis invasões de policiais em suas casas, os moradores também precisam ficar atentos pelo que vem pelo ar. Segundo o laboratório de dados sobre violência armada no Rio de Janeiro e Recife, Fogo Cruzado, somente em 2019, houve 23 operações policiais com helicópteros sendo usados como plataformas de tiros. Ao todo, 37 pessoas foram baleadas nessas situações: destas, 27 morreram.

A manifestação é em protesto pelas pessoas assassinadas só neste período de pandemia da Covid-19. No estado do Rio de Janeiro, a polícia matou 606 pessoas em 4 meses deste ano, sendo 290 em março e abril, durante o isolamento social ordenado pelo poder público. 43% a mais do que no mesmo período do ano passado. Além disso, no dia 30 de maio, mais um jovem, Matheus Oliveira, de 23 anos, foi assassinado pela polícia nos acessos ao Morro do Borel, na zona norte do Rio.

Segundo um amigo de Matheus, eles estavam em uma moto voltando pra casa quando foram abordados por policiais que estavam na rua e se assustaram, atirando contra os dois. Matheus foi atingido na cabeça e faleceu no local. Ele trabalhava como barbeiro, motorista de aplicativo e era mototaxista. Não tinha operação policial na hora dos disparos.

Morrer por Covid-19 ou tiro de fuzil

Segundo os organizadores do ato, nem mesmo na maior crise sanitária do novo século que diversos países estão sofrendo com o novo coronavírus, as polícias do Rio deixaram de matar a juventude negra e pobre das favelas e periferias. As recomendações em todo o mundo é resguardar as vidas, mas a regra não serve para governos que já têm em suas estruturas práticas racistas e genocidas.

Na última semana, um caso que ocorreu nos EUA ganhou repercussão internacional. “Eu não consigo respirar!” foram as últimas palavras que George Floyd teve forças para dizer, enquanto um policial branco pisava sob o seu pescoço contra o asfalto. O episódio, que os negros de todo o mundo conhecem, ocorreu durante uma abordagem policial no Estado de Minnesota, nos Estados Unidos. Imagens dessa triste cena viralizaram nas redes sociais e despertaram ondas de protestos em diversas regiões do mundo.

“Aqui no Brasil, a população negra vive sob o jugo do braço armado do Estado, que age de forma genocida, atuando com uma política de morte contra os negros e favelados. No Rio, essa política fica bem explícita quando vemos o Estado entrando com o seu poderio bélico nas favelas, e não com serviços e direitos básicos”, explicam os organizadores do ato em uma carta.

Exemplo disso são as ações de solidariedade aos mais vulneráveis durante a pandemia do coronavírus, que foram frequentemente interrompidas por operações policiais. O Estado não entrou com alimentos e sim, com a morte, deixando corpos no chão.

#VidasNegrasImportam surgiu porque é necessário dar um basta a essa política que tira vidas. A principal exigência é o fim das operações policiais nas favelas para que possam freiar o genocídio negro e o fim da militarização da vida.

Das quebradas de SP: Coruja BC1 lança novo trabalho escrito em apenas um dia 0 25

“A música é o meu escudo ao mesmo tempo que é a minha espada”, diz rapper Coruja BC1.

“Antes do Álbum” é o mais recente trabalho do rapper Gustavo Vinicius Gomes, mais conhecido como Coruja BC1. O nome não foi escolhido à toa, segundo o cantor, lançar um EP não estava em seus planos para o ano de 2020. A ideia, como de costume, seria lançar singles e clipes no primeiro semestre, e um álbum no segundo semestre. Mas diante da pandemia do novo coronavírus, onde a recomendação é o isolamento social, Coruja decidiu usar o tempo que está em casa para produzir o EP.  

“Eu tinha pensado talvez em fazer uma mixtape e soltar na rua, eu tava muito focado mesmo no Brasil Futurista [nome do próximo disco], mas como aconteceu a pandemia, eu acabei atrasando as gravações. Porque o disco, é um disco instrumentado então eu preciso de mais gente dentro do estúdio”.

Artes de divulgação oficial por Della Torres.

Para o artista, sua criação reflete muito na sua vida, isso faz com que Gustavo e Coruja estejam ligados 24 horas. “O Coruja é totalmente dependente da energia do Gustavo, de como o Gustavo está espiritualmente, mentalmente e fisicamente também”.

Fazer um EP em meio à uma pandemia foi a forma como o cantor encontrou para continuar sendo produtivo, já que não é possível realizar shows, nem dar continuidade à gravação do seu disco. Por outro lado, para ele, também é uma forma para desabafar e encontrar mais uma vez na música uma forma de se apoiar e se manter firme.  “Eu acho que a música veio de encontro com minha vida desde criança, é o meu escudo, ao mesmo tempo que é a minha espada.” 

Nascido na periferia de Osasco, Coruja sempre teve a cultura nordestina presente em sua vida, ele é filho de Nordestinos. E foi do avô pernambucano, que a cultura do repente foi introduzida na sua trajetória.  O repente, que é a forma oral da literatura de cordel, surgiu no Estado da Paraíba, se desenvolveu em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, e hoje é popular em toda a região Nordeste. Os cantores, chamados de repentistas ou cantadores, fazem uma improvisação de versos sobre os mais diversos assuntos.  

“Ele que trouxe essa cultura do repente, eu acho que ela ainda se faz presente na minha estrutura de música, muito na forma de cadenciar a música, de estruturar a música, os flows, as técnicas de respiração mais acelerada, eu acho ainda que são técnicas que vem dessa influência de infância tanto do repente quanto do samba, porque meu avô que me apresentou o repente foi o mesmo que me apresentou o samba, e ele queria que eu fosse sambista…” 

O PROCESSO DE GRAVAÇÃO DO EP

As faixas do EP foram todas escritas por Coruja em um único dia. Ele enxergou a oportunidade como um autodesafio,  já que para ele, durante um tempo de sua vida, tirar do papel todas as ideias que tinha não era um processo fácil.

“Foi aí que eu escrevi o ‘Antes do Álbum’. Enquanto artista eu tô muito focado nisso, em sair da minha zona de conforto, em fazer coisas que me motivam a evoluir, e me desafiam artisticamente falando, eu sinto essa necessidade…”

O processo de gravação desse trabalho foi diferente do habitual. Coruja costuma acompanhar a gravação de todos os artistas que ele convida, assim como a mixagem e masterização das faixas. Como não foi possível, tudo foi feito à distância. Para o cantor, o processo teve uma sensação experimental, já que não há certezas sobre a duração da quarentena, e que ainda assim, os trabalhos precisam ser mantidos, preservando sempre a saúde de todos os envolvidos. 

Musicalmente falando, o EP tem muita influência de artistas do Rap que são referências para Coruja. Sobre os temas, o rapper fala que tentou narrar suas vivências nos quatro primeiros meses de 2020, assim como outros temas que são recorrentes entre conversas com amigos, como afetividade, fé, sociedade e problemas sociais.

Segundo o cantor, as três primeiras faixas do EP representam três tempos da vida dele. A faixa “Ícaro” é sobre seu passado. “Baby Girl” retrata seu presente. Já “Som de Fazer Pivete” relata os seus planos para o futuro. 

“Eu fiz uma narrativa de três espaços de tempo, falando de afetividade de diferentes formas, acho que é uma curiosidade sobre o disco, é o primeiro projeto que eu gravo no meu Home Studio [estúdio em casa], então foi bem foda pra mim, bem emocionante também, que é uma parada que eu sempre quis ter, um estúdio dentro de casa.  Eu vi todos os meus amigos do Rap da minha época comprar um carro, e eu peguei e montei o meu estúdio, isso pra mim é uma realização muito grande”.

Você encontra o EP “Antes do Álbum” nas plataformas digitais.

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