Uns pela direita, uns pela esquerda: favelados tomando no centro 1 36

Não está sendo fácil compreender a polarização do debate político brasileiro nos últimos anos. Dia desses, um amigo morador de favela disse que foi até a barbearia dar um trato no visual – todos os barbeiros negros, favelados, evangélicos – e os clientes discutiam em quem votar na próxima eleição presidencial. Com um minuto de conversa, ele descobriu que todos eles eram eleitores de Jair Messias Bolsonaro (PSL). A tentativa de apresentar e explicar as propostas de outro candidato, como Boulos (Psol) ou Fernando Haddad (PT) foi em vão. É difícil dialogar com um eleitor de Bolsonaro, pois a maioria se informa por meio do WhatsApp. Um berço de fake news.

Quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a Rocinha em março de 2008, para o lançamento das obras do Programa de Aceleração do Crescimento em favelas do Rio, os moradores estenderam uma faixa agradecendo o presidente pelo pacote de obras. Uma década depois, o conservadorismo avançou pelas favelas. O discurso bolsonarista vem ganhando força através de questões morais. Lula, agora, não é mais a bola da vez. Fernando Haddad, o substituto de Lula, carrega uma enorme responsabilidade. Pois, como ele diz em seu slogan: “Haddad é Lula” e o objetivo é fazer o povo feliz de novo. No entanto, Bolsonaro e Lula tem algo em comum: ambos são populistas.

Se há dez anos atrás Lula era aplaudido pelos investimentos sociais no país, hoje os moradores dizem que ele virou farinha do mesmo saco. “Foi engolido pelo sistema”, é a frase que mais ouço entre os eleitores de Bolsonaro, inclusive, alguns com quem conversei já votaram em Lula/Dilma. Os favelados conservadores enxergam o candidato do PSL como uma pessoa de fora do sistema. A falta de uma autocrítica do Partido dos Trabalhadores (PT) também é lembrada pelos moradores. Faltou humildade em não assumir erros. Mas engana-se quem pensa que a corrupção no país nasceu com o PT. A corrupção no Brasil existe desde o período colonial.

Mas será que a onda conservadora da favela tem origem na insegurança pública do Rio de Janeiro? Ou a população pobre se voltou contra as políticas sociais?

O Bolsa Família é um programa que contribui para o combate à pobreza e à desigualdade no Brasil. Cerca de 538.490 famílias estão inseridas no Cadastro Único no município do Rio de Janeiro. Dessas, 247.037 famílias são beneficiárias pelo Bolsa Família. O valor médio do benefício é de R$ 170,88 por família. Muitas famílias ainda precisam desse benefício. Outras famílias acreditam ser uma esmola que acomoda pobres. Porém, os conservadores não tem clareza sobre como podemos diminuir a desigualdade social sem as políticas sociais.

O ex-capitão do Exército, Bolsonaro, é um saudosista da ditadura militar no Brasil. E como nosso povo tem memória curta, vale lembrar que naquele período os militares fizeram remoções forçadas, além da presença militarizada do Estado no cotidiano dos moradores. Entre 1962 e 1974, mais de 140.000 pessoas foram removidas de suas casas, em especial nos bairros nobres, como a Lagoa e o Leblon, de acordo com o Relatório da Comissão da Verdade do Rio. Em 2018, vivemos uma intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro. O modus operandi continua sendo o mesmo. Mais e mais operações militares nas favelas. Com Haddad ou Bolsonaro, os tiroteios vão continuar porque sistema é foda.

O PT não soube desenvolver sua política de base nas favelas e nem em bairros populares nos anos em que esteve no poder. A incapacidade do governo de lidar com a pobreza e a violência permitiu o crescimento das igrejas evangélicas nesses territórios. Além das ideias religiosas, o evangelismo aproveitou a ausência do governo e passaram a tratar de assuntos sociais com os quais as pessoas lidam todos os dias. O fato de oferecer educação, segurança e desenvolvimento econômico ajudou a fortalecer o pensamento conservador. “Confesso para ti que é difícil de entender, no país do carnaval o povo nem tem o que comer”, cantou MV Bill na música “Só Deus pode me julgar”.

O conservadorismo não é o único fator que alavancou a popularidade de Bolsonaro. As pessoas estão desesperada por um político que traga algo novo. Mas, de novo, Bolsonaro não tem nada. Ele está na vida pública há 20 anos e ninguém sabe o que ele fez pelo estado do Rio.

Nada contra os debates morais, mas nosso país sente fome. Não é possível convivermos com a alta do desemprego, avanço da pobreza, corte de beneficiários do Bolsa Família e o congelamento dos gastos públicos por até 20 anos. Este último, Bolsonaro (na época era do PSC), votou a favor de fazer o Brasil retroceder 20 anos em 2 anos. Agora, ele se apresenta como solução para os brasileiros.

Independente de quem for o próximo presidente do Brasil, nós, os pobres, devemos abrir os olhos e votar criticamente. Que o sentimento anti-petista não nos leve para um cenário fascista, onde os conservadores falam sempre em corrupção, a ameaça à família tradicional e aos valores nacionais, mas reproduzem as mesmas atitudes da velha política. Tenhamos cuidado em quem vamos eleger, se não, continuaremos tomando no centro.

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8 Documentários para celebrar o Dia Internacional da Mulher 0 13

Celebrando o Dia Internacional da Mulher, selecionamos 8 obras audiovisuais produzidas por e sobre mulheres. Compartilhando realidades e dilemas sobre suas lutas, a lista de documentários independentes ajudam a reconhecer, valorizar e mobilizar pela luta histórica dos diversos e diferentes movimentos de mulheres na luta por direitos pelo mundo.

Todas as produções listadas vivem na #Bombozila – uma plataforma que reúne, organiza e facilita o acesso à produções documentais independentes. Com mais de 400 obras no catálogo, a #Bombozila tem foco na resistência política, além de mobilizações, seja por manutenção ou pela luta em favor dos direitos humanos básicos e muitas outras causas.

O dia Internacional da mulher é uma data estabelecida pela ONU na década de 1970 para simbolizar as lutas históricas de mulheres para equiparação salarial e de condições em relação aos homens, mas que foi ganhando mais simbolismos ao longo do tempo, como a luta contra a estrutura social machista e a violência que ela gera, entre tantos outros símbolos e causas que cercam a realidade da vida de uma mulher. 

  1. A DOR REPRIMIDA: VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E MULHERES NEGRAS – 

    Uma em cada quatro brasileiras que deram à luz já foi vítima de violência obstétrica. O tratamento hostil, seja na hora do parto, do pré-natal, do puerpério (pós-parto) ou numa situação de aborto é ainda mais comum entre mulheres negras e de periferia. “A dor reprimida: violência obstétrica e mulheres negras” propõe um debate sobre o tema, partindo de depoimentos de mulheres e profissionais que vivenciaram este conjunto de atos desrespeitosos, abusos, maus-tratos e negligência contra as mães. O documentário é o resultado do Trabalho de Conclusão de Curso da jornalista Mariana Sales pela Facom (UFBA).
  2. TRANSBAIXADA – 

    “TransBaixada” é um curta – documentário que traz um pequeno mergulho no universo trans na Baixada a partir dos relatos de três mulheres: uma cantora de funk de Queimados, uma funcionária da FIOCRUZ que mora em São João de Meriti e uma ex prostituta que viveu 10 anos na Itália mas não troca Caxias por nenhuma cidade do mundo.
  3. MAPANA

    Mapana é o nome de uma associação de mulheres do povo Ticuna. Localizada em Belém do Solimões (8 mil pessoas), a maior comunidade deste que é o maior grupo indígena do Brasil. Esta associação fornece produtos de suas roças para a merenda escolar de todas as escolas de Tabatinga (AM). Com seus resultados, tamanho e volume de produção, trata-se de uma experiência única que serve de exemplo para outras associações indígenas e comunitárias.
  4. ARPILLERAS: ATINGIDAS POR BARRAGENS BORDANDO A RESISTÊNCIA – 

    O filme “Arpilleras” conta a história de dez mulheres atingidas por barragens das cinco regiões do Brasil que, por meio de uma técnica de bordado surgida no Chile durante a ditadura militar, costuraram seus relatos de dor, luta e superação frente às violações sofridas em suas vidas cotidianas. A costura, que sempre foi vista como tarefa do lar, transformou-se numa ferramenta poderosa de resistência, de denúncia e empoderamento feminino. Por meio desse “fio” condutor, cada mulher bordou sua história, singular e coletiva, na respectiva região do mapa do Brasil. No final das filmagens, formou-se um mosaico multifacetado de relatos de dor e superação. Estes bordados, que segundo Violeta Parra “são canções que se pintam”, trazem ao público uma reflexão do que é ser mulher atingida. Se lá, no Chile, é seguir procurando suas memórias espalhadas como grãos de areia no deserto, aqui é buscar no fundo dos rios suas vidas alagadas, organizar-se, lutar e resistir.
  5. SAGRADO FEMININO EM PIABAS – 

    O documentário “Sagrado Feminino: o que o campo diz?” traz o relato das mulheres pretas e suas memórias das práticas de cuidado com a saúde, antes da chegada da medicina alopática. O filme aborda a inserção desses profissionais e as transformações ocorridas nessa comunidade, destacando também perfis de mulheres que contribuem para a sustentação dessa rede de saúde e cura, que reúne diferentes procedimentos, desde as rezas e benzimentos ancestrais até os medicamentos e remédios da biomedicina. Mas este documentário revela algo mais da riqueza singular que a pequena comunidade de Piabas possui.
  6. MARGARIDAS, LUTA E PÉ NA ESTRADA

    “Margaridas: luta e pé na estrada” é fruto da pesquisa de doutorado intitulada “Narrativas de si em Movimento, uma genealogia da ação política das mulheres trabalhadoras rurais do sul do Brasil”.

    O filme acompanha a participação de um grupo de mulheres trabalhadoras rurais da região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul na V Marcha das Margaridas, realizada em agosto de 2015 em Brasília-DF. Retrata o processo de participação na Marcha das Margaridas, desde a viagem em direção à Brasília, a chegada, a participação nas atividadades e a avaliação no retorno para casa. As narrativas das mulheres expressam os efeitos do processo de luta por melhores condições de saúde, educação, moradia, trabalho, acesso a terra e garantia de vida digna que compõem a pauta do movimento.
  7. POR ELAS – 

    Quatro mulheres compartilham suas histórias de violências, refletindo sobre o papel da sociedade na violência contra a mulher. 
  8. A MULHER QUE MOVE O MUNDO – 

    O curta-metragem documental “A Mulher Move O Mundo” retrata as ruas em 4 ocasiões: os 2 atos do 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher, ocorridos de dia e à noite, e as reações à execução da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ), tanto na vigília ocorrida na Praça Universitária, quanto no ato do dia seguinte.

    A denúncia do feminicídio e da opressão patriarcal, a construção de sororidade, o lamento pela morte de Marielle e a conclamação pela legalização do aborto e pela maior participação das mulheres nos governos, dentre outros elementos, somaram-se no grande caldeirão de manifestações cívicas de Março de 2018 em Goiânia.

Essa lista compreende realidades e cenários diferentes, vividos por mulheres de regiões distintas do Brasil, mas não aborda todas as questões que a estrutura social do nosso país faz com que sejam necessárias. Por isso, convidamos a todos a um aprofundamento no debate para além do simbólico Dia Internacional da Mulher, possibilitando enriquecer debater e a realização de mudanças factíveis que alcancem as vidas de cada brasileira. 

Texto: Renato Silva / Edição: Daiene Mendes / Foto: Divulgação/Bombozila

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Mulheres negras marcam posição em diversos atos do 8M pelo país 0 11

O Dia Internacional de Luta das Mulheres promete um momento histórico e decisivo na democracia recente do Brasil. Dezenas de manifestações estão programadas para os dias 6, 8 e 9 de março em diversas cidades do país.

Os atos vão acontecer em praças, ocupações por moradia, na frente de sedes da defensoria pública, em praias e outros tradicionais pontos de luta popular por direitos e em defesa da democracia.

No Rio de Janeiro, a concentração será na praça da Candelária, no dia 9, próximo ao local onde a vereadora negra Marielle Franco foi assassinada em 14 de março de 2018. O ato tem como mote ‘Mulheres Contra Bolsonaro por Nossas Vidas, Democracias e Direitos, por Justiça a Marielles, Claudias e Dandaras.

“As diversas organizações e movimentos independentes de mulheres negras, lá atrás, já vinham denunciando que a pauta apresentada pelo governo [do presidente Jair] Bolsonaro, do ponto de vista tanto econômico, quanto político para a Segurança Pública, era uma pauta que exterminaria as mulheres negras. Não é a toa que deixamos muito nítido as mortes de mulheres negras na nossa consigna deste ano”, diz Luka Franca, umas das organizadoras do 8M.

Em São Paulo, o bloco da Marcha das Mulheres Negras fará parte dos protestos que também representa uma continuidade da luta do “Ele Não” iniciada em 2018. O extermínio da juventude negra e o aumento exorbitante do feminicídio de mulheres negras servem como estopim para a discussão profunda do feminismo.

“Com essa retirada de lugar de um feminismo universalizante, que é branco, que é hétero, cis-normativo, a gente vem conseguindo desconstruir e avançar dentro dos processos de mobilização”, disse Luka.

Este ano, como aconteceu em edições anteriores, as mulheres negras vão marcar uma posição política contundente nos atos.

“Alguns movimentos têm muito o que aprender com nós mulheres, porque mesmo nas nossas diferenças e diversidades buscamos, e normalmente encontramos, uma unidade. Em 2018, o 8M teve pela primeira vez as mulheres negras e indígenas na frente. Foi muito importante. A ideia é que isso se repita em 2020”, disse Juliana Gonçalves, umas das organizadoras da Marcha das Mulheres Negras em SP.

Confira a lista dos atos por todo o país:

Nordeste

08.3 – Sergipe, Aracajú, 9h, no Arco da Orla
08.3 – Alagoas, Maceió, 14h, em Frente ao Iate Clube
08.3 – Rio Grande do Norte, Natal, 8h, na praça das Flores
08.3 – Bahia, Salvador, 9h, no Cristo da Barra
08.3 – Paraíba, João Pessoa, 15h, no busto de Tambaú
08.3 – Ceará, Fortaleza, 13h, no centro do Dragão do Mar

Norte

08.3 – Tocantis, Palmas, 7h, na feira da Alreny I
08.3 – Pará, Belém, 9h, na escadinha da estação das Docas
06.3 – Roraima, Boa Vista, 9h, em frente ao INSS

Sudeste

08.3 – São Paulo, São Paulo, 14h, no Masp
08.3 – Minas Gerais, Belo Horizonte, 14h, na ocupação Pátria Livre
09.3 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 17h, na praça da Candelária
06.3 – Espírito Santo, Vitória, 15h, em frente à sede da Defensoria Pública
08.3 – Espírito Santo, Vitória, 15h, no parque Moscoso

Centro-Oeste

06.3 – Goiás, Goiânia, 15h, na Faculdade de Educação, setor Leste universitário

Sul

08.3 – Paraná, Curitiba, 9h, Parolin.

Texto / Juca Guimarães | Edição / Simone Freire | Imagem / Tiago Zenero/PNUD Brasil

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